“Nós contra eles” e uma eleição “de inimigos”. Que efeitos terá o ataque a Bolsonaro?

A violência política, a crescer desde 2014, é cada vez mais visível no Brasil. E os efeitos do que aconteceu ao candidato de extrema-direita, esfaqueado num comício em Minas Gerais, são imprevisíveis.

 

Partidários de Bolsonaro manifestam o seu apoio

 

  -7 de Setembro de 2018

Foto: Partidários de Bolsonaro manifestam o seu apoio SEBASTIÃO MOREIRA/EPA

Com um candidato no hospital a baralhar a campanha, e o tom da sua recta final,

  • uma eleição que já era imprevisível, como disse Eliane Cantanhede,
  • pode agora ficar “catatónica”.

A colunista do jornal Folha de São Paulo Raquel Landim notava que o ataque mostra que esta é uma eleição “de inimigos”. “Não interessa em que se vai votar, mas sim contra quem”, escreveu.

A ironia é que o atingido é o candidato que,

  • tendo a maior percentagem de apoio (22%),
  • tem também a maior de rejeição (44%),
  • e que, apesar de ter certa a passagem à segunda volta, perderia com todos os candidatos (excepto o do PT, com quem empataria).

Os números desta sondagem, a primeira sem o candidato Luiz Inácio Lula da Silva, do PT (Partido dos Trabalhadores, esquerda), tinham sido divulgados no dia do ataque, na quinta-feira.

 

 

Esta sexta-feira, apoiantes de Bolsonaro fizeram um vídeo no hospital, com declarações do candidato,

  • visivelmente fraco,
  • com várias menções a Deus
  • e agradecimentos a Deus e aos brasileiros.

“Nunca fiz mal a ninguém”, declarou no vídeo, sem se pronunciar sobre o seu atacante a não ser numa frase: “Será que o seu humano é assim tão mau?”

O homem detido por ter atacado Bolsonaro, Adélio Bispo de Oliveira, já foi escrutinado e jornais brasileiros citavam pessoas mais ou menos próximas dizendo que “passava os dias num quarto escuro” ou que “não era normal, não”. O próprio confessou o ataque que, disse, realizou por “motivos pessoais” e por “ordem de Deus”.

Na Folha de São Paulo, a colunista Eliane Cantanhede avisava sobre a necessidade de, “a bem da democracia, que [o ataque] ficar restrito ao que é e não ao que querem que seja”.

Mas a campanha de Bolsonaro já evocou uma potencial conspiração maior.

Efeito na campanha

Num primeiro momento, houve quem considerasse que este ataque pode ajudar Bolsonaro nas eleições, cuja primeira volta se realiza a 8 de Outubro. Mas Carlos Melo diz que

  • um favorecimento pode desaparecer
  • com uma maior crítica do eleitorado ao seu discurso agressivo

– afinal, ainda no sábado, num comício no estado do Acre, Bolsonaro defendeu

  • “metralhar petralhas”, usando um termo pejorativo para os membros do PT
  • (que já abriu um processo por incitamento ao ódio).

O analista Rafael Cortez disse à BBC Brasil que

  • não acredita que o episódio traga mais votos a Bolsonaro,
  • apenas deverá consolidar o apoio existente
  • e evitar a antecipada “desidratação” do candidato no avançar da campanha na rádio e televisão, onde a sua exposição em termos de tempo de antena é muito pequena (porque é proporcional ao peso do partido ou coligação no Congresso).

Já a família de Bolsonaro está a partir do princípio oposto.

“Quero mandar uma mensagem aos bandidos que tentaram arruinar a vida de um homem de família, que é a esperança para milhões de brasileiros: vocês elegeram-no presidente. Ele vai ganhar na primeira volta”, declarou um dos seus filhos, Flávio Bolsonaro.

O facto de o candidato ser vítima deverá ajudá-lo, assim como o facto de nos próximos dias provavelmente se falar apenas dele. O candidato que mais tem atacado o candidato de extrema-direita, Geraldo Alckmin (PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira, de centro), pode ter que mudar de tom. Como atacar um homem que acabou de ser alvo de violência física, que está internado num hospital, perguntou o analista da Folha Vinicius Torres Freire.

Mas, em geral, o consenso é que

  • embora possam ser apontadas tendências,
  • é ainda muito cedo para ver o efeito deste ataque na campanha.

Até porque não é claro quando Bolsonaro terá alta hospitalar e se voltará ao terreno.

Os médicos do hospital Albert Einstein, em São Paulo, a unidade de saúde privada para onde foi transferido Bolsonaro após ter sido assistido em Juiz de Fora, Minas Gerais, onde se deu o ataque, emitiram esta sexta-feira um boletim dizendo que o paciente está “consciente e em boas condições clínicas”.

Certo é que

  • não terá alta na próxima semana,
  • e poderá levar dois meses até que esteja totalmente recuperado, segundo a agência Reuters.

O jornal O Globo diz que os filhos de Bolsonaro, Flávio, Eduardo e Carlos, assumirão parte dos compromissos de campanha do pai – Flávio é deputado e está na corrida para o Senado no Rio de Janeiro, e Eduardo tenta a reeleição para a Câmara dos Deputados por São Paulo. O número dois de Bolsonaro, o general na reserva Hamilton Mourão, também deverá aumentar o número de compromissos e assumir alguns do candidato principal.

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, anunciou um aumento da segurança aos candidatos. Até agora, Bolsonaro era o único que tinha protecção policial, cerca de 30 elementos que se dividiam em dois ou três turnos. Mas mesmo com esta protecção, o candidato andava entre a multidão o que o deixava vulnerável.

Com um candidato no hospital a baralhar a campanha, e o tom da sua recta final,

  • uma eleição que já era imprevisível, como disse Eliane Cantanhede,
  • pode agora ficar “catatónica”.

 

Maria João Guimarães

 

1 comment to “Nós contra eles” e uma eleição “de inimigos”. Que efeitos terá o ataque a Bolsonaro?

  • Beto

    A situação dramática do Brasil em relação aos desempregos, criminalidade, falta de saúde etc. criou se graças aos governos do Lula e da Dilma, dois governos que refletem a cara do povo e da Igreja católica que apoio estes governos. Jogar a culpa no Temer que estava junto com o PT e que está governando mal e mal 2 anos, é querer taxar a gente de idiota. Agora o Lula que desgraçou o país quer voltar para salvar o Brasil? De que jeito? Ou será que quer estragar mais ainda o país? – Nosso Senhor disse que é necessário rezar e fazer sacrifícios para mudar certas coisas. – O Brasil está tão atolado graças a nós mesmos que precisamos rezar mesmo.

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