Mais que um incêndio, um triste símbolo de um país que abandona a si mesmo

Um país que deixa sua memória histórica arder corre o perigo de queimar com ela seu presente e seu futuro

Foto: Pessoas observam como as chamas destroem o Museu Nacional/ RICARDO MORAES – REUTERS

O incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio, e com ele 200 anos da história do Brasil, foi mais do que um incêndio.

As chamas são o triste símbolo de um país que abandona a espinha dorsal da ciência, a da cultura e da arte para privilegiar uma política mesquinha de pequenos interesses pessoais dos que deveriam ser os guardiões da maior riqueza de um país, que é a memória da sua cultura.

 

Não é por caso que,

  • ainda neste ano, nem um só ministro do Governo tenha participado das festividades do bicentenário do Museu Nacional no Rio.
  • Não é por caso que todos os mecanismos de proteção do museu estavam abandonados,
  • e que os professores tivessem que pagar a passagem de ônibus das faxineiras do museu, que já havia sido abandonado à própria sorte.

As imagens dessas labaredas queimando o coração cultural e histórico do Brasil, que estão correndo o mundo,

  • poderiam ser um triste presságio,
  • às vésperas de uma eleição presidencial que se prenuncia incendiária e incerta para este país.

Quem estranha os surtos autoritários e direitistas que estamos observando

  • deveria analisar o Museu Nacional em chamas,
  • pela incúria de quem deveria ter cuidado de preservar sua riqueza histórica.

Poderia assim

  • entender melhor o voto de raiva de milhões de brasileiros
  • desiludidos com um sistema democrático que agoniza a partir da morte de seus valores culturais.

Um país que deixa sua memória histórica arder

  • corre o perigo de queimar com ela seu presente e seu futuro,
  • comprometidos pelo abandono de seus melhores valores,
  • que agonizam asfixiados por uma classe política
  • incapaz de entender que não existem saltos na formação das novas gerações.

Elas se constroem, se aperfeiçoam e se modernizam a partir dessa memória do passado.

Fachada do Palácio da Quinta da Boa Vista, prédio do Museu Nacional (Foto: Alexandre Macieira | Riotur)

 

Sem memória,

  • os jovens que deverão criar o novo Brasil
  • sem romper o cordão umbilical com o que seus antepassados lhes deixaram
  • acabarão como náufragos sem bússola,
  • num mar já muito agitado pela incerteza e pelas nuvens negras antidemocráticas e obscurantistas que o ameaçam.

Sem esperança, então?

Não. Brasil é maior que seus melhores museus, e todos os povos aprenderam na escola sobre seus fracassos e derrotas.

  • Que, das cinzas tristes e amargas do Museu Nacional do Rio,
  • um novo Brasil possa ressuscitar como a ave fênix da mitologia.

Um Brasil que

  • só será melhor e mais justo
  • se a cultura e a ciência chegarem a todos,
  • em vez de serem apenas patrimônio dos privilegiados.

Que as chamas do Museu Nacional, que hoje entristecem o Brasil e o mundo, sirvam de alarme e de exame de consciência na hora de digitar, dentro de algumas semanas, o voto na urna eletrônica, para não escolher de novo os que têm sido incapazes de preservar a rica memória deste país que hoje parece, como o museu que ardeu, abandonado à própria sorte.

 

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