A propósito de “aparições” marianas

Do fundo do meu Baú

 

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João Tavares – 02/09/2018 – Foto: arte certa

Provocado ou solicitado, tenho escrito e vou escrevendo bastante ao longo da minha vida de padre casado, á maneira de crónicas,  sobre assuntos teológicos, pastorais, eclesiais e, sobretudo, sobre a problemática dos padres casados no Brasil e no mundo.

Este assunto foi o que mais escritos me fez produzir, em geral na forma de Entrevistas á imprensa nacional e internacional. Quase que “obrigado” pelos sucessivos Presidentes do MFPC -Movimento das Famílias dos Padres casados do Brasil- que, infalivelmente vêm jogando para cima de mim qualquer pedido de Entrevista sobre o MFPC. 

Está tudo guardado no meu Baú. São crónicas e respostas de várias datas, cujo valor, a meu ver, ainda permanece. 

Começo hoje a publicação, respondendo a um colega e amigo padre casado de Manaus,  falecido no ano passado, que contestava o exorcista do Vaticano, Mons. Gemma o qual acusava as aparições de  Medugorje de engano diabólico.

Esse colega me tinha como “teólogo”… e me consultava sobre vários assuntos polêmicos. Eu aceitava a provocação com humor e respondia com sabia e podia, numa atitude dialógica, aberta, nunca definitiva… 

 

Meu caro Giovanni,

Quanto tempo… Pensava que tinhas sumido. Até de teus colegas de Manaus eu tive pedido de notícias tuas… Pelos vistos, andaste viajando e aproveitaste para ir em peregrinação até Medugorje, na bela Croácia que tive a oportunidade de conhecer e admirar nos anos 70, quando ainda fazia parte da Jugoslávia, então república socialista governada por Tito e ligada ao bloco comunista da Europa oriental.

Foto: Túmulo croata, em Split, com estrela vermelha e cruz / acervo pessoal

Passei uns dias em Split, bem perto, e teria ido também a Medjugorje, pois gosto de ver, apreciar, comparar. Mas nesse tempo ainda se não falava em aparições por essas bandas.

De Split, ainda guardo uma foto sintomática da sensibilidade dos cristãos croatas num regime “comunista”, se bem que já bastante aberto: uma tumba com um estrela vermelha gravada numa tábua e, na frente, uma cruz. É de 1977.

Gostei da tua reação  ao bispo-exorcista de Roma, cujo artigo contra Medjugorje eu difundi para nosso e-grupo do MPC e para outros. Sempre acho positiva uma boa troca de idéias, mesmo que chegue a virar polêmica, pois acredito na dialética como fonte de verdade maior.

Eu já estive várias vezes em Lourdes, onde gostei da bela paisagem verde e do ambiente de silêncio e oração. E sempre que passo na autoestrada A1,  perto de Fátima, indo de Lisboa para o norte de Portugal, onde mora minha família, entro, e vou rezar na capelinha das aparições e na basílica.

Aí, metade de mim fica feliz, pois nunca perdi a simplicidade da fé de meus Pais. Outra metade fica-me dizendo que a Revelação terminou com o Apocalipse e que as aparições não fazem parte da essência da nossa fé.

Gosto de ver o espetáculo de tanta fé sincera e de tanta oração cheia de simplicidade evangélica e de fervor. Aceito tranquilamente que lá possam ocorrer milagres físicos e espirituais, pois a fé do povo é grande e o poder de Deus é infinito. Mesmo que não goste de ver gente pagando promessas andando centenas de metros de joelhos… Acho que Deus, que já nos deu o seu Filho que pagou alto preço por nós, não aprecia tanto sacrifício.

 

Imagem relacionadaSantuário de Fátima / g1.globo.com

Não vou entrar no mérito teológico das “aparições”. Mas, com certeza, não fazem parte do núcleo da fé católica que aprendi na catequese e que desenvolvemos nos 4 anos de Teologia. Mesmo que o Papa vá e os Bispos aprovem, nunca passa de uma opinião particular deles, sem força de obrigar ninguém a acreditar. Isso tu sabes tão bem como eu.

E aí, a outra metade de mim fica de antenas ligadas e meio desconfiada com tantas aparições e tantas “novas” Mensagens divinas”. E, sobretudo, com uma Maria tão chorosa e tão pessimista.

Será que é culpa de meu culto às idéias claras e distintas de Déscartes?

Essa minha atitude de ceticismo vem de motivos teológicos, pastorais e sócio-políticos, pois tenho a certeza que Fátima, por exemplo, foi usada e abusada politicamente pelo governo de Salazar e pela hierarquia, durante cerca de 50 anos, para deixar Portugal no maior atraso da Europa: econômico, político, social e religioso.

Vangloriava-se o Governo e a Hierarquia que, graças a Fátima, Portugal era a terra abençoada por Deus e pela Virgem Maria, e que era o último bastião da Europa contra o Comunismo avassalador.

Como se esse fosse o único e o maior mal do mundo. E como desculpa para 50 anos de ditadura política e religiosa, pelas duas grandes autoridades do país: Salazar e a hierarquia católica, sobretudo encarnada no longo “reinado” do cardeal Cerejeira na sede de Lisboa. Ex-colega em Coimbra e muito amigo de Salazar. Sob o lema fascista: Deus, Pátria e Família, não pelos valores em si, mas pelo uso espúrio que deles foi feito durante tanto tampo, para alienar e castrar o corpo e a alma de Portugal.

Enquanto isso, fazia-se a guerra colonial onde os cristianíssimos portugueses, mataram dezenas, talvez centenas de milhares de Negros na Guiné/Bissau, Angola e Moçambique. Durante mais de 15 anos, metade do Orçamento do país era para a guerra colonial. E um milhão e meio de portugueses, para escaparem da guerra e da miséria, emigraram para a África do Sul, EUA, Canadá, Alemanha e França, muitos fugindo como clandestinos.

E os Bispos? Mudos!, sicut canes muti nolentes latrare, (como cães mudo que resolveram não ladrar), na pitoresca definição de Leão XIII, perante a ligação umbilical do Episcopado português com o Governo (devido à chaga do Padroado, que talvez estudaste na História da Igreja. O Papa mandava na Igreja Católica, mas não na Igreja Portuguesa, dependente diretamente do Governo).

Os missionários nas colônias, em pleno séc. XX, eram funcionários públicos pagos pelo governo, integrados à “nobre” missão de colonizar aquelas terras e seus povos: “Fé e Império!”

Foi por isso que eu, anti-salazarista desde meus 15 anos (levei forte bronca dos Superiores por isso!), me neguei a ir ser missionário em Moçambique, naquele tempo em guerra pela independência.

Além disso, a Maria das aparições é pessimista demais, chorona demais. E as mensagens que traz são, teologicamante:

– ou de evidência lapalissiana: rezar, amar o próximo, evitar o pecado…

– ou profundamente ambíguas: Jesus está sofrendo demais; Deus não aguenta mais tanto pecado e incredulidade e sua paciência está se esgotando; o Papa vai ter muito que sofrer; vai haver muitas calamidades…

– pior ainda, deixa a idéia quase herética de que a paixão, morte e ressurreição de Cristo não foram suficientes para salvar o mundo e de que ela está encarregada de suprir essas deficiências.

 

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Maria visita a prima Isabel / radiomaria.org.ar

Muito diferente da mulher simples, serena, prática, forte e simpática dos Evangelhos, que:

– aceita a revelação do anjo sobre sua maternidade singular;

– toma a iniciativa de ir ajudar no parto da velha prima Isabel;

– fica na sua, quando a barriga começa a crescer e José se apercebe e fica cheio de minhocas na cabeça;

– vai para o recenseamento em Belém, poucos dias antes do parto;

– recebe naturalmente a visita dos magos e o que eles lhe dizem;

– ouve, sem entender nada, a profecia de Simeão sobre seus futuros sofrimentos;

– enfrenta a solidão e os perigos do deserto para fugir de Herodes;

– reclama do frangote Jesus quando ele, aos 12 anos, fica em Jerusalém em vez de voltar com a caravana para a Galiléia;

– avisa Jesus para evitar a vergonha dos noivos com a falta de vinho em Caná e, apesar de Jesus desconversar, dá ordens aos servos para fazerem o que ele lhes mandasse;

– leva um fora de Jesus quando se faz anunciar a Ele, ocupado em sua missão;

– participa, trespassada de dor da paixão e morte do filho, de pé (stabat mater…);

– acompanha os apóstolos e os primeiros discípulos na Ressurreição, aparições seguintes, subida ao céu e vinda do Espírito Santo.

Aí, sim, deve ter começado a entender o significado de tudo o que viu, ouviu e viveu.

Sei que Maria não tem culpa de tudo o que acontece em torna das “aparições” sejam elas falsas ou verdadeiras e que Deus é livre para suscitar as aparições que bem entender, onde, como e quando quiser.

Ou, então, para permitir essas ilusões coletivas, talvez como um mal menor para um povo que, dois mil anos após, ainda não superou a quase inata tendência à magia, às hierofanaias, diria mesmo à idolatria, como os velhos hebreus. Povo português mal evangelizado e de vida esquálida que, cansado da falta de atitude evangélica de seus pastores e de atitudes positivas de seus governantes, se joga, se aliena, procura pegar no ar, onde aparecer, algo que alivie as suas dores e privações e lhe dê uma réstea de esperança concreta… e o salve das suas muitas necessidades. Muito grandes até Portugal entrar na União Europeia.

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Maria do Apocalipse: vestida de sol e coroada de 12 estrelas /pinterest.co.uk

Admiro e amo muito Maria, essa mulher simples e corajosa que ficou o tempo todo ao lado de Jesus, dos discípulos e da primeira comunidade cristã de Jerusalém, mesmo se, frequentemente, não entendia o significado profundo do que estava a acontecer.

Mas, por mais que me esforçasse, nunca aceitei a pieguice com que ela me foi apresentada nos 14 anos de Seminário.

Eu sentia algo de falso no ar, nessa devoção quase absoluta e sentimental demais a Maria.

Depois entendi o que ela era, para um bando de machos mal resolvidos na sua afetividade e sexualidade: uma excelente válvula de escape, um ópio e uma sublimação que, se não resolvia o problema de base, pelo menos o adiava indefinidamente ou até que a Natureza cobrasse o seu alto preço,

 

  • na tríplice concupiscência de S. João -1 Jo 2,16- (sexo, ambição e poder)
  • ou em  neuroses crônicas
  • e queda no alcoolismo.

Ela era: a melhor, a mais bela, a mais santa de todas as mulheres, porque era inatingível e, por isso, não oferecia perigo algum.

Já a mulher concreta, de carne e osso, sempre foi vista como um perigo, no seminário… e isso eu também nunca aceitei…, pois tinha mãe e irmã que eu “adorava”, tinha primas, colegas e amigas com quem sempre me dei muito bem e que nunca foram para mim perigo algum, pelo contrário…

O primeiro discurso sobre Maria que sinceramente me agradou, foi o de Paulo VI no fim da Terceira Sessão do Concílio Vaticano II, no fim de 1964, já durante meu curso de Teologia.

Também gostei muito do Cap. VIII da Lumen Getium sobre Maria no Mistério de Cristo e da Igreja .

Em síntese, era isto que te queria dizer, meu caro Giovanni. E agora termino, que já escrevi demais.

Um abraço para vocês. Vamos manter a comunicação, inclusive sobre a caminhada do MPC de Manaus de que há tempo não tenho notícias.

Um abraço para vocês todos do MPC de Manaus.

 

João Tavares

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