Carta de Viganò expõe conspiração em andamento contra o papa Francisco

Michael Sean Winters – 27 Agosto 2018

 O testemunho do arcebispo Carlo Maria Viganò prova uma coisa: o ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos está para a crise de abusos sexuais do clero como Oliver Stone está para o assassinato do presidente John Kennedy, um traficante de teorias conspiratórias que mistura fato, ficção e veneno para produzir algo explosivo, mas também suspeito.
Quando você terminar de ler este testemunho, como no final do filme de 1991 de Stone, “JFK”, você pode apenas concluir que o produto nos fala mais sobre o autor do que sobre o assunto.

A reportagem é de Michael Sean Winters, jornalista, publicado por National Catholic Reporter, 26-08-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

 

Viganò está certamente correto em dizer que o cardeal Angelo Sodano, durante muito tempo secretário de estado do papa João Paulo II, era patrono do ex-cardeal Theodore McCarrickStone reconheceu que o assassinato ocorreu em Dallas. Mas por que Viganò não menciona o papel fundamental desempenhado pelo cardeal Stanislaus Dsiwisz na proteção de McCarrick?

Viganò alega que o papa Francisco suspendeu as sanções contra McCarrick que foram impostas pelo papa Bento XVI. De fato, a manchete da história de Edward Pentin que deu a notícia desse testemunho diz: “O ex-núncio acusa o papa Franciscode não agir contra o abuso de McCarrick“.

Mas, Francisco agiu sim. Ele é quem removeu McCarrick do ministério em junho.

O foco central deste testemunho é a afirmação de que Bento XVI impôs sanções contra McCarrick:

  • “o cardeal deveria deixar o seminário onde ele estava morando,
  • estava proibido de celebrar [a missa] em público,
  • de participar de reuniões públicas,
  • de dar palestras,
  • viajar,
  • com a obrigação de se dedicar a uma vida de oração e penitência”,

escreve Viganò.

Durante o papado de Bento XVI, com meus próprios olhos, testemunhei McCarrick 

  • celebrando a missa em público,
  • participando de reuniões,
  • viagens, etc.

Mais importante ainda, o mesmo aconteceu com o papa Bento XVI!

Se Bento impôs essas penalidades, ele certamente não as aplicou. Ele

  • continuou a receber McCarrick com o resto da Fundação Papal,
  • continuou a permitir que ele celebrasse a missa publicamente no Vaticano,
  • até mesmo concelebrando com Bento XVI em eventos como consistórios.
Theodore McCarrick, Ex-arcebispo de Washington, e o Cardeal Donald Wuerl de Washington, concelebra a Missa de ação de graças na Basílica de S. Pedro, no Vaticano em 2010. (CNS/Paul Haring)

 

Mas, como Viganò conta, é tudo culpa do papa Francisco.

Viganò

  • é mais do que um pouco obcecado com a homossexualidade
  • e cita o nome de prelados que ele acusa de apoiar os esforços de “subverter a doutrina católica sobre a homossexualidade”.

O cineasta Stone estava obcecado com uma colina coberta por grama.

Nos meus dias de seminário,

  • quando um dos seminaristas dava sinais desse tipo de obsessão,
  • fazendo declarações exaltadas sobre a homossexualidade, suas fontes e seus efeitos,
  • ignorando os dados científicos e psicológicos emergentes,
  • o resto de nós olhava um para o outro e alguém dizia algo como:
  • “Eu gostaria de saber com quem ela gostaria de dançar”.

Algo semelhante está acontecendo durante todo esse verão.

  •  Bispos e arcebispos falam sobre pessoas gays com tanto ódio,
  • que você se pergunta como um ministro do Evangelho poderia falar tão maldosamente sobre outros seres humanos,
  • mas então passa por sua cabeça: eles não estão falando sobre outros seres humanos.
  • E você tem que se perguntar se o que você está vendo é uma manifestação de auto-ódio.

Infelizmente, a rede de desinformação de Viganò deixará sua marca. No meio de um tumulto de eventos, ninguém vai parar para fazer perguntas básicas e até mesmo os jornalistas podem esquecer-se de realizar tarefas básicas, como buscar por confirmação ou analisar as perguntas que surgem de um texto como o de Viganò.

Aqui estão algumas das minhas perguntas:

  • Viganò diz que ele deve desabafar sua consciência agora.
  • Porque agora?
  • Se ele se sentia tão perturbado pela imundície quanto afirma, por que ele não disse nada publicamente ou, pelo menos, à conferência dos bispos?

Lembro-me de alguns anos atrás, em uma reunião da conferência dos bispos, sentado do lado de fora do salão de festas em Baltimore conversando com um monsenhor da nunciatura.

  • Ele estava esperando por Viganò, que estava na sessão executiva da reunião dos bispos.
  • Por que ele não disse nada naquele momento?

Se, como ele afirma, McCarrick teve uma influência tão grande em Francisco,

  • como ele explica as brigas de McCarrick com os bispos argentinos sobre o padre Carlos Buela e o Instituto do Verbo Encarnado?
  • Quando os bispos argentinos, sob a liderança do então cardeal Bergoglio, se recusaram a ordenar os seminaristas do Verbo EncarnadoMcCarrick interveio para fazê-lo.

McCarrick não teve nada a ver com a escolha do bispo Blase Cupich para se tornar arcebispo de Chicago, nem com o arcebispo Joseph Tobin indo para Newark. É verdade que essas principais sedes foram preenchidas sem o consentimento ou opinião do núncio, o que diz apenas que Francisco conseguiu reconhecer o quão doente ele era antes que o resto de nós o reconhecesse. Meu cachorro, Ambrose, tem mais influência sobre o papa Francisco do que McCarrick teve.

Viganò chega até a recrutar o falecido padre jesuíta Bob Drinan para sua conspiração, bem como os signatários da declaração da Land O’Lakes de 1967 sobre o ensino superior católico. Sério? Lembro-me de uma velha piada de Joan Rivers sobre o fato de que um OVNI nunca aterrissou em HarvardYale ou Stanford. São sempre três broncos em uma pick-up bebendo cerveja: “Eu vi! Estava ali!”. Church MilitantCardinal Newman SocietyLifeSiteNews, esses são os bêbados da igreja e ficou claro que, por algum tempo, Viganò concordou com esses personagens.

Lembram como ele tentou arruinar uma viagem anterior do papa?

Foi ele quem, em 2015,

  • levou Kim Davis, a funcionária do condado de Kentucky que se recusou a emitir certidões de casamento para casais do mesmo sexo, a se encontrar com Francisco
  • e falsamente a apresentou como defensora da liberdade religiosa. Na verdade, Davis foi mandada para a prisão porque tentou impor suas opiniões religiosas aos outros.

E, como meu colega Joshua McElwee apontou,

  • sabemos o quanto Viganò se preocupa com as vítimas do abuso sexual do clero.
  • Em MinnesotaViganò encorajou o bispo auxiliar Lee Piche a destruir documentos relacionados à investigação do arcebispo John Nienstedt.

Viganò é um ex-empregado insatisfeito. Pessoas assim estão sempre com um pouco de raiva. Eles também costumam ser pouco confiáveis. Ele sempre foi um excêntrico. Mas não se engane:

  • este é um ataque coordenado contra o papa Francisco.
  • Uma conspiração está em andamento
  • e se os bispos dos EUA, como um corpo, não defenderem o Santo Padre nas próximas 24 horas,
  • estaremos nos encaminhando para uma cisão muito antes da reunião dos bispos em novembro.

Os inimigos de Francisco declararam guerra.

 

Nota de IHU On-Line: Na viagem de retorno de Dublin, o Papa Francisco se referiu ao testemunho de Viganò, afirmando:

“Li na manhã de hoje esse comunicado de Viganò. Digo sinceramente isto: leiam-no atentamente e tirem suas conclusões pessoais. Não direi nenhuma palavra sobre isto. Creio que o documento fala por si mesmo. Vocês têm a capacidade jornalística suficiente, com sua maturidade profissional, para tirar suas conclusões”.

A íntegra da entrevista do Papa Francisco pode ser vista, em italiano, aqui.

 

 

Michael Sean Winters

 

 

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