“A Igreja não terá solução se não mudar o clero”. Artigo de José María Castillo

José Maria Castillo -22 Agosto 2018Resultado de imagem para jose maria castillo papa francisco

 José María Castillo, teólogo, discute duas saídas para a atual crise da Igreja:
“1º) Eliminar o clero, da forma como ele hoje está organizado e gerido;
2º) Recuperar as “ordenações” “invitus” e “coactus” da Igreja antiga”.
O artigo é publicado por Religión Digital, 21-08-2018. A tradução é de Graziela Wolfart.

Eis o artigo.

papa Francisco acaba de publicar uma carta dirigida ao “povo de Deus, na qual denuncia os abusos sexuais que não poucos clérigos vêm cometendo contra menores de idade há vários anos. “Um crime que gera profundas e dolorosas feridas”, sobretudo nas vítimas, disse o papa.

Este assunto é gravíssimo, como bem sabemos.

  • Grave para as vítimas.
  • Grave para aqueles que o cometem.
  • Grave para a sociedade e para a Igreja.

Por isso já foram escritos centenas de artigos e muitos livros alertando sobre o perigo que tudo isso implica. E oferecendo soluções de todo tipo. Não irei discutir agora quem tem razão – e quem não tem – na análise e solução deste enorme problema. Quem sou eu para isso?

 

Só acredito que posso (e devo) dizer algo que me parece fundamental.

papa Francisco não hesita em dizer que o crime, que são os mencionados abusos sexuais, foram cometidos “por um notável número de clérigos e pessoas consagradas”.

Mas, quando se refere às consequências, o próprio papa afirma que “o clericalismo,

  • seja favorecido pelos próprios sacerdotes
  • como pelos leigos,
  • gera uma cisão no corpo eclesial”.

Ou seja, o clericalismo partiu a Igreja, destruiu-a. E uma Igreja quebrada, acaba rompendo até as consciências dos culpados e a vida dos mais frágeis.

Falar de “clero” não é a mesma coisa que falar de “clericalismo“. O dicionário da RAE [Real Academia Espanhola] diz que “clericalismo” é a “intervenção excessiva do clero na vida da Igreja, que impede o exercício dos direitos dos demais membros do povo de Deus.

O papa faz bem em responsabilizar, não tanto ao “clero”, mas mais propriamente ao “clericalismo”. E digo que o papa tem razão, ao utilizar esta distinção linguística, porque sabemos muito bem que, se falamos de “clero”, não se pode generalizar. Pelo mundo todo,“homens de Igreja” (clérigos) que são pura e simplesmente exemplares e até heroicos.

Outra coisa é se falamos de clericalismo“. Porque

  • a teologia e o direito eclesiástico são pensados e geridos
  • de forma que “inevitavelmente” todo “homem de Igreja”,
  • que não seja um santo ou um herói,
  • acaba exercendo o mais refinado e talvez brutal “clericalismo.

Pela simples razão de que,

  • se cumpre com o que a “teologia” e o “direito” da Igreja lhe impõem,
  • não tem alternativa a não ser “impedir o exercício dos direitos dos outros”.

Por exemplo,

Isso tem solução?

Claro que tem.

O termo “clero” significa “sorte”, “herança”, “benefício”. Segundo o Evangelho,

  • Jesus não fundou nenhum “clero”, nesse sentido.
  • Pelo contrário.
  • O que mandou a seus apóstolos é que fossem os “servidores” dos demais.
  • Até os proibiu que, para difundir o Evangelho, levassem dinheiro, mochila ou economias.

Tinham que seguir pela vida lavando os pés dos outros, como se sabe que faziam os escravos. Tornar-se padre

Ou seja, é assumir uma forma de presença na sociedade, como a que Jesus assumiu. Uma forma de vida que lhe custou a própria vida.

Então, isso tem conserto?

Claro que tem.

Mas supõe e exige dois passos, que são (ou seriam) muito difíceis de assumir:

1º) Eliminar o clero, da forma como ele hoje está organizado e gerido.

2º) Recuperar as “ordenações” “invitus” e “coactus” da Igreja antiga.

Estes dois termos latinos significam que

  • eram “ordenados” de ministros da comunidade cristã,
  • não aqueles que desejavam ou pediam,
  • mas os que não queriam.

Ou seja, os que eram eleitos pelo povo, em cada diocese e em cada paróquia.

Isso é o que mandavam os sínodos e concílios. E foi uma prática que durou séculos. De maneira que inclusive os grandes teólogos escolásticos dos séculos XII e XIII discutiam ainda sobre este assunto. Assim demonstrou, com ampla e séria documentação, o professor Y. Congar (em Rev. Sc. Phil. et Theol., vol. 50 (1966) 161-197).

(Fonte: Religión Digital) – (O artigo do professor Y. Congar)

***

Tradução do texto francês acima:

ORDENAÇÕES INVITUS, COACTUS.

DA IGREJA ANTIGA AO CÂNONE 214

Os fatos são conhecidos. Já Thomassin tinha recolhido um certo número deles, no capítulo onde se pergunta: ” Se se pode aspirar ao episcopado, ao sacerdócio e ao diaconato”, capítulo seguido por dois outros onde se encontra bem resumido o conjunto dos fatos e dos textos.

“Que depois de uma resistência razoável deve-se aceitar a ordem dos superiores, exceto no caso de indignidade ou de incapacidade notória”

” Quais regras os mais santos bispos seguiram para rejeitar ou para aceitar o episcopado?”

Não será, entretanto, inútil retomar brevemente a série dos fatos mais significativos, de a completar mesmo para além da época patrística, de citar os testemunhos mais significativos onde os CONSIDERANDOS e o próprio vocabulário podem ser decisivos para a interpretação dos fatos.

Clemente de Alexandria conta que os fieis pressionaram o apóstolo S. João, após seu retorno de Patmos para Éfeso, para ele organizar a Igreja e ordenar bispos para eles.

Apresentaram-lhe, para isso, um jovem ainda pagão, bonito e bem dotado. Este jovem foi confiado a um bispo que o instruiu e batizou –  Tradução de: João Tavares

***

 

Já estou terminando. Mas não posso me calar diante disso:

E o que é mais grave:

 

José María Castillo

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/582047-a-igreja-nao-tera-solucao-se-nao-mudar-o-clero-artigo-de-jose-maria-castillo

 

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