Homossexuais no Clero e o alerta do Papa

Note-se que a tendência homossexual, ainda que classificada como grave imaturidade, não é causa de impedimento ao sacerdócio.

 

Luís Corrêa Lima – 09 Agosto 2018

Foto: Reprodução / Dom total

“As declarações do papa podem gerar uma imagem de homofobia e intolerância. Porém, é preciso entendê-las”. 

O comentário é de Luís Corrêa Lima, sacerdote jesuíta e professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio, que trabalha com pesquisa sobre diversidade sexual e de gênero, e no acompanhamento espiritual de pessoas LGBT.

Eis o artigo.

Há poucos meses, o Papa Francisco esteve reunido com os bispos da Itália, tratando da crise

Após uma alocução estimulante,

  • câmeras foram tiradas do recinto,
  • jornalistas saíram,
  • portas se fecharam

e teve início uma conversa franca entre o Papa e o episcopado italiano.

Então, ele teria convidado os bispos

  • a um atento discernimento sobre candidatos homossexuais ao sacerdócio,
  • pois os que têm estas tendências “profundamente enraizadas”
  • e a prática de “atos homossexuais”

podem comprometer

  • a vida do seminário,
  • a do próprio jovem,
  • seu futuro sacerdócio
  • e gerar escândalos.

E teria alertado: “Se vocês tiverem a menor dúvida, é melhor não os deixar entrar”.

 

Estas prováveis declarações do papa podem gerar uma imagem de homofobia e intolerância. Porém, é preciso entendê-las à luz do ensinamento da Igreja a este respeito, que tem sutilezas importantes. Nesta questão, o pontificado de Francisco tem reiterado as posições de uma Instrução de seu antecessor Bento XVI, de 2005:

a Igreja não deve admitir ao seminário e à ordenação aqueles que

  • “praticam a homossexualidade,
  • apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas
  • ou apoiam a chamada cultura gay”.

Estas pessoas encontram-se numa situação de grave obstáculo a um correto relacionamento com homens e mulheres.

 

Segundo a mesma Instrução, compete à Igreja definir os requisitos necessários para a ordenação e chamar os que ela julgar qualificados.

  • No rito latino se supõe o compromisso do celibato;
  • nos ritos orientais, ou o celibato ou um matrimônio (heterossexual) bem consolidado.
  • O candidato ao sacerdócio deve atingir a maturidade afetiva que o torne capaz de estabelecer uma correta relação com homens e mulheres.
  • E com esta maturidade, deve desenvolver uma paternidade espiritual em relação à comunidade que lhe será confiada.

Cabe ao bispo ou ao superior religioso chamar à ordenação, depois de ouvir os encarregados da formação (1).

Como a questão remete aos bispos locais e aos superiores religiosos, alguns deles

  • fizeram na época importantes pronunciamentos,
  • permitindo compreensões mais matizadas e flexíveis da questão.

O então presidente da Conferência Episcopal Alemã, cardeal Karl Lehmann, afirmou que se deve entender por tendências homossexuais profundamente radicadas 

  • não quaisquer tendências pelo mesmo sexo,
  • mas aquelas que são um grave obstáculo a uma correta relação com homens e mulheres.
  • Seguindo esta interpretação, também as tendências heterossexuais profundamente enraizadas são um grave obstáculo.

*  O ex-superior geral dos dominicanos, Timothy Radcliffe, trabalhou em todo o mundo com bispos e padres, diocesanos e religiosos.

  • Ele afirmou não ter dúvidas de que Deus chama homossexuais ao sacerdócio.
  • E afirma que eles estão entre os sacerdotes mais dedicados e impressionantes que encontrou.
  • Por isso, nenhum sacerdote que esteja convencido de sua vocação deve se sentir classificado pelo documento como incapaz.
  • E pode-se presumir que Deus continuará chamando ao sacerdócio tanto homossexuais como heterossexuais, porque necessita dos dons de ambos.

Quanto à “cultura gay”Radcliffe diz que

  • seminaristas e sacerdotes não devem frequentar bares gays
  • e que seminaristas não devem desenvolver uma subcultura gay.

Qualquer subcultura sexual, gay ou hétero, é incompatível com o celibato. Mas apoiar a cultura gay significa apenas isto? Interroga-se ele.

A Instrução afirma que

  • a Igreja deve se opor à discriminação injusta contra os homossexuais,
  • assim como ela se opõe à discriminação racial.

Isto significa, então, que todos os sacerdotes devem estar preparados para se colocarem ao lado dos gays caso eles sofram opressão. E serem vistos do lado deles.

  • A sociedade, diz ele, tem obsessão por sexo,
  • e a Igreja deveria oferecer um modelo de sã e não compulsiva aceitação da sexualidade.

Catecismo do Concilio de Trento ensina que o sacerdote deve tratar de sexo “de preferência com moderação do que com excesso”.

  • Deveria haver mais atenção a quem os seminaristas podem odiar do que a quem eles amam.
  •  Racismo, misoginia e homofobia deveriam indicar que alguém pode não ser modelo de Cristo (2).

*  A Conferência dos Bispos Suíços também se pronunciou sobre a orientação sexual e a admissão ao sacerdócio:

“Nós somos profundamente gratos a todos os padres que vivem sua vocação com grande fidelidade. Nós temos consciência de que

  • em nosso colégio presbiteral e nos nossos seminários vivem coirmãos com orientação heterossexual e outros com orientação homossexual.
  • Nós respeitamos cada um como homem e coirmão.
  • Nós decidimos viver a castidade independentemente de nossa orientação sexual.

Por isso, no âmago de nossas reflexões sobre o acesso ao sacerdócio,

  • não há questão de orientação sexual,
  • mas a disponibilidade de seguir Cristo de maneira coerente” (3).

Portanto, a recepção da Instrução romana estimulou uma fidelidade criativa em alguns segmentos da Igreja.

  • A reflexão se aprofundou,
  • os conceitos foram matizados
  • e se abriram caminhos,
  • com um apreço maior pela pessoa homossexual.

Em 2007, a Cúria Romana publicou Orientações sobre o uso da psicologia na admissão e na formação de candidatos ao sacerdócio.

A formação para o sacerdócio é compreendida como uma configuração a Cristo, o bom pastor. Nesta formação,

  • deseja-se cultivar motivações espirituais e buscar um equilíbrio humano e afetivo,
  • para que haja liberdade interior na relação com os fiéis.

O uso da psicologia através de testes e de psicoterapia

  • é recomendado em certas circunstancias,
  • mas não é obrigatório.
  • O caminho formativo deve ser interrompido no caso de o candidato, pesar do seu empenho e do apoio psicológico,
  • ser incapaz de “enfrentar de modo realista” suas graves imaturidades.

Entre estas, são mencionadas:

  • forte dependência afetiva,
  • notável falta de liberdade nas relações,
  • excessiva rigidez de caráter,
  • falta de lealdade,
  • identidade sexual incerta
  • e tendências homossexuais fortemente enraizadas.

O mesmo vale no caso de excessiva dificuldade com o celibato, “vivido como uma obrigação tão penosa a ponto de comprometer o equilíbrio afetivo e relacional” (4).

Note-se que a tendência homossexual, ainda que classificada como grave imaturidade, não é causa de impedimento ao sacerdócio, mas a incapacidade de se lidar com isto de maneira adequada. A restrição da Instrução de 2005 foi amenizada. E, seja quem for o candidato, ele não deve viver a castidade no celibato a qualquer preço, sacrificando seu equilíbrio emocional. Esta norma é sabia e muito oportuna também para religiosos e fiéis leigos. Mas, em meio a tais notícias e controvérsias, a autoestima de candidatos, seminaristas, sacerdotes e religiosos com orientação homossexual pode ser bastante golpeada.

Na alocução aos bispos italianos, o Papa Francisco afirmou que a Igreja deve ser mãe e fez esta oração: “que Maria, nossa Mãe, nos ajude a fim de que a Igreja seja mãe” (5). É preciso ajudar a Igreja nesta missão tão nobre e amorosa. Seus filhos têm um inegável potencial a ser oferecido, que jamais deve ser desperdiçado. Mas também podem ter feridas e exigir cuidados que não devem ser negligenciados. Só assim a missão materna da Igreja pode ter êxito.

 

Notas:

1 – Disponível aqui.

2 – “Can gays be priests”? The tablet, 26 nov. 2005. Disponível aqui.

3 – Disponível aqui.

4 – Disponível aqui.

5 – Disponível aqui.

 

 

Luis Correa Lima

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/581655-homossexuais-no-clero-e-o-alerta-do-papa

 

 

 

1 comment to Homossexuais no Clero e o alerta do Papa

  • Irene Cacais

    Há homens heterossexuais e há homens homossexuais. O que quer dizer “tendências homossexuais fortemente enraizadas” ou como falou cardeal Lehmann “tendências heterossexuais fortemente enraizadas”?
    Ao meu ver cada pessoa tem a sua sexualidade fortemente enraizada, seja hetero ou homo.
    Mas como na Igreja católica romana o sacerdote tem que viver celibatário não deveria ter importância se o homem é homo ou hetero: simplesmente não pode ter sexo…..

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