Bilhete de Identidade do cristão*

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A palavra ‘feliz’ ou ‘bem-aventurado’ torna-se sinónimo de ‘santo’, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade.”

As bem-aventuranças implicam outro estilo de vida e são contracorrente.

  • “Felizes os pobres em espírito”: “as riquezas não te dão segurança alguma”; no coração dos que têm o coração pobre, “Deus pode entrar com a sua incessante novidade”.
  • “Felizes os mansos”: “a mansidão é outra expressão do desapego interior”.
  • “Felizes os que choram”: compreendem a angústia alheia e aliviam os outros…

O Papa Francisco sabe disso e escreveu a exortação Alegrai-vos e Exultai, para indicar o caminho dessa realização, na convicção de que Deus, “aquele que pede tudo, também dá tudo, e não quer entrar em nós para mutilar ou enfraquecer, mas para levar à perfeição”. Sempre sob o desígnio da alegria.

Francisco lembra o livro da Bíblia, Ben Sirá:

  • “Meu filho, se tens com quê, trata-te bem. Não te prives da felicidade presente”
  • e também São Francisco de Assis, “capaz de se comover de gratidão perante um pedaço de pão duro ou de louvar, feliz, a Deus, só pela brisa que acariciava o seu rosto”.

Não se trata, portanto, da “alegria consumista e individualista. Com efeito, o consumismo só atravanca o coração; pode proporcionar prazeres ocasionais e passageiros, mas não alegria”. A verdadeira alegria é aquela que “se vive em comunhão, que se partilha e comunica”, porque, segundo uma palavra de Jesus, “a felicidade está mais em dar do que em receber”.

Não será por acaso que na cultura de hoje se manifestam alguns riscos e limites, a evitar:

  • “a ansiedade nervosa e violenta que nos dispersa e enfraquece,
  • o negativismo e a tristeza,
  • a acédia cómoda, consumista e egoísta,
  • o individualismo
  • e tantas formas de falsa espiritualidade sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso actual”.

“O consumismo hedonista pode enganar-nos, porque,

  • na obsessão de nos divertirmos,
  • acabamos por estar excessivamente concentrados em nós mesmos,
  • nos nossos direitos e na exacerbação de ter tempo livre para gozar a vida…,
  • acabando por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem provar.

O próprio consumo de informação superficial e as formas de comunicação rápida e virtual podem ser

  • um factor de estonteamento
  • que ocupa todo o nosso tempo
  • e nos afasta da carne sofredora dos irmãos.

No meio deste turbilhão actual, volta a ressoar o Evangelho para nos oferecer uma vida diferente, mais saudável e mais feliz”, adoptando cada um o seu caminho e discernindo segundo os tempos e as circunstâncias, sem, por outro lado, ficar sujeito a um zapping constante. Deus é eterna novidade e não se pode cair

  • na sedução da habituação,
  • do “sempre foi assim”:

a Igreja não é “uma peça de museu nem uma propriedade de poucos”.

  • “O que é que tem real valor na vida?
  • Quais são as riquezas que não desaparecem?
  • Seguramente duas: Deus e o próximo. Estas duas riquezas não desaparecem.

” E as duas são inseparáveis. Jesus, mais do que muitas fórmulas e preceitos, entregou-nos “dois rostos, ou melhor, um só: o de Deus que se reflecte em muitos, porque em cada irmão, especialmente no mais pequeno, frágil, inerme e necessitado, está presente a própria imagem de Deus”.

Assim, a santidade é feita de abertura habitual à transcendência, que se expressa na oração e na adoração. “O santo é uma pessoa com espírito orante, que tem necessidade de comunicar com Deus. É alguém que não suporta asfixiar-se na imanência fechada deste mundo e, no meio dos seus esforços e serviços, suspira por Deus, sai de si erguendo louvores e alarga os seus confins na contemplação do Senhor.”

Há dois erros nocivos.

  • O daqueles que transformam o cristianismo numa “espécie de ONG”, privando-o daquela espiritualidade irradiante que o caracteriza.
  • Mas “é nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista”.

Sagrada é a vida dos pobres que

“se debatem

  • na miséria,
  • no abandono,
  • na exclusão,
  • no tráfico de pessoas,
  • na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados,
  • nas novas formas de escravatura e em todas as formas de descarte.

Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo,

  • onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo,
  • ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente”.

O que é ser santo?

Jesus explicou-o nas “bem-aventuranças”, que são “como que o bilhete de identidade do cristão”. ”

A palavra ‘feliz’ ou ‘bem-aventurado’ torna-se sinónimo de ‘santo’, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade.” As bem-aventuranças implicam outro estilo de vida e são contracorrente.

  • “Felizes os pobres em espírito”: “as riquezas não te dão segurança alguma”; no coração dos que têm o coração pobre, “Deus pode entrar com a sua incessante novidade”.
  • “Felizes os mansos”: “a mansidão é outra expressão do desapego interior”.
  • “Felizes os que choram”: compreendem a angústia alheia e aliviam os outros.
  • “Felizes os que têm fome e sede de justiça”: a realidade mostra-nos como “é fácil entrar nos gangues da corrupção, fazer parte dessa política diária do ‘dou para que me dêem’, onde tudo é negócio”.
  • “Felizes os misericordiosos”: a misericórdia é dar, servir os outros e também perdoar e compreender; “a medida que usardes com os outros será usada convosco”, disse Jesus.
  • “Felizes os puros de coração”, porque é do coração que procedem os homicídios, os roubos, os falsos testemunhos, preveniu Jesus.
  • “Felizes os pacificadores.”
  • “Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça.”

“Será com os descartados desta humanidade vulnerável que, no fim dos tempos, Deus plasmará a sua última obra de arte.”

  • “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo.
  • Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, estava nu e vestistes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.

Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizestes.”

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 *O título original do artigo, é: “BI do cristão”.

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/bi-do-cristao–9639916.html

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