Uma Religião Inteligente

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Frei Bento Domingues – 29/07/2018

Foto: Instituto Loureiro

  Não ficam mal, a nenhuma religião que queira ser inteligente, as observações do Papa Francisco:

“Uma fé que não nos põe em crise é uma fé em crise; uma fé que não nos faz crescer é uma fé que deve crescer; uma fé que não nos questiona é uma fé sobre a qual nos devemos questionar; uma fé que não nos anima é uma fé que deve ser animada; uma fé que não nos sacode é uma fé que deve ser sacudida.”

 

  1. Para António Damásio, “não temos qualquer relato científico satisfatório quanto à origem e ao significado do Universo, ou seja, não temos uma teoria de tudo que nos diga respeito. Serve isto para recordar que os nossos esforços são modestos e hesitantes, e que devemos estar abertos e atentos quando decidimos abordar o desconhecido”[1].

Em certas formas de espiritualidade e de teologia, a modéstia não é a regra. Na orientação espiritual, não falta quem se julgue conhecedor da vontade de Deus e com capacidade de a discernir para si e para os outros. Implorar o Espírito Santo para acolher a sua luz é uma condição essencial para estarmos prontos a dar razão da nossa esperança, como recomenda S. Pedro[2]. Sem esse cuidado, seremos cegos guias de cegos. Pedir conselho é próprio de quem reconhece os seus limites. Daí a convencer-se que podemos coincidir, nas nossas opiniões, com a vontade de Deus, é presunção a mais.

Em teologia, sempre me agradou a extrema modéstia de Tomás de Aquino. Foi discípulo de Alberto Magno, assim chamado pelo seu saber enciclopédico e pela sua curiosidade insaciável. Tomás tinha uma consciência pedagógica mais apurada. Notava que os mais novos tinham dificuldade em seguir a multiplicidade de questões no campo científico, filosófico e teológico. Comentou Aristóteles e muitos livros da Bíblia, participou em muitas questões disputadas e não receava ser exposto à curiosidade dos estudantes acerca dos temas mais variados. Resolveu elaborar um imenso guião para principiantes. Acabou por ser muito apreciado pelos investigadores. Trata-se da Suma de Teologia.

Modesta era a sua própria ideia de teologia. Depois de expor o seu projecto, as suas exigências, o seu método e de estabelecer os argumentos humanos que apoiam a fé na existência de Deus, ao dizer vamos tentar saber como Deus é, suspende esse atrevimento: vamos saber como Deus não é[3]. A sua teologia é, sobretudo, uma anti-idolatria. Não atribuir a Deus e à sua vontade o que são construções nossas.

No final da vida, a partir da sua experiência mística, disse: tudo o que escrevi me parece palha. A teologia negativa livrou-o da idolatria das concepções teológicas. Não era cepticismo. Como cantou, no seu poema para a festa do Corpo de Deus, seguiu o princípio: atreve-te quanto puderes.

  • Não tinha o culto da humildade ignorante,
  • nem se contentava com repetir um credo ortodoxo.

Escreveu: “é necessário que aqueles que buscam as raízes da verdade

  • se apoiem em razões
  • e se esforcem por saber como é verdade aquilo que afirmam.

De outro modo, se o mestre se contenta com resolver a questão com o recurso a autoridades,

  • poderá assegurar, sem dúvida, ao ouvinte, o que está certo na fé,
  • mas este não adquire ciência nem compreensão e ficará de cabeça vazia”[4].

A teologia cristã e a verdadeira espiritualidade

  • são fruto da mente e do coração 
  • no interior da dinâmica da fé teologal,
  • cujo termo não são os artigos da fé,
  • mas o infinito mistério de Deus amado e conhecido.

A oração faz parte da investigação teológica, como mostrou Sto. Anselmo, na perspectiva de Sto. Agostinho:

“Não procuro, Senhor, penetrar na tua profundidade… Mas quero compreender, ainda que seja um pouco, a tua verdade que o meu coração crê e ama. Não procuro compreender para crer, mas creio para compreender, pois, bem sei, se não creio, não compreenderei”[5].

Nunca podemos prescindir do conhecimento científico nem do questionamento filosófico. Se não virmos que, pelo lado de Jesus Cristo, corre a vida e o sentido último da nossa história, não poderíamos acolher a sua graça. A graça não substitui a natureza, antes a reforça.

  • Uma teologia sadia nasce e desenvolve-se dentro de uma espiritualidade aberta à acção evangelizadora.
  • Uma prática evangelizadora exige e desenvolve uma vida e uma teologia mística.
  • Karl Rahner insurgiu-se, com razão, contra uma teologia kerigmática que desprezava a investigação científica[6].
  • Uma teologia pastoral sem investigação é um engano.
  • Uma teologia que pretende ser científica e não cheira a povo perde-se no vazio, como diz o Papa Francisco.

 

  1. Não podemos crer sem interpretar. Edward Schillebeeckx, depois de todos os embates que teve com o Vaticano, mostrou que tinham interpretações diferentes das mediações humanas da fé. Elaborou, por isso, os pressupostos e a ciência da interpretação.
  • Parte da experiência da fé na Bíblia,
  • não como uma teologia da palavra,
  • porque a palavra de Deus é a palavra dos seres humanos que falam de Deus.

Dizer, sem mais, que a Bíblia é a palavra de Deus, não corresponde à verdade. Só é a palavra de Deus indirectamente.

  • Os escritos bíblicos são testemunhos de homens e mulheres de Deus, que viveram uma experiência e a exprimem.
  • A sua experiência vem do Espírito e, neste sentido, pode dizer-se, com razão, que a Bíblia é inspirada,
  • mas, ao mesmo tempo, é preciso não esquecer a mediação humana, histórica, contingente.

Nunca existe encontro directo de Deus, só a sós, com o homem.

  • Efectua-se sempre através de mediações.
  • São os seres humanos que falam de Deus.
  • Não aceitar mediações históricas é cair, necessariamente, no fundamentalismo[7].

 

  1. Alegra-me que Aga Khan tenha dito que a religião ismaelita é uma religião inteligente. Tem como premissas a paz, o bem-estar, a sabedoria e o desenvolvimento[8]. Parece querer recuperar, na actualidade, o que foi uma das correntes criadoras do Islão medieval. Uma religião que não pensa, ou que só pensa o já pensado, cai inevitavelmente no fundamentalismo e na violência.
  • Terá sido uma iniciativa inteligente a criação de um Estado judaico?
  • Não irá aumentar o anti-judaísmo?
  • Não será um Estado de exclusão?

Não ficam mal, a nenhuma religião que queira ser inteligente, as observações do Papa Francisco:

  • Uma fé que não nos põe em crise é uma fé em crise;
  • uma fé que não nos faz crescer é uma fé que deve crescer;
  • uma fé que não nos questiona é uma fé sobre a qual nos devemos questionar;
  • uma fé que não nos anima é uma fé que deve ser animada;
  • uma fé que não nos sacode é uma fé que deve ser sacudida.

Acrescenta também: existe o perigo real de deixar às gerações vindouras escombros, desertos e imundices[9].

Boas férias e até Setembro

NOTAS:

[1] A estranha ordem das coisas, Temas e Debates, Lisboa, 2017, p. 332

[2] 1P 3, 15-16; Rm 8, 26-27
[3] S.Th., I, q.3, prólogo (cf. q. 12 e 13)
[4] Quodlibet, IV, q.9, a.3
[5] Proslogion, 1
[6] Karl Rahner, Le courage du théologien, Paris, Cerf, 1985, pp 43
[7] Maria Clara Bingemer, Experiência de Deus na contemporaneidade, Lisboa, Paulinas 2018. A autora teve em conta Karl Rahner, mas esqueceu-se de Edward Schillebeeckx, Je suis un théologien heureux, Paris, Cerf, 1995
[8] Revista do Expresso, 21.07.2018
[9] L’ Osservatore Romano, O clamor angustiado da terra, 12.07.2018, http://www.osservatoreromano.va/vaticanresources/pdf/POR_2018_028_1207.pdf

 

 

 

Frei Bento Domingues, O.P.

Fonte: https://www.publico.pt/2018/07/29/sociedade/opiniao/uma-religiao-inteligente-1839219

 

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