China. A visão de Xi Jinping sobre a governança global

“Nas próprias palavras de Xi, “a China tem estado no melhor período de desenvolvimento desde os tempos modernos, enquanto o mundo está passando pelas mudanças mais profundas e sem precedentes em um século”.
Claro, obstáculos formidáveis estão à frente da China.
Mas Xi concluiu que os obstáculos que enfrentam os EUA e o Ocidente são maiores”, opina Kevin Rudd, primeiro-ministro da Austrália entre 2007 e 2010, em palestra realizada na Universidade Nacional de Cingapura, publicada por Project Syndicate e reproduzida por Carta Maior, 13-07-2018. A tradução é de Carlos Eduardo Silveira.

“O futuro da ordem global está em um estado de fluxo. A China tem um roteiro claro para o futuro. Está na hora de o resto da comunidade internacional desenvolver um para si mesma”, conclui Rudd.

Eis o artigo.

O contraste entre a desarranjo no Ocidente, claramente expostos na reunião de Cúpula da Otan e na reunião do G7 do mês passado no Canadá, e a crescente autoconfiança internacional da China está ficando mais clara a cada dia.

No mês passado, o Partido Comunista da China (PCC) concluiu sua Conferência Central sobre Questões de Relações Exteriores, a segunda desde que Xi Jinping se tornou o governante indiscutível da China em 2012. Essas reuniões não são assuntos cotidianos. Eles são

  • a expressão mais clara de como a liderança vê o lugar da China no mundo,
  • mas, da mesma forma, diz muito ao mundo sobre a China.

A última conferência desse tipo, em 2014,

  • assinalou o funeral do ditado de Deng Xiaoping: “esconda sua força, tome seu tempo, nunca assuma a liderança,”
  • e anunciou uma nova era de ativismo internacional.

Em parte, essa mudança refletiu

  • a centralização do controle de Xi,
  • a conclusão dos líderes chineses de que o poder americano está em relativo declínio
  • e sua visão de que a China se tornará um “player” econômico global indispensável.

Desde 2014, a China expandiu e consolidou sua posição militar no Mar do Sul da China.

Isso levou à ideia da Nova Rota da Seda e transformou-a em um negócio multimilionário, abrangendo

  • comércio,
  • investimento,
  • infraestrutura
  • e uma iniciativa geopolítica / geoeconômica mais ampla e envolvendo 73 países diferentes em grande parte da Eurásia, África e além.

E a China engajou a maior parte do mundo desenvolvido para o primeiro banco multilateral de desenvolvimento não-Bretton Woods, o Banco de Investimento Asiático em Infraestrutura.

A China também

  • lançou iniciativas diplomáticas além de sua esfera imediata de interesse estratégico no Leste Asiático,
  • ademais de participar ativamente de iniciativas como o acordo nuclear do Irã de 2015.
  • Desenvolveu bases navais no Sri Lanka, no Paquistão e no Djibuti,
  • e participa de exercícios navais com a Rússia em lugares distantes como o Mediterrâneo e o Báltico.

Em março, a China estabeleceu sua própria agência de desenvolvimento internacional.

O surgimento de uma grande estratégia coerente (independentemente de o Ocidente escolher reconhecê-la como tal) não é tudo o que mudou desde 2014. Para começar,

  • a ênfase no papel do PCC é muito mais forte do que antes.
  • Xi, preocupado com o fato de o partido ter se tornado marginal aos principais debates políticos do país,
  • reafirmou o controle partidário sobre as instituições do Estado
  • e deu precedência à ideologia política sobre a formulação de políticas tecnocráticas.

Xi está determinado

  • a desafiar a linha de tendência da história ocidental,
  • a se livrar do “fim da história” de Francis Fukuyama com o triunfo geral do capitalismo democrático liberal,
  • e preservando um Estado leninista a longo prazo.

 

 

Xi Jinping  – https://www.cartamaior.com.br/arquivos CartaMaior/Arquivos

 

Essa abordagem – conhecida como Pensamento Xi Jinping – agora perpassa a estrutura de política externa da China. Em particular,

  • a visão de Xi de que existem “leis” imutáveis identificáveis de desenvolvimento histórico,
  • tanto prescritivas quanto preditivas,
  • foi particularmente proeminente na conferência de política externa do mês passado.

Se isso soa como materialismo dialético antiquado, é porque Xi abraça a tradição marxista-leninista como sua estrutura intelectual preferida.

Dada sua ênfase nas leis de ferro do desenvolvimento político e econômico, uma visão do mundo materialista dialética, significa que não há nada aleatório sobre os eventos mundiais. Assim, argumenta Xi,

  • se a estrutura analítica de Marx for aplicada ao período atual,
  • fica claro que a ordem global está em um ponto de virada,
  • com o relativo declínio do Ocidente
  • coincidindo com as fortuitas circunstâncias nacionais e internacionais que permitem a ascensão da China.

Nas próprias palavras de Xi,

“a China tem estado no melhor período de desenvolvimento desde os tempos modernos, enquanto o mundo está passando pelas mudanças mais profundas e sem precedentes em um século”.

Claro, obstáculos formidáveis estão à frente da China. Mas Xi concluiu que os obstáculos que enfrentam os EUA e o Ocidente são maiores.

Como esse pensamento vai agora conduzir a política externa concreta da China, é da imaginação de cada um. Mas

  • como os estados de partido único, em particular os estados marxistas,
  • optam por “idealizar” a realidade
  • tem grande importância: é como o sistema fala consigo mesmo.

E a mensagem de Xi para a elite da política externa da China é uma de grande confiança.

Especificamente, a Conferência Central pediu que as instituições de política internacional e o pessoal do país adotassem a agenda de Xi.

Aqui Xi parece ter o Ministério do Exterior em sua mira. Há um forte sabor ideológico na aparente frustração de Xi com a abordagem glacial do ministério à inovação política. Os diplomatas chineses foram instados a ter em mente que eles são, em primeiro lugar e acima de tudo, “quadros partidários”, sugerindo que Xi provavelmente impulsionará o aparato da política externa para um maior ativismo, para dar pleno efeito à sua visão global emergente.

A maior mudança surgida da conferência do mês passado diz respeito à governança global. Em 2014, Xi referiu-se a uma luta iminente pela futura estrutura da ordem internacional. Embora ele não tenha elaborado, muito trabalho foi dedicado a três conceitos inter-relacionados: 

  • guoji zhixu (a ordem internacional);
  • guoji xitong (o sistema internacional)
  • quanqiu zhili (governança global).

Naturalmente, esses termos também têm, em inglês, significados diferentes e sobrepostos.

Mas, em termos gerais, em chinês,

  • o termo “ordem internacional” refere-se a uma combinação das Nações Unidas, as Instituições de Bretton Woods, o G20 e outras instituições multilaterais (que a China aceita), bem como o sistema americano de alianças globais (o que a China não aceita).
  • O termo “sistema internacional” tende a se referir à primeira metade desta ordem internacional: a complexa teia de instituições multilaterais que operam sob um tratado internacional e busca governar as questões compartidas globais com base no princípio da soberania compartilhada.
  • E “governança global” denota o desempenho real do “sistema internacional” assim definido.

O que é surpreendentemente novo nas observações de Xi na Conferência Central foi o seu apelo para que a China agora “liderasse a reforma do sistema de governança global com os conceitos de equidade e justiça”. Esta é, de longe, a afirmação mais direta das intenções da China sobre essa importante questão oferecida até agora. O mundo deve se empenhar e se preparar para uma nova onda de ativismo político internacional chinês.

Como grande parte do resto da comunidade internacional, a China está bastante consciente da disfuncionalidade de grande parte do atual sistema multilateral. Portanto, o desejo de Xi de liderar “a reforma do sistema de governança global” não é por acaso. Reflete um crescente ativismo diplomático em instituições multilaterais, a fim de reorientá-las em uma direção mais compatível com o que a China considera seus “interesses nacionais centrais”.

Xi lembrou à elite política internacional da China que a totalidade da futura direção da política externa da China, incluindo a reforma da governança global, deve ser impulsionada por esses interesses nacionais centrais. Nesse contexto, a China também quer um sistema internacional mais “multipolar”.

Este é o código para um mundo em que o papel dos Estados Unidos e do Ocidente é substancialmente reduzido.

O desafio para o resto da comunidade internacional é definir que tipo de ordem global queremos agora.

O que instituições existentes como

  • União Europeia,
  • Associação das Nações do Sudeste Asiático
  • ou a União Africana

querem para o sistema internacional fundado em princípios para o futuro?

O que exatamente os EUA querem, com ou sem Trump?

E como preservaremos coletivamente os valores globais incorporados

  • na Carta da ONU,
  • nas instituições de Bretton Woods
  • e na Declaração Universal dos Direitos Humanos?

O futuro da ordem global está em um estado de fluxo. A China tem um roteiro claro para o futuro. Está na hora de o resto da comunidade internacional desenvolver um para si mesma.

 

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Kevin Rudd

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/580849-a-visao-de-xi-jinping-sobre-a-governanca-global

 

 

 

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