Caindo a máscara

A Direita, o Agronegócio e a Confederação Nacional da Indústria, depois de terem imposto a “Reforma Trabalhista”, mostram sua verdadeira cara.
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Vladimir Safatle – 14 Julho 2018

Foto: YouTube

 Aos poucos, adesão à brutalidade do protofascismo nacional é exposta.

O artigo é de Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”, publicado por Folha de São de Paulo, 13-07-2018.

 

Eis o artigo.

Com a estabilização dos votos em Jair Bolsonaro e a inanição de outros candidatos conservadores, o Brasil começa a ver a máscara cair. Aos poucos, setores do empresariado nacional, dos pequenos comerciantes, das classes tradicionalmente privilegiadas e das igrejas aparecem para expor sua adesão à brutalidade do protofascismo nacional.

De fato, esse fenômeno é recente. Quando empresários da CNI aplaudem alguém como Bolsonaro,  eles estão a dizer

  • que não estão mais dispostos a pacto social algum,
  • que confiam agora que ganharão em um confronto aberto
  • com seus empregados
  • e com os grupos que procuram, ao menos, regular os excessos do processo produtivo.

Conflitos trabalhistas poderão ser resolvidos a bala, fazendeiros poderão passar por cima de licenças ambientais com trator, qualquer traço de solidariedade social poderá ser chamado impunemente de vitimismo.

Pouco importa qual é, de fato, o “programa econômico” do candidato ou suas promessas. Liberalismo e protecionismo poderão andar de mãos juntas, já que a questão realmente não passa por aí. Ela passa pelo desejo inconfesso de esconjurar toda e qualquer possibilidade de transformação da sociedade brasileira.

Da mesma forma que Bolsonaro parece ter fixação em banheiros masculinos e femininos, seu eleitorado se volta contra qualquer coisa que pareça colocar a sociedade brasileira fora do eixo de suas formas tradicionais de reprodução.

Nada disso seria compreensível sem lembrarmos dos desdobramentos de 2013. As manifestações de 2013 expuseram a possibilidade de abalar os alicerces do poder governamental brasileiro em profundidade.

  • Prédios públicos foram queimados,
  • carros de imprensa foram virados,
  • o país viu 2.030 greves em apenas um ano e manifestações todos os dias, ao menos até o mês de novembro.

No entanto

  • toda verdadeira possibilidade de transformação traz no seu bojo sempre uma outra possibilidade, a saber,
  • a emergência de um sujeito reativo.

Esse sujeito reativo será composto por aqueles que, diante da decomposição virtual da adesão ao poder, aumentam ainda mais sua violência a fim de fazer a roda girar para trás.

  • Diante da possibilidade de uma mutação no conceito de “força” que dá forma à democracia —esta “força do povo”—,
  • haverá aqueles que procurarão recolocar a força em seus fantasmas mais hierárquicos e soberanos.

Contra uma força que se metamorfosearia

  • em dissolução do centro,
  • em destituição do poder
  • e na abertura a uma sociedade descontrolada,

haverá sempre aqueles que procurarão a segurança paranoica de uma força que é adesão a um corpo social

  • unitário,
  • estático
  • e violento.

Soma-se a isso o fato de essa regressão social poder agora ser vendida sob a forma de revolta anti-institucional, do poder que não respeita mais as negociações necessárias à “governabilidade” corrompida.

Não foram poucos aqueles que perceberam que,

  • nos tempos presentes, a extrema direita consegue se colocar como o discurso da ruptura,
  • enquanto os setores progressistas se apresentam como o discurso da preservação (de direitos, de pactos, de garantias).

Em uma sociedade que apresenta a consciência tácita de que suas instituições e sua “democracia” fracassaram, essa mistura de reação e ruptura é extremamente atraente para alguns.

Por isso, há de se admitir que o fenômeno Bolsonaro não desaparecerá do cenário político brasileiro, mesmo se seu representante-mor for trocado por uma figura mais palatável a certos setores da sociedade brasileira.

Esse desrecalque protofascista é um encontro do país com uma parte de si mesmo. Esse encontro ganha agora uma função maior para a definição do futuro. De nada adiantará tentar fazer um jogo miserável

  • entre “radicalização” e “moderação”,
  • entre “discurso do ódio” e “discurso do vamos viver juntos”.

Como dizia Jean Baudrillard (que tem ao menos o mérito de uma bela frase), “melhor morrer pelos extremos do que pelas extremidades”.

 

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