O terço na mão e o diabo no coração: o diário secreto do Padre Fontes

Na última sexta-feira 13 do ano, aqui fica a história de como um sacerdote aprendeu a dançar com o diabo. E de como o escreveu num diário secreto que tem desde os dez anos e agora mostrou.

 

É por isso habitual ter dificuldades a entrar no povoado ao fim da tarde: a hora do crepúsculo enche a única estrada de acesso a Vilar de bois de raça barrosã, que regressam à corte após um dia de pasto.

Mesmo no centro do lugar fica a casa de António Lourenço Fontes, padre.

É edifício mais comprido do que largo, com paredes de granito e pequenas janelas quadradas por onde a luz entra sempre focada. Nas habitações transmontanas raramente o sol se mostra capaz de inundar um quarto inteiro – e a do Padre Fontes parece estar sempre mergulhada numa relativa penumbra. É aqui, nesta casa escura com paredes forradas de livros, que começa esta história.

 

 

À entrada está a biblioteca de temas religiosos. Estantes onde sobram bíblias e interpretações da bíblia, teses de teologia, relatos da vida dos santos. Dali acede-se à parte traseira da casa. No primeiro quarto está a secção de política, sociologia e uma parede toda dedicada a escritores e poetas transmontanos. No segundo estão os livros de botânica, etnologia e antropologia. Depois há uma porta de madeira que dá acesso a um antigo lagar de azeite, também ele forrado de prateleiras.

“Tenho aqui uma coisa que nunca mostrei a ninguém”, diz o homem, enquanto galga um pequeno muro e procura com os dedos uma caixa. Lá dentro, pequenos cadernos gatafunhados com letra miúda, notas de pensamentos íntimos, relatos de tradições pagãs, escritos proibidos de contestação ao regime e à Igreja. O primeiro caderno é de 1950, ano em que Fontes entrou, tinha 10 anos, no seminário. “Isto é o meu diário. Mantive-o sempre comigo e mais ninguém. Talvez seja tempo de o partilhar.”

 

 

Esta noite, em Montalegre, o padre Fontes presidirá à última sexta feira 13 de 2018 – e, tendo em conta que a próxima só acontecerá em setembro de 2019, tem consciência de que poderá ser a sua última. “Ainda estou para cá para durar, que os transmontanos são rijos. Mas ando um bocado parkinsónico, preciso de me reformar das festas”, atira num gracejo.

O dia de azar é celebrado na vila desde 2002. Esgota hotéis e restaurantes, enche as ruas de gente para assistir a um espetáculo por onde desfilam artistas mascarados de bruxas e duendes.

O ponto alto é o responso da queimada, proferido pelo Padre Fontes no castelo, em frente a um enorme caldeirão de ferro. Um texto do tempo em que português e galego eram uma única língua, e que ele descobriu numa aldeia espanhola próxima da fronteira, chamada Randim:

“Vade retro Satanás, prás pedras cagadeiras. Lume de cadáveres ardentes, mutilados dos corpos indecentes, peidos de infernais cus. Forças do ar, terra, mar e lume, a vós requero esta chamada. Se é verdade que tendes mais poder que as humanas gentes, fazei que os espíritos ausentes compareçam a esta queimada.”

Isto é o Padre Fontes, o homem de fé que goza na cara do diabo. Tornou-se figura nacional em 1982, quando organizou o primeiro Congresso de Medicina Popular em Vilar de Perdizes e convocou para o centro da aldeia todo o tipo de bruxos e cartomantes, videntes e leitores de mãos. A ousadia fê-lo entrar em guerra com o bispo de Vila Real, aquilo era um atentado à Igreja.

Mas isto são as crenças e as tradições do meu povo. As mezinhas, os responsos, o diabo. Negar as nossas tradições – o nosso paganismo, até – seria minorar uma cultura riquíssima, que para mais se está a perder.”

 

 

Então diz-se etnólogo acima de tudo. Chamam-lhe rebelde e ele não o nega. Nos diários pessoais, aliás, está toda a narrativa da sua inquietação. Fontes

  • contrariou sempre as leis da Igreja com que não concordava.
  • Afrontou o salazarismo e encheu o peito contra a Guerra Colonial.
  • Pesquisou o oculto para entender a crendice – “porque só ao entendê-la podia destruí-la.”

Pagou por isso o preço de o esconderem numa aldeia isolada do Alto Barroso. Mas ele ripostou, fez do fim do mundo o seu centro. Na terceira página do seu diário de 1957 escreveu esta frase que pode bem explicá-lo inteiro: “Trago comigo o terço na mão e o diabo no coração.”

 

Tratado de audição das velhas

A entrada no seminário de Vila Real, aos 10 anos, foi gesto da própria vontade.

“Nasci em Cambezes do Rio em 1940, mas sempre tive sede de conhecer o mundo. Nas circunstâncias em que vivia, uma família pobre de 12 irmãos, ir para padre era a única forma de alimentar a minha curiosidade.” Nas férias, quando tornava a casa, sentava-se na cozinha a ouvir as histórias da mãe. E foi por isso que começou a escrever o seu diário.

“Ela recitava-me ladainhas para curar todos os males, misturas de ervas para tratar enfermidades, responsos para afastar os demónios. Fazia-o para que eu me aprendesse a proteger agora que tinha saído debaixo da saia dela. Eu escrevia tudo, tudo, tudo.”

Só muito mais tarde perceberia o tesouro que estava a receber nas mãos. Nesses cadernos de 1950 há

  • orações para afastar bruxas,
  • outras para desviar as alcateias,
  • há mezinhas para curar dores de garganta,
  • azares sucessivos
  • e os dias de solidão

– estes, por exemplo, resolvem-se fervendo um caldo de urze, mel e uma pedra apanhada à porta de casa.

 

 

Nos meses e anos seguintes estenderia a pesquisa às vizinhas, primeiro da sua aldeia, depois dos outros povoados isolados do Gerês.

“Sentava-me a meio da tarde no terreiro com as velhas para ouvi-las contar o que sabiam. Ao início escrevia tudo, mas depois era tanta coisa que comecei a selecionar o que era mais valioso.”

No seminário, repetia aos companheiros o que tinha registado. Começou a correr nos corredores que o Fontes sabia curar males e a fama acabou por chegar aos ouvidos dos padres. “Levei reprimendas, fiquei de castigo muitas vezes por isso, mas nunca lhes fiz caso. O diário permanecia escondido debaixo de uma laje solta que tinha sob a cama. E esse nunca o apanharam”.

A vida de Fontes era dupla.

  • Durante a semana aprendia a ser padre,
  • os sábados e domingos passava-os a ouvir lendas e a bailar nas festas.

“Aos 17 anos, o reitor descobriu que eu tinha estado num bailarico e tinha dançado com uma rapariga a noite toda. Já me achavam meio estranho, então aquela foi a desculpa para me expulsarem.” Não era bem o que tinha nos planos, mas ao sair do seminário decidiu agarrar numa mochila e cumprir um sonho antigo: ir a Sevilha.

Consigo não levava mais do que

  • uma tenda,
  • uma bíblia,
  • uma muda de roupa
  • e um tacho.

“Apanhava boleia de alguns carros motorizados, mas sobretudo de carros de bois. Acampava onde calhava, conheci o meu país inteiro, em Espanha fui às touradas. Foi a maior aventura da minha vida.”

Há um caderno inteiro com os detalhes dessa viagem, onde estão colados bilhetes de entrada em museus, desenhos de paisagens, registos de despesas.

“Quando voltei a Trás os Montes havia uma carta em casa. O seminário tinha decidido readmitir-me. Reuni com o reitor que me disse: ‘Ficas, mas tens de virar a casaca.’ Eu disse que sim, mas cá para mim pensei que a partir de agora havia de fazer as coisas à minha maneira.”

 

A partir dessa altura o diário de António Lourenço Fontes tornou-se no ensaio para o jornal clandestino que haveria de escrever no Seminário. Chamava-se A Trama, era escrito à mão, e assinado por um desconhecidoMarotus. Ali, Fontes convocava os colegas que se iam tornar padres a ouvirem o povo e as suas tradições, “porque cada velho que se extingue é uma biblioteca que morre.”

  • Gozava de caras com as incoerências do reitor, que apregoava a caridade e depois vivia faustosamente.
  • Reivindicava a descida do preço das propinas
  • e questionava a utilidade do voto de celibato.

Os textos originais ainda estão ali e ele ri-se ao lê-los outra vez. Não olhava para eles há mais de 50 anos.

Fazia uma única cópia, que deixava à porta do quarto dos amigos – e estes depois rodavam-no por toda a gente. Ninguém sabia quem era Marotus. No dia em que os padres descobriram a primeira cópia de A Trama houve um inquérito para apurar a identidade do autor. Mas nunca deu frutos. Sereno, a ver o escândalo diante dos seus olhos, Fontes ria-se sozinho. Levava o terço na mão e o diabo no coração, sim.

Onde Judas perdeu as botas

Na véspera de ser ordenado, a 22 de junho de 1963, o reitor do Seminário de Vila Real disse-lhe que a cerimónia ia ser anulada. “Tinha-lhe constado que eu ia fazer uma festa na minha aldeia depois da missa nova e ele disse-me que não iria tornar padre quem só estava interessado em bailaricos.”

O rapaz exasperou, pois era a primeira vez em mais de um século que a aldeia produzia um sacerdote. Ripostou: “Só se combate o diabo com a alegria.” O superior olhou-o demoradamente e por fim acedeu. Aquele rapaz estranho iria mesmo tornar-se operário de Cristo.

 

 

Nessa noite, António Lourenço Fontes escreveu no seu diário uma das mais inquietas páginas do registo:

“O Amândio diz que me vão capar, e a verdade é que lá terei de fazer o voto de celibato. Nem sei bem o que vou fazer. É mais um proforma do que um compromisso jurado.”

Mesmo hoje,

  • admite que teve várias namoradas depois de ser padre.
  • E insiste as vezes que forem precisas que não faz qualquer sentido que os padres não se possam casar. “Amo menos a Deus se amar uma mulher também?”
  • Ainda tem esperança que este Papa, Francisco, traga essa lufada de ar fresco à Igreja.

Logo depois de ordenado, foi – nas suas palavras – enviado para o desterro.

“Mandaram-me para padre em Tourém, que era a aldeia mais isolada de Montalegre, mas também a mais autêntica.” Recusava-se a vestir batina, o que acabaria por revelar-se bastante útil para ser aceite na comunidade.

“Nessa altura, havia uma igreja protestante na aldeia, fundada por um militar espanhol que se tinha estabelecido ali. Andavam às turras com os católicos, mas tratei logo de acalmar os ânimos, eram todos filhos de Deus. Acabámos a celebrar a missa juntos, pronto.”

Nos primeiros anos teve tempo de prosseguir a recolha de tradições, mas depois começou a sangria de rapazes. Os diários de 1967 a 1969 são de profunda reflexão política.

“Estou farto destes senhores medievais que nos governam. Nunca seremos um país desenvolvido enquanto o povo sentir que está sempre em dívida com os poderosos”, lê-se a 15 de março de 1968.

No ano seguinte, a 12 de fevereiro:

“O povo está a desenvolver uma tendência de desertar dos meios rurais. Pois se aqui só há fome e trabalho duro, que havemos de fazer? Emigram, fogem desta vida e fogem da guerra.”

Uma semana depois, a 19: ”

Porque raio andam estes rapazes a matar africanos que querem fazer da sua terra um país? Esta guerra tem de acabar e depressa. E esta ditadura o mesmo.”

 

 

Transformava estes pensamentos em cartas, e enviava-as ao irmão, que estava em Moçambique, e a um par de rapazes de Tourém, que estavam em Angola e na Guiné. Assinava com o pseudónimo Ramiro Concha do Rio, nome que voltaria a usar anos mais tarde, quando abriu o jornal Notícias de Barroso.

“Como iam num envelope da Igreja sabia que não seriam censuradas. E eles, lá em África, tinham instruções para lê-las em voz alta a um grupo de confiança uma única vez. E depois queimá-las.”

Por medo da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado – NdR),

  • inventou um alfabeto secreto de linhas e pontos, com que começou a escrever os textos mais incendiários do diário.
  • “E também fiz umas cartas com tinta invisível, feita de sumo de limão. Quando se aproximava do calor podia ler-se o que eu tinha escrito.”

Rir na cara do diabo

Em 1971 os seus bons serviços foram recompensados.

  • Para resolver a fome abundante na região
  • tinha organizado cursos agrícolas, que obrigavam o Governo Civil a distribuir leite e farinha pelo povo.

Tourém estava-lhe grata. “O bispo perguntou-me se queria ir para o Porto, mas numa cidade nada poderia fazer pelo povo. Pedi-lhe para ir para Vilar de Perdizes, que apesar de tudo estava menos isolada.” E foi.

Os dados que tinha recolhido utilizava-os agora em peças de teatro, que escangalhavam as gentes da aldeia de riso.

“Casamentos pagãos, tradições de bruxaria, todas essas coisas que o povo estava acostumado a temer.” Dizia-se naquela altura que não se devia assobiar de noite que o som chamava o diabo. “Pois a primeira peça que fiz começava no meio do terreiro, à meia-noite, comigo a assobiar. Era a minha arma para aniquilar a crendice: gozar com ela.”

 

 

No dia 27 de abril de 1974, António Lourenço Fontes escreveu no seu diário que tinha havido uma revolução em Lisboa e que lhe parecia que o país tinha finalmente condições para libertar-se do seu jugo medieval.

“A primeira coisa a fazer é ensinar este povo a ler e a escrever. E ensinar-lhes os direitos que têm diante dos poderosos.”

Preces atendidas:

  • meses depois entrava em marcha a campanha nacional contra o analfabetismo
  • e desaguava em Vilar de Perdizes um grupo de professores de Lisboa.

“Foram tempos extraordinários, esses.”

Um ano depois, o Padre Fontes editou o primeiro volume de Etnografia Transmontana – Crenças e Tradições de Barroso. Três anos mais tarde, um segundo volume, também ele feito a partir da recolha que enchera as páginas do seu diário. Manuel Barros, professor de antropologia da Universidade do Porto convidou-o a vir apresentar o livro para uma plateia cheia. “Temos diante de nós o mais importante etnógrafo português depois do Abade de Baçal”, disse então.

Foi por tudo isto que se lançou de cabeça a um novo escândalo, em 1982.

  • Organizou o Congresso de Vilar de Perdizes
  • ao mesmo tempo em que criou o jornal Notícias de Barroso.

“Percebi que só o poder da imprensa, da opinião pública, me permitira enfrentar os poderes estabelecidos na Igreja e na política.”

No seu semanário dava conta das tradições pagãs, em retorno recebia cartas furiosas de padres e autarcas. Tem-nas todas guardadas. Um chorrilho de ameaças.

 

António Lourenço Fontes

  • nunca quis agradar ao poder,
  • antes quis entender as suas gentes.
  • E elas retribuem-lhe o louvor.

É ele que preside à Sexta Feira 13. É seu o nome da sede do EcoMuseu de Barroso, em Montalegre. Tem honras de várias instituições galegas, quase nenhuma em Portugal. Em 2009 todos os deputados eleitos por Vila Real apresentaram ao presidente da república um pedido para que lhe fosse atribuída a Ordem de Mérito. Cavaco recusou.

Na sua casa em vilar de Perdizes, onde para além de livros e destes diários esquecidos há uma série de máscaras do diabo – que foi recolhendo nas suas viagens pelo mundo – Fontes agarra-se a uma e diz-lhe numa voz já velha, já pouca. “Tu a mim não me metes medo. A ti, Satanás, eu agarro pelos colhões.”

 

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