Moçambique, aquela ligação cristãos-muçulmanos. E cultura matriarcal

 

CRISTINA UGUCCIONI, 03/07/2018

MAÚA

Foto: O padre Giuseppe Frizzi, missionário da Consolata, vive em Moçambique há 43 anos

TRadução: Orlando Almeida

Histórias de convivência entre os fiéis das duas religiões. Viagem a Maúa, no norte do país africano, para conhecer os macua-xirima e as relações pacíficas que unem a população.

 

Arcanjo Awal, muçulmano, 60 anos, casado, seis filhos (dois deles adotivos), vive em Maúa no norte de Moçambique, um país que hoje olha o futuro com confiança e está se recuperando lentamente depois de um passado doloroso, marcado pela longa guerra civil que terminou em 1992. Maúa é uma aldeia com cerca de 4 mil habitantes situada no distrito homônimo onde vivem 25 mil pessoas, 30% delas cristãs (católicas na maioria), 35% muçulmanas, 35% seguidoras da religião tradicional.

Arcanjo, pequeno construtor e carpinteiro, descreve as relações entre cristãos e muçulmanos com estas palavras:

“Aqui há um espírito de fraternidade, nós nos respeitamos reciprocamente; nos períodos do Ramadan e da Quaresma, evitamos dançar e cantar, e ajudamos uns aos outros na vida cotidiana, por exemplo nos trabalhos agrícolas,  mas também nas comemorações religiosas, nas festas, nos rituais de cura e de iniciação.

Eu tenho muitos amigos cristãos e convivo com eles sem problemas, a filiação religiosa não é motivo de divisão. Penso que a convivência pacífica e ativa entre cristãos e muçulmanos que se vive em Maúa se deve ao fato de sermos todos filhos do mesmo Criador: isso é o fundamento da fraternidade”.

Arcanjo frequentemente faz trabalhos para as paróquias dirigidas pelo padre Giuseppe Frizzi:

“Eu gosto muito de trabalhar junto com ele: estamos ligados por uma sincera amizade e afeição.  Entre nós há uma verdadeira troca de presentes: nós nos apoiamos reciprocamente no caminho humano e espiritual para Deus”.

 

Pároco e estudioso

Padre Giuseppe Frizzi, missionário da Consolata, tem 75 anos e chegou a Moçambique em 1975, quando o país conquistou a independência de Portugal. Exerceu sempre o seu ministério no norte, uma região habitada pelo povo Macua,

  • o maior grupo étnico de Moçambique (6 milhões de pessoas),
  • que é formado por várias “sub-tribos”,
  • entre os quais há uma chamada Xirima.

Padre Giuseppe vive em Maúa há 31 anos e toma conta de duas paróquias distantes 80 quilômetros uma da outra, formadas por um conjunto de mais de cem pequenas comunidades de fiéis espalhadas por numerosas aldeias do distrito. À atividade pastoral que caracterizou a sua vida missionária associou sempre o estudo da cultura do povo macua-xirima. Em 2009, a Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma conferiu-lhe o título de Doutor honoris causa em Antropologia Missionária por esta atividade.

 

A enculturação do Evangelho

“Quando cheguei aqui, há 43 anos – diz ele – comecei a estudar a língua e a cultura macua-xirima para poder familiarizar-me e compreender melhor as comunidades que me haviam sido confiadas. De fato, o anúncio do Evangelho não pode prescindir do conhecimento profundo e respeitoso da cultura das populações que o recebem.

A inculturação do Evangelho, ou seja, a encarnação do Evangelho nas culturas autóctones e, ao mesmo tempo, a introdução destas culturas na vida da Igreja, é um processo lento; e é um imperativo. Dia após dia, testemunhando o Evangelho em muitas comunidades, colhi muito, ouvindo, perguntando e, simultaneamente, semeando.

Com paciência, fui também registrando por escrito

  • as histórias,
  • os provérbios,
  • os princípios religiosos e teológicos,
  • a visão de mundo deste povo, cuja cultura é oral”.

 

As traduções

Ao longo das décadas o padre Giuseppe – com a ajuda de catequistas e de uma pequena comissão local criada ad hoc – foi traduzindo gradualmente para a linguagem macua-xirima

  • o missal,
  • os cantos,
  • as orações,
  • o catecismo dos adultos e das crianças,
  • e finalmente a Bíblia inteira.

Além disso, finalizou a elaboração

  • do primeiro dicionário português-xirima
  • e da gramática macua-xirima,
  • introduzida em algumas escolas que adotaram o método bilíngue.

O seu último trabalho é um grosso volume dedicado aos múltiplos aspectos da cultura deste povo. Em Maúa fundou e dirige o “Centro de Inserção Makhuwa Xirima” (CIMX), que desenvolve atividades de

  • pesquisa,
  • catalogação
  • e publicação de documentos desta cultura
  • e é frequentado por muitos professores e estudantes provenientes de universidades moçambicanas e de todo o mundo.

 

Deus é mãe

A cultura dos macua-xirima – que vivem principalmente da agricultura, praticada com meios muito rudimentares – é matriarcal: “A mulher é o paradigma de toda a expressão e atividade humana; a dimensão materna é um valor superior à dimensão paterna. Para esse povo, Deus é a Mãe que gera continuamente. Trata-se de uma religião noturna e lunar: é a durante a noite, no período da lua e das estrelas, que Deus Mãe prepara os seus planos para os seres humanos, ao passo que o dia é o tempo do homem que vive e realiza tais projetos” – explica o padre Giuseppe. –

“Esta cultura e esta espiritualidade matriarcal constituem, de certo modo, o substrato quer dos cristãos quer dos muçulmanos. No que diz respeito aos cristãos, a nossa tarefa de missionários não é a de combater e rejeitar a riqueza do pensamento deles sobre Deus, mas a de ampliar as fronteiras da sua religiosidade, introduzindo a paternidade de Deus e a mensagem de salvação do Filho”.

Por seu lado, os muçulmanos “integram o Islão com a cultura tradicional”. Mas ao contrário do que aconteceu com o cristianismo, já bem organizado no território,

“aqui o Islão ainda está pouco estruturado: claro, existem as mesquitas onde os fiéis se reúnem para rezar todas as sextas-feiras e as práticas religiosas são escrupulosamente realizadas, mas, por exemplo, somente neste ano é que os fiéis se puseram de acordo sobre a data de início e fim do Ramadã. Até agora, de fato, as famílias começavam-no e terminavam-no em dias diferentes, com total autonomia”.

 

Relações amistosas

Neste contexto cultural, as relações entre cristãos e muçulmanos são muito amistosas, familiares – diz padre Giuseppe.

“Há um grande respeito recíproco, uma tolerância total; trabalhamo e convivemos juntos com serenidade: na Cáritas local, por exemplo, durante a guerra civil, também prestavam serviço pessoas de fé islâmica. Segundo a cultura macua-xirima, “cada um deve cantar a própria liberdade e a própria responsabilidade” e isso vale principalmente na esfera religiosa.

Por isso, por exemplo, quando um muçulmano expressa o desejo de se converter ao cristianismo, ele não é impedido, de forma alguma. A liberdade religiosa, para este povo, é um valor. Nós organizamos, numa perspectiva cristã, os ritos de iniciação para os meninos e as meninas que se tornam adultos e os jovens muçulmanos também participam deles”.

 

O sheik muçulmano

Para dar uma ideia da qualidade das relações que unem cristãos e muçulmanos o padre Giuseppe narra um episódio que ele considera particularmente significativo:

“Quando terminei de traduzir a Bíblia para a língua Macua-xirima veio falar comigo um respeitado sheik muçulmano de Maúa, chamado Txirani: perguntou-me se eu poderia traduzir também o Alcorão. Tive de recusar o convite porque não sei árabe, mas apreciei muito o seu pedido: ele expressava seja a sua plena confiança num cristão seja o seu desejo de tornar o texto sagrado dos muçulmanos disponível na língua local, um desejo nascido do apreço pelo trabalho dos cristãos, que traduzem a Palavra de Deus para as diferentes línguas do mundo”.

 

Um pedacinho de Paraíso

O padre Giuseppe diz estar convencido de que pessoas genuinamente religiosas (de diferentes religiões), que vivem e trabalham juntas em harmonia, podem ensinar ao mundo que é possível ficar amigos e viver unidos em paz: “É possível realizar um entendimento tão profundo e bonito  que quase pode parecer um pedacinho do Paraíso”.

Arcanjo conclui: “Em Maúa ficou claro para nós e entendemos que a religião não pode ser causa de guerra porque somos todos irmãos em Jesus e em Maomé. Quem raciocina em termos de luta e de intolerância não se inspira nos textos sagrados, não conhece nem a Bíblia nem o Alcorão”.

 

CRISTINA UGUCCIONI

http://www.lastampa.it/2018/07/03/vaticaninsider/in-mozambico-quel-legame-fra-cristiani-musulmani-e-cultura-matriarcale-4qtnntlB2RSdZ81BtZqisO/pagina.html

 

 

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