A Nau dos Insensatos

 

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Roma, 28/06/2018

Imagem: A Nau dos Insensatos, retratada numa xilogravura alemã de 1549 / Wikipédia.pt

A nau dos insensatos é uma antiga alegoria muito usada na cultura ocidental em literatura e pinturas.

Imbuída de um senso de autocrítica, ela descreve o mundo e seus habitantes humanos como uma nau cujos passageiros perturbados nem sabem nem se importam para onde estão indo (Wikipédia.pt)

 

No livro História da Loucura, lançado em 1964, o filósofo e historiador francês Michel Foucault retoma a alegoria da Stultifera navis (nau dos insensatos ou dos loucos) para descrever a sombria trajetória dos indesejados no período da Idade Média, especialmente nos séculos XVI e XVII.

Com relativa frequência eles vinham internados em

  • manicômios,
  • hospitais,
  • lazaretos
  • e prisões

– segregados da população como pessoas perigosas e portadoras de um vírus contagioso.

Foucault retoma a imagem da nau dos insensatos como metáfora para tais internações mais ou menos forçadas. Era de fato em semelhantes naves que, em séculos anteriores, os indesejados eram obrigados a embarcar, sem porto seguro onde pudessem receber ordem para atracar. Eram condenados à deriva sobre as águas por tempo indeterminado.

Entre tais indesejados, figuravam

  • os doentes mentais,
  • os leprosos,
  • as feiticeiras,
  • os hereges,
  • os vadios,
  • os embriagados,
  • os sem teto e sem endereço…

Mas também, dependendo da abundância ou carência de mão-de-obra barata e disponível, poderiam ser os sem trabalho, desempregados.

Estes últimos, em tempos de vacas gordas e de pouca demanda de emprego, costumavam ser classificados como

  • preguiçosos,
  • indolentes
  • e ineptos para o trabalho regular,

sendo por isso mesmo descartados e enviados para qualquer tipo de internamento ou correção. Já em tempos de vacas magras e escassez de braços, todos se tornavam ideologicamente vagabundos, devendo serem resgatados à força e postos a trabalhar.

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O navio Aquarius SOS Mediterranée, acolhendo imigrantes vindos em botes da África. Foto: UN Dispatch

 

A alegoria da Nau dos insensatos vem à tona diante da saga recente de outros dois navios à deriva nas águas do Mediterrâneo.

Primeiro foi o Aquarius SOS Mediterranée, em junho de 2018, com 629 imigrantes a bordo. Provinham do norte da África e haviam sido resgatados nas costas da Líbia. O caso levantou uma polêmica que, em todo o continente, se arastou por toda uma semana.

Na Itália, o Ministro do Interior Matteo Salvini, mandou fechar os portos do país à embarcação, afirmando que a fronteira mediterrânea não é somente italiana, mas de toda a Europa. Após várias discussões e um bate-boca entre as autoridades de vários países, a Espanha acabou abrindo o porto de Valência para o desembarque dos pobres rechaçados, já abatidos e com a bandeira da esperança a meia haste.

Resultado de imagem para Lifeline SOS MediterranéeNavio Lifeline SOS Mediterranée do ONG alemã Lifelline. Foto: Terra

 

Depois veio o Lifeline SOS Mediterranée, com 234 imigrantes a bordo, resgatados igualmente nas costas da Líbia. Novo rechaço por parte da Itália e nova polêmica de Matteo Salvini com os governos dos vários países que formam a União Europeia (UE). Durante seis dias, o navio permaneceu à deriva, sem receber permissão para atracar em porto seguro.

  • A Itália jogou a batata quente para Malta,
  • Malta para a França,
  • a França para a Espanha
  • e esta para a UE como um todo.

Ocorreram diversas tentativas de acordos bilaterais e inclusive uma cúpula em Bruxelas com mais de 20 países. Tudo em vão! Todos recusavam abrir um precedente ao receber os africanos.

  • Ao final, Malta decidiu acolher a embarcação,
  • desde que os imigrantes fossem divididos por oito países.
  • Entre estes, a Itália, a Espanha, Portugal, a França, a Holanda e a própria Malta.

Duas naves à deriva: sem rumo certo, perdidas entre um continente novo e periférico e um outro, velho e central. Os tempos são de crise – de vacas magras – mas nem por isso de escassez de emprego. Ao contrário, os trabalhadores braçais são ignorados, indesejados e descartáveis.

As “naus dos insensatos” erram de um lado para outro, rompem fronteiras e tentam colher as migalhas do progresso técnico e da economia globalizada, que caem da mesa dos países desenvolvidos. Mas a pressão, o medo e a ameaça das populações desses mesmos países, e não só das autoridades, são fatores de rechaço e de políticas anti-migratórias.

Prova disso é o resultado das últimas eleições em não poucas nações: uma guinada à extrema direita. Os deslocamentos humanos fazem parte não apenas da campanha e de todo o processo eleitoral, mas também da forma de governo dos eleitos.

  • Politizam-se as migrações, criminalizando os próprios migrantes.
  • As leis se tornam mais rígidas,
  • multiplicam-se os muros,
  • instalam-se sofisticados sistemas de vigilância.

Por outro lado,

  • enquanto a Europa se fecha aos imigrantes que chegam do sul,
  • a “tolerância zero” de Donald Trump não somente faz o mesmo, mas desencadeia uma política de expatrição dos indocumentados, com a drástica separação entre pais e filhos.

Onde vão atracar as novas “naus dos insensatos”?

 

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Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs 

Fonte: Enviado, via e-mail, pelo autor: vicariogenerale@scalabrini.org

 

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