Carta aberta ao Papa Francisco sobre uma questão importante

Caro Papa Francisco, visto que se pode pedir um gesto profético ao Papa, peço-lhe filialmente isto: transformar a ‘delegacia’ da polícia do Vaticano num espaço de acolhimento aos pobres!

 

Congregation_for_the_Doctrine_of_the_Faith

Ghislain Lafont, 20/06/2018 – Foto: O Palácio do antiga Inquisição, na Praça do Santo Ofício

Tradução: Orlando Almeida

Caro Papa Francisco,

Permita-me que lhe escreva para fazer-lhe uma sugestão que, parece-me, favoreceria a sua preocupação de conduzir a nossa Igreja por caminhos cada vez mais evangélicos.

Seria de destinar ao acolhimento dos pobres, das famílias de migrantes e de outras pessoas sem residência fixa, o Palazzo monumental atualmente ocupado pela Congregação para a Doutrina da Fé.

 

Tendo em vista a localização um pouco excêntrica deste edifício na Cidade do Vaticano, acho que se poderia facilmente isolá-lo dos outros edifícios, dado que é possível a entrada pelo portão que dá para a atual Piazza del Sant’Ufficio,  de onde se pode facilmente alcançar a cidade.

Além disso, como o senhor sabe, o edifício já abriga uma sopa dos pobres na esquina da praça, mantida, creio eu, pelas irmãs de Madre Teresa. Se o senhor tomasse tal decisão, acho que a admiração que ela provocaria no mundo levaria algumas riquíssimas fundações filantrópicas a financiar prontamente os trabalhos de transformação do Palazzo em imóvel residencial.

Parece-me que esta nova destinação de uso seria um grande sinal da orientação evangélica da Igreja Católica: uma parte da sua sede central tornar-se-ia, como o senhor diz, um “hospital de campo” e tal imagem provocaria emulação em outras igrejas, em primeiro lugar as católicas e depois outras.

Por que este Palazzo e não outro? Porque creio que, como o repetia frequentemente um grande conhecedor da arquitetura religiosa, recentemente falecido, o padre Frederic Debuyst, há em qualquer espaço um genius loci, um espirito do lugar.

Mesmo antes de entrar,

  • sente-se aí uma atmosfera que os séculos como que registraram nas paredes,
  • e esta condiciona mais ou menos profundamente o estilo, a maneira, de que o trabalho a ser desenvolvido será inconscientemente impregnado.

Ora, o senhor sabe, caro Papa Francisco, não foi senão depois de Paulo VI que o dicastério abrigado neste Palazzo passou a ser chamado “Congregação para a doutrina da fé”. Mas antes, ele chamava-se “Santo Ofício da Inquisição romana”. Também se falava de “Supremo Tribunal da Inquisição”.

Ele estava lá

  • para detectar os erros antes que se tornassem heresias
  • e para julgar os fautores desses desvios: ao aspecto doutrinário juntava-se um aspecto jurídico com, apesar de tudo, um matiz de jurisdição criminal.

A Congregação era, por destinação,

  • anti-protestante,
  • anti-moderna,
  • anti-judaica,
  • anti-religiões,
  • anti-novidades,

numa palavra

  • “anti” tudo o que pudesse desviar a Igreja de uma “verdade”
  • que se considerava como estabelecida de uma vez por todas,
  • e os desviantes contra ela eram facilmente suspeitos de má fé e de orgulho.

 

Sem dúvida, a mentalidade mudou um pouco, mas talvez não fundamentalmente. Porque por trás dela há uma longa tradição filosófica de inspiração neoplatônica

  • sobre a natureza, a localização e os detentores da verdade, e da tradição cristã (?)
  • sobre o homem como mais mau do que bom, manchado pelo pecado original
  • e que devia  ser reconduzido, até mesmo por coerção, à verdade da fé (não ouso dizer: do Evangelho),
  • porque o inferno está  bem mais cheio do que o paraíso e porque é necessário salvar as almas.

 

O Palácio do antiga Inquisição, na Praça do Santo Ofício Foto: Wikipédia

 

Ora uma análise imparcial dos textos ou das decisões recentes da Congregação mostraria, sem dúvida, que o genius loci do Palazzo ainda está, infelizmente, em ação, às vezes, mesmo que seja de formas diferentes das de outrora.

Eu acredito, caro Papa Francisco, que a supressão desta Congregação também seria uma apelo às igrejas particulares e às conferências episcopais:

  • primeiro para que escutem realmente todos os cristãos destas igrejas, a fim de captar o seu senso da fé sobre o tema em questão,
  • para depois se sentirem sinodalmente responsáveis pela caridade, pela esperança e pela fé vividas nestas comunidades,
  • sem se eximir disso descarregando, mais ou menos conscientemente, em caso de dificuldade, sobre o núncio apostólico ou sobre uma congregação romana.

 

A unanimidade sem falhas não faz parte de um programa humano de deliberações; ela só se encontra nos regimes totalitários dominados por personalidades tirânicas.

  • Chegar a uma maioria qualificada é, ao contrário, um sucesso humano que tem um valor,
  • e acatá-la é um ato de sabedoria e humildade.
  • Tanto mais que uma verdade assim alcançada deixa em aberto o dever de interpretação e de discernimento. –

Se realmente um acordo necessário continuasse impossível, um enviado do papa (“legado papal”, com se dizia antes) poderia vir pra tentar uma mediação.

Creio, portanto, que hoje não há necessidade de um dicastério especializado,

  • ainda mais que a Santa Sé dispõe de instituições com espirito aberto
  • que não definem nada, mas estão em busca de uma verdade útil: o Conselho Pontifício para a Cultura, a Comissão Teológica Internacional, as Academias Pontifícias…

Isso seria também uma ocasião para

  • dar valor e força às faculdades teológicas
  • que no passado eram normalmente consultadas e praticamente não o são mais, hoje.

Por outro lado, o Mundo e a Igreja precisam de que, mesmo no interior do Estado simbólico do Vaticano, haja um lugar onde os pobres sejam acolhidos com respeito e com eficiência e onde eles sejam ouvidos e compreendidos.

 

Um dia, há muito tempo, ao irmão Roger, fundador de Taizé, que lhe pedia para publicar um texto profético forte sobre o ecumenismo, o cardeal Ottaviani humildemente respondeu: “O Papa, é o Pai, o Santo Ofício, é a polícia (sic). Não se pode pedir uma mensagem profética ao Santo Ofício, mas ao papa”.[1] .

Pois bem, caro Papa Francisco, visto que se pode pedir um gesto profético ao Papa, peço-lhe filialmente isto: transformar a ‘delegacia’ da polícia num espaço de acolhimento aos pobres!

E eu oro pelo senhor, como o senhor pede frequentemente, o que me permite escrever-lhe com a paz do coração. Perdoe-me se esta intervenção lhe parece intempestiva! E lhe asseguro a minha gratidão por tudo o que faz e que nos ajuda a viver.

 

[1] Sabine Laplane, Irmão Roger, de Taizé, Paris, 2015, p. 185

 

Imagem relacionada

 

.

Ghislain Lafont

http://www.cittadellaeditrice.com/munera/lettre-ouverte-au-pape-francois-sur-une-question-importante/

 

 

 

2 comments to Carta aberta ao Papa Francisco sobre uma questão importante

  • oscar varela

    Hola!
    El Autor tiene excelentes Estudios teológicos.
    Recomendable: Structures et méthode dans la “Somme théologique” de saint Thomas d’Aquin.
    Esta propuesta podría ser “bien-venida”,
    es decir: “buena-noticia”

  • Augusto Rocha

    E na confusão que se vive nestes tempos em TODOS os ambientes e realidades (Igrejas, sociedade, política, economia, meio ambiente, moral etc. etc), como uma Polícia Eficiente é-nos útil e necessária!
    Para mim o “genius loci” que este edifício representa nos dá uma impressão de quão grave é o dever de guardar da FÉ recebida.

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>