Abusos no Chile, o Papa aceita a renúncia de Barros e de dois outros bispos

 

SALVATORE CERNUZIO –  Vaticano – 11/06/2018

Foto: O bispo chileno Juan Barros/ Lastampa

Tradução: Orlando Almeida

São Cristián Caro Cordero (de Puerto Montt) e Gonzalo Duarte García (de Valparaíso), ambos com mais de 75 anos de idade. A remoção de Barros na véspera da partida de Scicluna e Bertomeu. Os leigos de Osorno: o problema não se resolve mudando as pessoas

 

Três de trinta e um. Dos bispos chilenos que, “em bloco”, apresentaram a sua  renúncia ao Papa, na conclusão do encontro, realizado em meados de maio no Vaticano, sobre os casos de abuso, Francisco aceitou três hoje. Trata-se

  • do arcebispo de Puerto Montt, Cristián Caro Cordero (cuja renúncia já havia sido anunciada pelo site da Conferência Episcopal do Chile na noite passada),
  • do bispo de Valparaíso, Gonzalo Duarte García de Cortázar
  • e, especialmente, de Juan Barros, o bispo Osorno conhecido por ser um dos mais próximos colaboradores (muitos definem-no como seu “afilhado espiritual”) do padre Fernando Karadima, o padre culpado de abusos  em série contra menores.

Uma remoção, a de Barros, que acontece vinte e quatro horas antes da partida para o Chile do  arcebispo de Malta Charles Scicluna, um especialista em investigações canônicas sobre abusos de clérigos contra menores, e do monsenhor catalão da Congregação para a Doutrina da Fé, padre Jordi Bertomeu – já anteriormente enviados ao país sul-americano em fevereiro – agora  para uma missão circunscrita exatamente à diocese de Osorno.  Para onde aliás, segundo  fontes chilenas mencionadas por Il Sismografo,  parece que Barros não retornou mais  por uns quarenta dias após a viagem a Roma.

Embora a notícia da demissão do bispo tenha circulado em ambientes chilenos desde sexta-feira última, pensava-se que o Papa poderia tomar essa medida após a conclusão da viagem de Scicluna  e Bertomeu no próximo dia 19 de junho. Obviamente, o trabalho do bispo e do monsenhor vai muito além de aprofundar a responsabilidade de um indivíduo, Juan Barros, e tem como objetivo desmantelar a “cultura do abuso, encobrimento  e psicologia  de elite” que parece reinar no Chile, como foi denunciado pelo próprio  Pontífice nas suas cartas ao episcopado e ao povo chileno.

Entretanto, para guiar a diocese de Osorno, como administrador apostólico, Francisco nomeou Jorge Enrique Conchua Cayuqueo,  60 anos, dos Frades Menores, que , desde 2015, é  bispo auxiliar de Santiago.

A remoção de Barros era o que pediam, com insistência e com protestos contínuos, inúmeros fiéis da diocese chilena, nos últimos três anos. Isto é, desde 15 de janeiro de  2015, quando Bergoglio o tinha nomeado, após cerca de 11 anos como Ordinário  castrense, como responsável por este território a meio caminho entre o Oceano Pacífico e os rios dos Andes. Com essa finalidade [de pedir a remoção do bispo], foi formada uma associação específica, a assim chamada “Organización de Laicos y Laicas de Osorno” que poucos dias atrás concluiu uma das suas duas reuniões anuais.

E que hoje – por meio do porta-voz Juan Carlos Claret Pool – comunica que,

  • sim, aplaude a decisão do Papa de aceitar a renúncia de Barros,
  • mas que durante estes anos “perderam coisas demais  para se alegrarem”,
  • e que é preciso continuar, mais do que nunca,  a busca de “verdade”, “justiça”, “reparação” por parte da Igreja, sem “diluir a responsabilidade penal”.

Nunca tendo sido acusado diretamente de abusos, mas de ter encoberto os crimes de seu mentor, dos quais segundo alguns testemunhos teria tido conhecimento, monsenhor Barros tinha se tornado nos anos após a eclosão do escândalo Karadima , em 2010, um dos personagens mais controversos e contestados de toda a crise da Igreja chilena.

Não se podem esquecer

  • os protestos dentro e fora da Catedral de Osorno no dia da sua posse,
  • e ainda menos as manifestações mais recentes durante a viagem do Papa ao Chile e ao Peru, em janeiro de 2018,
  • com cartazes que mostravam  imagens de Karadima (hoje com  87 anos de idade e internado num hospital) no ato de abençoar o prelado, ao lado de frases como: «Osorno sufre. Obispo encubridor, no puede ser pastor “(Osorno sofre.  Bispo encobridor, não pode ser pastor).

A causa também era defendida por algumas autoridades. Basta lembrar que, durante o primeiro encontro no Palácio de la Moneda, durante a viagem de Francisco ao país sul-americano, o presidente da Câmara de Deputados do Chile, Fidel Espinoza, tinha encaminhado  ao Papa, através do cardeal Parolin, uma carta da comunidade católica de Osorno em que – mais uma vez – era solicitada a remoção do prelado.

Da sua parte, Barros

  • sempre negou todas as acusações,
  • em especial a de cumplicidade com Karadima.

A Santa Sé, poucas semanas após a sua nomeação para Osorno, num clima de fortes protestos, afirmava através da imprensa do Vaticano que: “A Congregação para os Bispos estudou cuidadosamente a candidatura do prelado e não encontrou razões objetivas que constituíssem  impedimento à nomeação”.

O próprio Francisco, pressionado pelas perguntas de alguns jornalistas após uma missa em Iquique, tinha feito aquela  afirmação que rapidamente  deu a volta ao mundo:

“No dia em que tivermos uma prova contra o bispo Barros, falarei. Não há uma única prova de acusação. As outras são todas calúnias, está claro?”. 

Palavras que

  • causaram “grande dor” nas vítimas de abusos de Karadima como disse o cardeal Sean O’Malley
  •  e das quais o Papa pediu “desculpas” durante a conferência de imprensa no avião, na  volta  de Santiago a Roma,
  • porque “percebo que a minha expressão não foi feliz “.

O episódio no entanto tinha feito “estourar um incêndio” – para usar uma metáfora do próprio Bergoglio – no Chile sobre o caso jamais esquecido dos abusos por parte de membros do clero. Por isso, poucas semanas depois da viagem, em fevereiro, o Papa decidiu enviar em missão monsenhor Scicluna e o padre Bertomeu.

Os dois retornaram a Roma após cerca de duas semanas com um dossiê de mais de duas mil páginas. No entanto ainda resta muito  trabalho a fazer, uma vez que o Papa – depois de ter convocado a Roma e de ter recebido privadamente em Santa Marta as três principais vítimas de Karadima, pela ordem Cruz, Hamilton e Murillo, além dos bispos chilenos, e dos sacerdotes vítimas de abusos sexuais e psicológicos junto com algumas acompanhantes – decidiu enviar outra vez os seus delegados à América Latina para continuar as investigações.

Uma decisão elogiada pelos leigos de Osorno que veem este retorno como “um momento único que pode servir de exemplo para o mundo”. “O simples fato de eles virem a Osorno demonstra que se entende que o problema não se resolve apenas mudando as pessoas”, escrevem eles. Mas, ao mesmo tempo, eles se perguntam: que destino caberá agora a Juan Barros, de 62 anos? É possível que haja uma resposta após o retorno de Scicluna e de Bertomeu.

Quanto aos outros dois bispos cuja renúncia o Papa aceitou hoje, monsenhor Caro e monsenhor Duarte, ambos já estão com mais de 75 anos, a idade canônica para a aposentadoria, e ambos não parecem estar de alguma maneira ligados diretamente ao padre Karadima.

Duarte teria recebido uma denúncia por ocultamento de abusos na sua diocese. Quando chegou a Roma, à imprensa que o tinha encontrado no aeroporto, ele antecipava: “Fui bispo durante 20 anos em Valparaíso e apresentei minha demissão há oito meses. Gostaria de ir embora…”.

Na mesma ocasião, monsenhor Caro havia dito que: “Há um problema sério e é preciso enfrentá-lo, mas eu não diria que (a chilena) é uma Igreja em crise”. Não foram poucas as críticas que se seguiram.

Juan Carlos Cruz, uma das vítimas de Karadima, recebido pelo Papa no início de maio, lista-os num tweet entre os “bispos corruptos”, acrescentando que com a renúncia deles, “começa um novo dia para a Igreja Católica no Chile! A gangue dos delinquentes está começando a se desmantelar”.

Tanto para a Diocese de Puerto Montt como para a de Valparaíso o Papa nomeou dois administradores apostólicos: respectivamente o padre Ricardo Basilio Galindo Morales, provincial dos Mercedários no Chile, e monsenhor Pedro Mario Ossandón Buljevic, bispo Auxiliar de Santiago. Em ambos os casos trata-se de uma nomeação “sede vacante et ad nutum Sanctae Sedis“, isto é, até que a Santa Sé decida outra coisa.

 

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SALVATORE CERNUZIO

Fonte: http://www.lastampa.it/2018/06/11/vaticaninsider/abusi-incile-ilpapa-accetta-le-dimissioni-di-barros-e-altri-due-vescovi-cJIKxNEmZgMGZMX3rIqi3L/pagina.html

 

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