Chile, as palavras do papa sobre gays e as diretrizes as esquecidas de Wojtyla

O caso chileno demonstra – não apenas no país sul-americano – a existência de sérios problemas no discernimento vocacional nos seminários, e no processo de nomeação dos bispos

 

 

ANDREA TORNIELLI – CIDADE DO VATICANO 30/05/2018

Foto: Sacerdotes

Tradução: Orlando Almeida

“O problema maior, profundo e ao qual ainda não foi dada resposta adequada diz respeito à imaturidade afetiva dos candidatos ao sacerdócio, que, se não são homens ‘resolvidos’ e maduros na sua afetividade – sejam eles heterossexuais ou homossexuais – se verão condicionados pela sua imaturidade afetiva nas relações com os outros.”

 

O caso do Chile e o surgimento de novos escândalos, após a renúncia que todo o episcopado colocou nas mãos do Papa, põem em evidência quais sejam as profundas raízes da doença que aflige a Igreja desse país e não só dele. E também mostram como muitos ensinamentos dos Pontífices, publicados nas últimas décadas, foram considerados letra morta pelos bispos.

Na semana passada, dialogando a portas fechadas com a Assembleia geral da Conferência episcopal italiana, o Papa Francisco, que também havia manifestado aos bispos a sua preocupação pela diminuição das vocações sacerdotais, convidou-os a cuidar mais da qualidade dos futuros sacerdotes do que da quantidade, citando o caso de pessoas homossexuais que desejam entrar no seminário:

“Se tiverem a mínima dúvida, é melhor não os deixar entrar.

Francisco falou na esteira de dois documentos publicados nos últimos anos pela Santa Sé: o primeiro é de 2005, no início do pontificado de Bento XVI, o segundo é de 2016 e foi promulgado durante o pontificado de Bergoglio. Em ambos, embora respeitando profundamente as pessoas em questão, sustenta-se que não é possível admitir ao Seminário e às Ordens sagradas “aqueles que praticam a homossexualidade” ou que “apresentam tendências homossexuais profundamente arraigadas”.

Numa nota do documento entregue pelo Papa Francisco aos bispos chilenos que vieram a Roma, podia-se ler uma crítica por terem confiado a direção dos seminários a “sacerdotes suspeitos de praticar a homossexualidade”. A existência de redes ramificadas e organizadas de padres que aliciavam presas via web, bem como casos de abuso contra menores em que se envolveram sacerdotes eminentes, indicam claramente que os critérios de discernimento não foram bem aplicados.

Já em 1992,

  • portanto mais de dez anos antes de ter sido publicada a Instrução da Congregação para a Educação Católica, em agosto de 2005, sobre o tema “Critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais e da sua admissão ao seminário e às ordens sacras“,
  • e mais de vinte anos antes de ser publicada a Ratio Fundamentalis da Congregação para o Clero sobre “O Dom da vocação sacerdotal” (são os dois documentos que convidam a não deixar  entrar no seminário quem tem uma orientação homossexual profundamente enraizado ou pratica a homossexualidade),
  • João Paulo II promulgou a exortação apostólica Pastores dabo vobis, dedicada à “formação dos sacerdotes nas circunstâncias presentes”.

Nesse documento lê-se:

“Pois que o carisma do celibato, mesmo quando é autêntico e provado, deixa intactas as tendências da afectividade e as excitações do instinto, os candidatos ao sacerdócio precisam de uma maturidade afectiva capaz de prudência, de renúncia a tudo o que a pode atacar, de vigilância sobre o corpo e o espírito, estima e respeito pelas relações interpessoais com homens e mulheres. Uma ajuda preciosa pode ser dada por uma adequada educação para a verdadeira amizade, à imagem dos vínculos de fraterno afecto que o próprio Cristo viveu na sua existência”.(*)

O Papa Wojtyla afirmou ainda:

“A maturidade humana em geral, e a afectiva em particular, exigem uma formação clara e sólida para uma liberdade que se configura como obediência convicta e cordial à “verdade” do próprio ser, e ao “significado” do próprio existir, ou seja, ao “dom sincero de si mesmo” como caminho e fundamental conteúdo da autêntica realização do próprio ser”.

Assim entendida, a liberdade requer que a pessoa seja verdadeiramente dona de si mesma, decidida a combater e a superar as diversas formas de egoísmo e de individualismo, que atacam a vida de cada um, pronta a abrir-se aos outros, generosa na dedicação e no serviço do próximo».(*)

O problema que emerge dos recentes escândalos não está apenas ligado à pedofilia patológica: em muitos casos, trata-se de fato de abusos contra menores que já entraram na adolescência. O problema maior, profundo e ao qual ainda não foi dada resposta adequada

  • diz respeito à imaturidade afetiva dos candidatos ao sacerdócio,
  • que, se não são homens ‘resolvidos’ e maduros na sua afetividade – sejam eles heterossexuais ou homossexuais –
  • se verão condicionados pela sua imaturidade afetiva nas relações com os outros.

Que existe um problema relacionado à homossexualidade dentro do clero, mostram-no as estatísticas da OMS, segundo as quais cerca de 150 milhões de meninas e garotas e 73 milhões de meninos e garotos com menos de 18 anos são submetidos a relações sexuais forçadas.

Ao passo que,  se se consideram os  abusos infantis perpetrados pelo clero,  as vítimas do sexo masculino representam cerca de 75%.

O problema da imaturidade sexual em candidatos ao sacerdócio, que agora explodiu no Chile – mas certamente não restrito apenas àquele país latino-americano, como demonstram vários escândalos que ocorreram na Europa e em outras partes do mundo – atesta também um grave problema precedente, relativo aos critérios com que foram escolhidos os bispos nas últimas décadas.

A reação de total fechamento auto-referencial e auto-defensivo, com que muitos pastores responderam à propagação do escândalo – colocando sempre primeiro a defesa do bom nome da instituição em vez da defesa do rebanho, dos fiéis, e dos mais pequenos e mais indefesos entre os fiéis – deveria  suscitar mais de uma pergunta sobre os critérios de seleção e sobre o poder das cordadas e dos ‘lobbies’ na promoção de certos candidatos ao episcopado.

Incapazes de zelar pela maturidade emocional dos seus seminaristas e dos seus padres. Incapazes de lidar com a realidade e de tomar consciência dos abusos, mesmo quando eles eram denunciados, com comportamentos de casta e ‘lavando as mãos’. Confrontados com os abusos, com os crimes tremendos, com a imaturidade dos próprios sacerdotes, preferiram fingir que não viam e mostraram-se por sua vez imaturos, como pais.

Por várias vezes, em homilias, intervenções e livros, Francisco sublinhou a distância de atitude que existe entre Jesus e Pôncio Pilatos: Cristo veio para servir e lavou os pés de seus discípulos. Pilatos, em vez disso, lavou as mãos. Uma imagem útil para entender muitos eventos eclesiais contemporâneos.

(*) Citações ‘ipsis litteris’ da versão oficial em português, publicada pelo Vaticano.

http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_25031992_pastores-dabo-vobis.html

 

 

ANDREA TORNIELLI

http://www.lastampa.it/2018/05/30/vaticaninsider/il-cile-le-parole-del-papa-sui-gay-e-le-direttive-dimenticate-di-wojtyla-LduiUf4FxXs95xMjXJXJ2J/pagina.html

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