Relato de uma testemunha solidária com os caminhoneiros em greve

Greve dos Caminhoneiros 2018

 

Pindamonhangaba, SP 27 MAI 2018 

Foto: Paulo, à frente de óculos, junto aos caminhoneiros – P.BOTTINO

O bloqueio em frente à fazenda da minha família me tornou solidário aos caminhoneiros.

Não só eu, mas toda a comunidade vizinha deu suporte enquanto eles se sentiam menosprezados pelo Governo

 

Aqui no km 92, a rodovia Dutra está liberada nos dois sentidos neste domingo, inclusive nos acostamentos. As dezenas de caminhões que bloquearam esta estrada, vizinha do local onde moro e trabalho, estão na lateral da rodovia. Saíram da pista depois da ameaça do Governo, na sexta-feira, de usar as Forças Armadas e multar quem estivesse parado.

Passam carros e ônibus normalmente agora. Muitos buzinam em apoio e são retribuídos. Mas quando eles estavam enfileirados na Dutra, e só tinham uma pista liberada, também recebiam manifestações de apoio. Testemunhei de perto todos os dias, conversei com eles. Vivo em Pindamonhangaba, a apenas 500 metros do local onde eles se instalaram e fiquei curioso para entender os motivos para estarem ali.

É um movimento pacífico, na forma como começou na segunda-feira, dia 21. Até agora, continuam passando vendedores de cerveja e salgadinho. Empresas e cidadãos seguem ajudando com mantimentos. A Rede Graal, de postos de combustíveis, mandou refrigerante e marmitex, afinal os grevistas são seus grandes clientes. À noite fazem fogueiras entre as carretas e caminhões e ouvem músicas que enaltecem as virtudes e sofrimentos da classe.

Muitos estão constantemente ao celular, falando com a família. Nem todos estão acostumados a longos períodos fora de casa. Falam entre eles, trocando áudios e vídeos. “Ninguém está roubando, a gente trabalha. Caminhoneiro é maltratado em tudo que é lugar. Tirado como lixo, mas carrega o Brasil nas costas”, conversa em viva voz um deles com algum interlocutor, refletindo sobre a semana em que eles viraram o centro das atenções no Brasil.

Se o Governo os trata mal, se sentem confortados por diversos gestos anônimos. Carreatas de jipeiros vêm da cidade ver a situação, fazem um buzinaço de apoio e vão embora. A polícia passa de vez em quando e deve sentir certa frustração por ser desnecessária para garantir a lei e a ordem. Não há assaltos, roubos, baderneiros.

Todos se conhecem e não permitiriam que pessoas de fora desconstruíssem um plano tão bem arquitetado. Há banheiros químicos e umas barracas montadas para apoio. Eles parecem não precisar de nada. Alguns que estavam em trânsito e não haviam puxado a greve acabaram parando e se juntando ao grupo. Não eram autorizados a seguir. Ligaram para seus patrões, que decidiram mandar dinheiro para que possam se virar.

Foto: El PaísAO VIVO | Greve dos caminhoneiros: as notícias da crise dos combustíveis

Gente acostumada a uma vida muito dura está também acostumada a dormir na boleia. Nos caminhões têm TV, ventilador, ar condicionado (embora não tenha sido necessário).

Os tanques estão cheios de óleo diesel. Nos postos não há álcool ou gasolina, o diesel ainda está disponível, afinal o consumo cessou.

Quase todos têm um tanque de água e os maiores até uma pequena cozinha com fogão a gás. Não os vi pedir nada. Aliás, parecem saber que não precisam de ninguém, nem do governo.

O que querem não estão pedindo, mas exigindo! Parecem estar revoltados com a boataria da grande mídia e o que parece bravataria do governo.

Para eles está clara a manipulação da informação, a chantagem emocional da “tragédia social” que estariam causando.

 

Nenhum caminhão de

  • gás de cozinha,
  • medicamento,
  • oxigênio hospitalar

ou outro gênero de primeira necessidade está retido,  todos sabem disso e o movimento orgulha-se de seu caráter pacífico.

 

Demonstram estar cansados da inércia dos políticos, da falta de sensibilidade para os problemas sociais, das promessas não cumpridas.

  • Riem das medidas de desmobilização.
  • Sabem que duas dúzias de empresários, pagando de 1 a 3 salários mínimos por motorista, não conseguiriam mantê-los na estrada por tanto tempo para defender os benefícios daqueles.
  • Acham graça do uso de militares para dirigir 2 milhões de caminhões.
  • Gargalham das multas que pretendem aplicar, seja aos sindicatos, empresas ou aos próprios caminhões.
  • Não acreditam que haja disposição dos militares ou policiais para um confronto.
  • Conhecem a incapacidade da força para conter o roubo de carga, a violência urbana.
  • Acreditam sim na fragilidade de um governo sem popularidade, consideram sua causa muito mais legítima que o próprio governo num país comandado por vices em todas as esferas do poder executivo.
  • Quanto ao Congresso, não se sentem representados! Enfim, parecem ter plena consciência da força que possuem, além de terem conseguido demonstrar esta força para a população, que vê no movimento uma oportunidade de expressão e redenção.

*Paulo Bottino é arquiteto

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/27/opinion/1527435946_828113.html

 

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