FILHOS DE PADRES QUE OS PAIS NÃO ASSUMIRAM

Sacerdotes católicos fazem voto de celibato quando são ordenados. Mas quando eles quebram esse voto, os seus filhos são deixados a viver uma mentira

From left: Susan Zopf, Michelle Raftis and Janusz Kowalski are all children of Catholic priests who broke their vow of celibacy. Each of them struggled with the guilt of a suffocating secret, as well as the financial and emotional strains of being forsaken by their biological father.

 

Por MARY ORMSBY e SANDRO CONTENTA – 17/04/2018

FOTO: Da esquerda: Susan Zopf, Michelle Raftis e Janusz Kowalski são filhos de padres católicos que quebraram o voto de celibato.

Cada um deles lutou com a culpa de um segredo sufocante, assim como com as tensões financeiras e emocionais de ser abandonado pelo seu pai biológico.   (Toronto Star photo illustration)

Tradução: Orlando Almeida

 

 

Numa tarde de inverno em 2016, a longa busca de Michelle Raftis levou-a à escadaria da Catedral de St. Michael, a sede da Arquidiocese Católica Romana de Toronto. Estava nervosa e preparara cuidadosamente o que diria ao cardeal Tom Collins. Ela acabou com segredos e mentiras. Raftis é a filha de um padre católico, uma verdade que a mulher de 55 anos teve de esconder na maior parte da sua vida. Ela queria saber por que razão a igreja na qual tinha sido criada permitia a um padre abandonar sua filha. “Eu queria um pedido de desculpas, por escrito, da igreja”, diz Raftis.

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Cardeal Tom Collins – Vatican News

No Canadá e no mundo todo, os filhos de padres saíram das sombras para pressionar o Vaticanoe as suas dioceses locais – a reconhecerem que eles existem. O Vaticano parece não ter dados sobre o número de clérigos que quebram os seus votos de celibato e têm filhos. Mas, com mais de 400 mil padres católicos servindo a 1,1 bilhão de católicos, os descendentes (de padres) provavelmente serão encontrados no mundo todo, diz Bill Kilgallon, que recentemente concluiu um mandato de três anos como um dos principais membros da Comissão para a Proteção de Menores criada pelo Papa Francisco.

Somente no Canadá,

  • cerca de 20 filhos e filhas de padres entraram em contato pessoalmente com a Coping International,
  • um grupo de apoio ‘on-line’, recentemente formado na Irlanda,
  • que está pressionando a Igreja Católica Romana e os seus padres a reconhecer as responsabilidades paternas.

O jornal The Star falou com quatro desses filhos agora adultos, e com uma mulher do Quebec [Estado] que processou uma diocese por causa do padre que gerou o seu filho.

Todos eles, quando crianças, lutaram

  • com a culpa de um segredo sufocante,
  • com as tensões financeiras e emocionais de terem sido abandonadas por seu pai biológico
  • e com o silêncio dos padres preocupados em evitar o escândalo.

A verdade foi ainda mais sepultada por mães que não informaram às suas dioceses que um padre era o pai do seu filho. Durante as décadas de 1960 e 1970, quando essas crianças nasceram, tal confissão teria envergonhado profundamente as mulheres.

Raftis soube aos 13 anos que o seu pai biológico era o reverendo Charles Van Item, um amigo da família que morreu em 2015. A sua mãe advertiu-a para nunca contar a ninguém. “Quando ele estava vivo, eu não queria envergonhá-lo, o que não deixa de ser engraçado, porque ele se afastou dos seus deveres (paternos)”, diz Raftis, uma professora católica que mora em Barrie, ao norte de Toronto. “Eu também não queria envergonhar a minha mãe”.

Raftis

  • ‘engarrafou’ isso
  • e, ainda na adolescência, desenvolveu “uma grande úlcera”.
  • Mais tarde, teria de lutar pela sua saúde mental.

Ela confidenciou isso ao seu futuro marido quando eles estavam namorando, e ele foi solidário com ela. Mas a sua tentativa de contar ao seu sogro reforçou a acusação que ela já esperava, há muito tempo, por parte a sociedade temente a Deus.

“Como você chamaria o filho de um padre?”, perguntou-lhe hesitante. “O filho do diabo”, respondeu ele. “Isso me atormentou, durante muito tempo”, diz Raftis.

Michelle Raftis, a 55-year-old schoolteacher, and the family dog, Leia. Rafts is a child of a Roman Catholic priest, Charles Van Item, and didn't reconnect with him until her first child was born.

FOTO: Michelle Raftis, uma professora de 55 anos, e o cachorro da família,

Raftis é filha de um padre católico romano, Charles Van Item, e não voltou a comunicar-se com ele até seu primeiro filho nascer. (RICK MADONIK / TORONTO STAR)

No dia de março em que Raftis entrou no gabinete de Collins dentro da basílica para o encontro marcado em 2016, o cardeal saudou calorosamente a ela e ao seu marido Ed. Sentaram-se em cadeiras de espaldar alto, com uma mesa de centro redonda separando Raftis e o marido, do cardeal e de outro padre.

Ela pediu um reconhecimento, por escrito, de que Van Item era o seu pai e um pedido de desculpas da igreja pelo que ela considera uma quebra de confiança. Collins não contestou a paternidade de Van Item, mas recusou os pedidos dela.

Ele ofereceu, em vez disso, pagar por uma terapia. Em uma entrevista, Collins disse que tomou conhecimento do caso de Raftis quando a Coping International entrou em contato com ele em agosto de 2015, quase quatro meses depois da morte de Van Item. Acrescentou que é o único caso de um padre pai de uma criança com que ele se deparou durante os 21 anos como bispo.

Se um caso semelhante chegasse ao seu conhecimento, Collins diz que sua mensagem ao padre seria inequívoca: “Eu diria a ele: ‘deixe o sacerdócio e seja responsável pelo seu filho’”. “Quando você é o co-criador de outra pessoa humana, que é um filho de Deus, você tem responsabilidades muito fortes e pesadas”, acrescenta.

Collins insiste em dizer que as ações de sacerdotes como Van Item não devem levantar dúvidas sobre o voto de celibato. “Isso não diz nada sobre o celibato, assim como o adultério não diz nada sobre o casamento. O que isso diz em ambos os casos é sobre a fragilidade da pessoa humana e a sua necessidade de arrepender- se e fazer o que é certo”.

Ele vê o celibato como uma tradição que remonta a Jesus e a São Paulo, que ‘enobrece’ aqueles que se comprometem com isso. “Os nossos sagrados compromissos, sejam eles quais forem, tornam-nos mais profundamente o que Deus quer que sejamos, e focalizam a vida num caminho glorioso”, acrescenta.

Os padres católicos podiam casar-se, felizes, até o século 12, quando as assembleias ecumênicas conhecidas como concílios de Latrão os proibiram de fazê-lo. Segundo o secretário de Estado do Vaticano, o arcebispo Pietro Parolin, a proibição não era rigorosamente aplicada até o Concílio de Trento no século XVI.

As Igrejas de rito oriental ligadas à Igreja Católica Romana, tais como a Igreja Greco-Católica Ucraniana, permitem que homens casados ​​se tornem sacerdotes. E os padres anglicanos casados ​​que se convertem e se tornam padres católicos romanos podem continuar casados. Mas o celibato continua a ser um voto obrigatório para os seminaristas que entram para serem sacerdotes católicos romanos, e tornou-se um tema de debate acalorado à medida que o número de padres declina em todo o mundo.

O predecessor do Papa Francisco, o agora emérito Bento XVI, chamou o celibato para os padres “um sinal de total devoção” ao Senhor e insistiu repetidamente que ele estava aí para ficar. Francisco tem sido menos categórico. Ele levantou a possibilidade de ordenar homens casados ​​como sacerdotes. E antes de se tornar papa, ele descreveu o celibato como uma questão de tradição, e não um dogma. “Isso pode mudar”, acrescentou.

Entretanto, o Vaticano falhou em reconhecer os filhos de padres, apesar dos exemplos modernos. Em 2012, o bispo de Los Angeles, Gabino Zavala, renunciou após reconhecer que era pai de dois filhos adolescentes. Em 2006, uma investigação do Vaticano revelou que o padre mexicano Marcial Maciel Degollado, fundador da congregação dos Legionários de Cristo,

  • teve vários filhos com duas mulheres
  • e abusou ​​sexualmente de seminaristas.

 

Resultado de imagem para Anne-Marie Mariani

 

Em 2001, o National Catholic Reporter publicou o conteúdo de vários relatos de ordens religiosas femininas, descrevendo o abuso sexual de freiras por padres em cerca de duas dezenas de países. Está aumentando a pressão para que a igreja considere esses padres responsáveis como pais.

Na França, Anne-Marie Mariani fundou em 2012 uma organização chamada Filhos do Silêncio, que apoia os filhos e as filhas dos padres. Os seus pais se apaixonaram na Argélia na década de 1950, quando o seu pai era um padre e a sua mãe uma freira. Ela escreveu três cartas ao Papa Francisco pedindo que ele aliviasse a carga emocional de crianças como ela com um gesto de reconhecimento.

“Os filhos de padres estão por toda parte na Terra e não há uma palavra para eles do Vaticano”, diz Mariani, 67 anos, por telefone de Paris. “Nós somos uma realidade de que não se fala. O que eles temem?”. Os esforços destes filhos estão dando frutos. Em 31 de agosto do ano passado, a Conferência dos Bispos Católicos Irlandeses abriu um caminho ao formular “princípios de responsabilidade em relação aos padres que são pais de crianças estando no ministério”.

“O bem-estar do seu filho deve ser sua primeira consideração”, afirmam os bispos. “No mínimo, nenhum padre deveria fugir das suas responsabilidades”. A declaração foi uma resposta direta aos esforços da Coping International, uma organização de auto-ajuda em saúde mental fundada pelo psicoterapeuta irlandês Vincent Doyle, filho de um padre irlandês. “Se um padre pode cuidar do seu rebanho, ele pode cuidar do seu filho”, diz Doyle. Ele acrescenta que as dioceses não devem tornar isso mais difícil, forçando esses pais a deixar o sacerdócio, deixando-os assim desempregados.

Psychotherapist Vincent Doyle sits down in his cottage on Galway Bay, Ireland. Doyle, the son of an Irish priest, is the founder of Coping International, a self-help mental health resource for the children of priests.

Foto: O psicoterapeuta Vincent Doyle sentado em seu chalé em Galway Bay, na Irlanda. Doyle, filho de um padre irlandês, é o fundador da Coping International, um recurso de auto-ajuda à saúde mental para os filhos dos padres. (Suzanne Kreiter / Boston Globe, via Getty Images)

A Conferência dos Bispos Católicos Canadenses parece pouco disposta a seguir o exemplo da Irlanda. Ela declarou ao Star que está “muito preocupada” com os padres que quebram o seu voto de celibato.

Mas as consequências para os padres sexualmente ativos são questões de estrito interesse das dioceses locais e das ordens religiosas, segundo o encarregado oficial das relações com a mídia da conferência, Diácono René Laprise. O Vaticano pode decidir a questão por eles.

Em setembro passado, depois da pressão feita por Doyle e de um artigo sobre a matéria no Boston Globe, autoridades do Vaticano pediram à Comissão para a Proteção de Menores para prolongar o seu mandato e desenvolver diretrizes da igreja para os filhos dos padres.

Kilgallon, num encontro subsequente, comunicou pessoalmente ao papa Francisco que a tarefa havia sido confiada a um grupo de trabalho da comissão. Kilgallon espera que as diretrizes do Vaticano provoquem uma mudança acentuada na abordagem das igrejas locais, que é descrita por ele como refletindo a maneira como elas lidaram historicamente com os padres que abusavam sexualmente de crianças.

“A relutância tem dado a sensação de que, se se reconhece  abertamente a situação, isso pode prejudicar a reputação da igreja, pode causar dano à confiança das pessoas na igreja”, diz Kilgallon, que até fevereiro era também diretor do ‘National Office for Professional Standards’ [Agência Nacional de Normas Profissionais] da Igreja Católica da Nova Zelândia. “O que a questão do abuso (sexual) mostrou é que a melhor maneira de proteger a Igreja é proteger as crianças, e não o contrário”, acrescenta ele numa entrevista por telefone, de sua casa em Auckland.

Em 2012, quando o Papa Francisco era o cardeal Jorge Bergoglio, de Buenos Aires, ele foi citado como tendo dito numa entrevista que um padre que gera uma criança “tem que deixar o ministério e cuidar dessa criança, mesmo que ele escolha não se casar com a mulher. Pois assim como essa criança tem o direito de ter uma mãe, ela tem direito de ver o rosto de um pai”.

 

Até onde ela pode lembrar, a Chiara Villar foi dito para viver uma mentira. O seu pai biológico é o reverendo Anthony Inneo, um padre católico romano que agora tem 85 anos. Ela cresceu chamando-o ‘Popi’[papai] e ele a chamava ‘bella’. Ele visitava Villar e sua mãe regularmente no seu pequeno apartamento em Niagara Falls. As suas lembranças mais antigas são do seu cheiro – colônia Brut misturada com fumaça de cigarro – dos seus sapatos reluzentes e do seu colarinho branco, com que ela podia brincar todas as vezes que quisesse.

Em privado, Inneo era um pai amoroso; em público, um estranho. Villar foi repetidamente advertida para manter a identidade dele em segredo, mas nunca lhe foi dito o porquê.

“Minha mãe e meu pai nunca sentaram comigo para me dizer: ‘Este é o motivo por que temos que mentir – os padres têm de permanecer celibatários’. Ele quebrou a regra, mas nós ainda te amamos” – diz Villar, agora com 37 anos e mãe de gêmeos, que vive em Burlington.

Isso fez com ela tivesse uma infância emocionalmente difícil. Na creche, ela ficou paralisada de medo numa roda em que a professora perguntou a cada criança o que seus pais faziam para ganhar a vida. Ela não se lembra da sua resposta, apenas do desgosto por ter mentido. Quando lhe pediram para desenhar as árvores genealógicas da família, ela deixou um lado em branco. No Dia dos Pais, ela obedientemente fez um cartão durante a aula e deu-o a Inneo na primeira oportunidade que teve. Se ele a levava ao parque, ou aparecia na sua festa de aniversário, Villar tinha sido instruída para dizer que ele era seu tio ou um amigo da família. Anos mais tarde, ela às vezes dizia que era uma filha do amor.

“Nunca havia uma história coerente”, diz ela. “Era tão confuso”.  As perguntas que surgiam na jovem eram profundas: “Quem é este homem? Quem sou eu?”.

Villar diz que a sua mãe, Maria Mercedes Douglas, dava poucas respostas. Douglas só recentemente contou a ela sobre a noite no início dos anos 1970, em que ela conheceu um belo Inneo num bar de Buffalo. Ele não estava usando o colarinho e apresentou-se como assistente social. Eles mantiveram contato e acabaram se envolvendo intimamente.

FOTO – Rev. Anthony Inneo

Saber que Inneo era um padre foi um choque para Douglas. Mas ela, mãe solteira de uma filha de um relacionamento anterior, concordou em mudar para casa paroquial dele em Welland. Ela mantinha a casa e tocava piano durante os cultos especiais da igreja.

No final dos anos 1970, Inneo mudou-se com Douglas e a sua filha para uma casa que ele tinha construído em Acapulco, no México. Em 1981, a família voltou para o norte – Douglas para Buffalo, onde deu à luz Villar, e Inneo para uma paróquia próxima na diocese de St. Catharines. Ele tinha 47 anos.

Pouco depois, ele instalou Douglas e as suas filhas no apartamento de Niagara Falls. Depois, quando Villar tinha 9 anos, ele mudou a família para uma casa grande e isolada que ele tinha construído numa propriedade de 35 acres cercada por campos cultivados. Inneo morava na casa paroquial da igreja de St. Ann em Niagara Falls. Villar e sua mãe saíram de casa dois anos depois, quando Douglas conheceu o homem com quem se casaria.

Todas as sextas-feiras, até Villar completar 16 anos, a sua mãe levava-a para jantar com o pai. Villar entrava correndo pela porta da frente e via o seu pai no fogão, geralmente fazendo macarrão, com um cigarro na boca. Ela continuava a correr pelos corredores escuros até à igreja vazia, contemplando com fascinação e algum medo a estátua de Jesus Cristo na cruz. “Para uma garotinha, morar numa casa paroquial é estranho e assustador”, diz ela.

Ela subia ao andar de cima, onde ficavam o quarto e o banheiro do seu pai, em busca de pistas sobre o seu misterioso ‘Popi’, cujos pais e irmãos ela nunca chegou a conhecer. Certa vez ela encontrou fotos numa caixa dentro do guarda-roupa dele – uma da sua mãe e do seu pai em trajes de banho, outra do seu pai com  seu irmão e, provavelmente, seus pais num aniversário de 50 anos de casamento. Ela pegou as duas.

“Eu estava juntando coisas sobre ele para dar sentido ao nosso relacionamento”, diz Villar.

Ela não se tinha tornado plenamente consciente de que seu pai era um padre e do papel dele na igreja, até aos 12 anos, quando os padres começaram a dar aulas de religião na sua escola católica. Sobre o voto de celibato ela aprendeu com os garotos que faziam troça por (se dizer) que os padres não podiam ter sexo.

Ela começou a se perguntar se as pessoas conheciam o seu segredo, se elas cochichavam sobre  isso pelas suas costas. Se ela não tinha participado de uma peça na escola, seria porque a professora de teatro sabia? “Isso destruiu minha confiança”, diz ela. As perguntas ao pai tornaram-se mais incisivas e as visitas à casa paroquial mais tensas. Depois de uma visita desagradável, ela foi para casa, quebrou um vidro no chão e usou os cacos para se cortar. Tinha 13 anos.

Ela se saiu bem na escola e até se tornou a rainha do baile. Mas golpes emocionais vinham com frequência. No 9º ano, quando centenas de estudantes do ensino médio se reuniram no ginásio para a missa, Villar olhou para o altar e percebeu: “Oh meu Deus, é o meu pai que está celebrando a missa”.  Sentiu-se humilhada quando os garotos acharam graça devido ao sotaque italiano do seu pai.

Ficou revoltada. Durante as visitas, ela chamava o pai de hipócrita, mentia dizendo estar grávida e planejando um aborto, ou soltava as maiores blasfémias que lhe vinham à mente. Um dia, ela abriu uma caixa de hóstias e começou a “mastigá-las como se fossem batatas fritas”.

Em janeiro de 2000, Douglas processou Inneo por dinheiro que – alegou ela – ele lhe devia desde o tempo de Acapulco. O Tribunal Superior de Welland negou a sua prtensão, mas promoveu um acordo que obrigou Inneo a pagar 500 dólares por mês à sua filha durante o seu tempo de universidade, conforme documentos judiciais analisados pelo Star.

Villar e seu pai deixaram de se ver por cerca de dois anos, antes de retomarem o contato através de centenas de e-mails e, de novo, com visitas. “Principalmente quando eu tinha 20 anos, o meu sonho era que ele se afastasse da Igreja e fosse apenas o meu pai”, diz Villar. “Houve súplicas, houve choro”.

Inneo dizia que não poderia suportar o dano que isso causaria à sua ‘reputação’. Durante uma visita, Villar implorou ao pai que a apresentasse aos seus parentes da família Inneo. Ele não quis nem falar disso.

“Sou uma pessoa pública com uma missão a cumprir”, disse Inneo a Villar por meio de um email em 2010. “A minha reputação é extremamente importante e não pode ser comprometida. Por favor, eu te peço, entende a minha posição”. “Você e (o seu marido) Jason são sempre bem vindos à minha casa. A minha casa é a vossa casa. Chiara, tu sabes que o ‘popi’ te ama e ninguém ou nada vai tirar-te do meu coração”.  Inneo assinou: “Amor. Popi”.

Villar e o seu marido, Jason Mitrow, acabariam por passar todos os domingos para tomar café da manhã com Inneo na casa rural que ele tinha construído. Ela encontrava-o às vezes assistindo durante horas os vídeos que ele tinha gravado quando ela era criança. “Estou vendo estes vídeos feitos por este homem que parece ser um pai realmente maravilhoso para esse bebê”, diz Villar sobre a primeira vez que viu as filmagens.  “O que aconteceu?”.

Ela digitalizou às escondidas um dos filmes e guarda-o como um tesouro precioso. Durante as visitas de domingo desenvolveu-se um relacionamento mais cordial, mas a dor, por não ter sido reconhecida abertamente pelo seu pai, não diminuiu. E por volta de 2012, Inneo estava começando a perder a memória. “Ao lado da sua cama ele tinha sempre uma grande foto minha”, diz Villar. “Na nossa última visita, eu disse a ele: ‘Oi Popi, quem é essa garota bonita aí?’.  E ele disse-me: “Oh, ela é realmente especial para mim. O nome dela é Chiara e a sua mãe queria abortá-la. E eu disse à mãe dela que não e ela tem estado perto de mim desde então”. 

A última vez que o viu, em novembro de 2015, Inneo estava num asilo para idosos. Ela mostrou a ele fotos das suas duas netas e disse a ele que o amava. “Ele não me reconheceu, de modo nenhum”, diz ela.“Eu amo este homem, mas estou extremamente magoada devido ao segredo pelo fato de eu ter crescido como filha de um padre católico romano”, diz Villar.

Margaret Jong, vice-chanceler [‘chancelor’- responsável pelos arquivos, ndt] da diocese de St. Catharines, disse que a diocese “não tem conhecimento de nenhum padre que esteja exercendo o ministério atualmente, e que tenha filhos”. Referindo-se especificamente a Inneo e Villar, Jong acrescentou: “Devido à natureza histórica desse caso problemático… não há nenhuma informação adicional digna de crédito que possamos fornecer em relação a esse caso específico”.

Escrevendo em nome do bispo Gerard Paul Bergie, Jong disse que a diocese não tem uma política para os padres com filhos.

“Se o bispo ficar sabendo que um padre é pai de uma criança, ele vai querer garantir que o padre assuma a responsabilidade pelo seu filho”, disse Jong. “É claro que as obrigações paternas devem ter precedência sobre as responsabilidades para com a igreja. Na maioria dos casos, se um padre quer manter um relacionamento e ter uma família, ele deveria deixar voluntariamente o ministério, em vez de deixar para o seu bispo a decisão de removê-lo do ministério”.

 

Janusz Kowalski poses for a photograph at the vacation rental property he runs with his partner on B.C.’s Galiano Island. Kowalski's father was a Polish Catholic priest who pressured his mother — who wanted to be a nun — not to disclose the relationship to the church. Though his mother remained a devout Catholic until her death, “I’m about as far from religion as anyone can be,” Kowalski says.

FOTO: Janusz Kowalski posa para uma fotografia durante as férias numa casa alugada, que ele mantem com o seu parceiro, na ilha Galiano, na Colúmbia Britânica.

O pai de Kowalski era um padre católico polonês que pressionou a sua mãe – que queria ser freira – a não revelar a sua ligação com a igreja. Embora a sua mãe tenha permanecido católica devota até à sua morte, “estou tão longe da religião quanto qualquer um pode estar”, diz Kowalski. (Jesse Winter/Toronto Star)

Um bispo polonês, motivado por uma carta de um morador anônimo da aldeia, enviou investigadores à casa de Regina Kowalska. Os investigadores do bispo confrontaram a mulher assustada: era o padre católico romano local o pai de seus dois filhos? 

  • Kowalska colocou a mão direita sobre um crucifixo. E jurou que não era ele.
  • Ela mentiu para proteger o padre que lhe implorou que não dissesse a verdade.

“A minha mãe estava muito confusa”, diz o seu filho mais novo, Janusz Kowalski, que agora tem 54 anos e mora em Vancouver”. “Eu não consigo imaginar esse momento… Na sua mente, a igreja era a sua vida e aí está ela, mentindo sobre a cruz”.

Ela fez isso, diz o filho, porque o padre que ela amava prometeu cuidar dela e dos seus filhos. Essa promessa seria quebrada, assim como o coração dela. Regina Kowalska era a caçula de 12 irmãos em Samborowo, uma comunidade agrícola no norte da Polônia. Ela sonhava em tornar-se freira e muitas vezes fazia trabalho voluntário na igreja. Lá, a adolescente chamou a atenção do reverendo Boleslaw Petlicki, mais de 20 anos mais velho que ela. O romance deles, ilícito, exigia subterfúgios. Petlicki saía furtivamente da casa paroquial, e encostava discretamente uma escada até à janela da garota no segundo andar para roubar um beijo – ou mais. Os aldeões notaram quando a barriga da adolescente começou a crescer.

“A aldeia inteira voltou-se contra ela porque (pensavam eles) como é que esta jovem ‘cadela’ se atreve a seduzir o nosso padre?”, diz Kowalski, observando que a sua mãe tinha apenas 19 anos quando deu à luz.

This 1961 photo is of a church trip to the Wieliczka salt mine in Poland. Seated in the front row: Regina Kowalska, left, holding the hat of the priest sitting next to her, Rev. Boleslaw Petlicki. Kowalski was 19 years old when she had her first son with the priest and 20 when she had her second. She raised the boys alone.

FOTO: Esta foto é de uma excursão da igreja à mina de sal Wieliczka, na Polônia. Sentados na primeira fila: Regina Kowalska, à esquerda, segurando o chapéu do padre sentado ao lado dela, o Rev. Boleslaw Petlicki.  Kowalski tinha 19 anos quando teve o seu primeiro filho com o padre e 20 anos quando teve o segundo. Ela criou os meninos sozinha. (JANUSZ KOWALSKI)

Jozef Kowalski nasceu em outubro de 1962. Janusz, também filho de Petlicki, chegou 14 meses depois. (Os nomes dos garotos são a versão masculina do nome da sua mãe – Kowalski.).

Janusz Kowalski diz que é difícil para os canadenses imaginar a vergonha e a humilhação que a sua mãe sofreu. A própria família de Regina estava com raiva dela. Quando ela estava grávida de Janusz, a sua mãe pressionou-a para que abortasse o seu neto.

“Imaginem um aborto na Polônia católica dos anos 60. Isso era totalmente inaceitável”, diz Kowalski. “Mas a razão era que ‘isso ficava mal para o padre’. Isso teve respercussão na vida da minha mãe (para a qual) a igreja era mais importante do que a família.”

Kowalska garantiu o sustento dos seus meninos – ela era uma cozinheira profissional – mas também teceu mentiras para proteger a reputação de Petlicki. Nos primeiros anos, ela disse a seus filhos que o seu pai tinha morrido num acidente de ônibus e que Petlicki era seu tio.

 

FOTO – Boleslaw Petlicki

Quando Kowalski tinha 6 anos, o padre comprou para a sua mãe uma casa de dois quartos longe da aldeia. Petlicki disse a Regina que pediria transferência para trabalhar mais perto da família. Isso nunca aconteceu. Ele fazia visitas a intervalos de alguns meses, mas a maioria delas terminava em discussões. Havia boatos sobre outra mulher e outra criança. O padre passou a vir vinha com menor frequência ao longo dos anos, e os dois acabaram se separando.

Kowalski ficou desapontado ao saber, aos 13 anos, que Petlicki era o seu pai biológico. Ele não gostava do homem que “destruiu a vida da minha mãe” e “abusou do seu cargo” ao ter um caso. Ainda assim, ele chegou a entender melhor a devoção de sua mãe para com Petlicki, que morreu em 2006, como “tendo a experiência religiosa de estar perto de um padre”. “Na Polônia, nesse tempo e ainda hoje, ter um padre na família é como uma grande bênção”, diz ele.

Um segundo padre entrou na vida de Regina, um padre com idade mais próxima da dela. Ele visitava-a, gostava da sua excelente culinária e passava um tempo com os filhos dela. Isso a deixava feliz.

Mas os frequentes telefonemas do padre eram na verdade para ver Kowalski, que é gay. Kowalski disse que um dia teve uma ‘briga’ com sua mãe e contou a ela sobre o estreito relacionamento entre eles. Ele estava com cerca de 17 anos e esperava que a sua mãe explodisse. Em vez disso, ela pediu a ele que nada de ‘físico’ acontecesse com o padre porque “nós temos que salvá-lo para a igreja”. Kowalski não contou à sua mãe que ele e o padre eram íntimos.

Quando Kowalski mais tarde terminou as coisas, a sua mãe ficou chateada porque o padre parou de visitá-la. “Novamente, a igreja era mais importante para ela do que a própria família”, diz Kowalski. Ele acrescenta que a piedade dela teve um custo pessoal.  “Eu testemunharia alguns desses momentos bem suaves quando ela subitamente se desmanchava em lágrimas ao ouvir uma canção polonesa quando as palavras diziam:Eu sei muito bem o que estar sozinho significa’”, diz ele. “Ela sofreu por não ter apoio, não ter uma pessoa amorosa ao seu lado, não ter uma vida ‘normal’”.

FOTO: Regina Kowalska

Aos 53 anos, Regina Kowalska casou-se pela primeira vez depois de se reencontrara com um velho amigo. Janusz, que havia imigrado para o Canadá em 1989, foi o padrinho dela.

Numa decisão que surpreendeu o seu filho, ela e o marido voltaram para Samborowo.

Kowalska morreu em janeiro, aos 74 anos. Janusz Kowalski voou para a comunidade que um dia tinha rejeitado sua mãe. Em pouco tempo, cerca de 100 pessoas compareceram ao funeral, o que, diz ele, teria agradado a ela.

Os irmãos Kowalski separaram os pertences da sua mãe e encontraram um tesouro de cartas desbotadas entre ela e Petlicki.

Eles foram enviadas quando os seus pais ainda viviam na aldeia, quando um futuro juntos ainda parecia possível.

 

 

Susan Zopf, pictured in Camrose Alta., is the daughter of Father Albert Andreatta, who never had a part in her life. She describes "having a father, then not having a father, then finding out he wasn't my father, then finding out all the lies from the moment I was born."

FOTO: Susan Zopf, retratada em Camrose, Alberta, é filha do padre Albert Andreatta, que nunca tomou parte na sua vida. Ela fala de como é  “ter um pai, depois não ter um pai, depois descobrir que ele não era meu pai, depois descobrir todas as mentiras desde o momento em que nasci. “(Jason Fransson, para o Toronto Star)

O mundo, como Susan Zopf o conheceu, começou a desmoronar um dia,  após a aula em Edmonton, quando sua irmã mais velha provocou um garoto de 12 anos: “Sabe de uma coisa? O seu pai é um padre”. 

A mãe de Zopf confirmou isso. Ela teve um caso com o pároco, Rev. Albert Andreatta, quando este aconselhava, a ela e ao marido Alfred, durante uma fase conturbada do seu casamento.

A meninota engoliu a notícia: Alfred Zopf, que ela pensava ser o seu pai, tinha morrido quando ela tinha 8 anos. Agora Zopf tinha um novo pai, um pai secreto. Ela estava muito chocada. “Esta é a minha experiência de ter um pai, depois não ter um pai, depois descobrir que ele não era meu pai, depois descobrir todas as mentiras ditas desde o momento em que nasci”, diz Zopf, agora com 43 anos e mãe solteira de três filhos, que vive em Camrose, Alberta.

A paternidade de Andreata era mantida em segredo por sua mãe, que temia ser desprezada pela sua comunidade católica, próxima e devota. Zopf diz que está contando agora a sua história porque está cansada das mentiras que espalhou para proteger os outros, incluindo a igreja – sem o falar do impacto esmagador sobre ela mesma. “Isto é sobre mim e a minha relação com a minha espiritualidade, sobre a igreja, sobre o abuso espiritual e sobre todos os outros abusos que derivam disso”, diz ela, fazendo notar que não frequenta mais a missa.

Zopf encontrou-se com Andreatta uma única vez por insistência de sua mãe, pouco depois de ter sabido a verdade. Ela, a sua mãe e uma amiga da escola, de sua confiança, foram de carro até Surrey, na Colúmbia Britânica, onde Andreatta era pastor numa paróquia local. Zopf lembra que estava ‘mortificada’ por ter de sentar num restaurante ao lado do velho padre que tinha cerca de 50 anos – a sua mãe tinha então 28 anos – quando Zopf foi concebida.

 

Foto: Rev. Albert Andreatta (Surrey Leader)

Ela não se lembra muito da conversa, exceto que ele deu detalhes do histórico médico, mas estava certa de que  “ele sabia que era o meu pai”. Os dois nunca se comunicaram novamente. A mãe de Zopf recusou ser entrevistada para esta história. A sua filha pediu que o primeiro nome de sua mãe fosse omitido. A revelação de Andreatta provocou a raiva de Zopf durante os seus anos de adolescência. Ela sentiu-se como uma ‘criança enjeitada’.

Ela descobriu que Alfred Zopf tinha feito uma vasectomia anos antes do seu nascimento em 1975; ele sabia que Andreatta era o pai da menina. (Os Zopfs divorciaram-se dois anos antes da morte de Alfred.) Susan diz que Alfred “não era um homem mesquinho”, mas não tinha ligação com ela porque “eu era justamente aquele lembrete constante” da traição.

Depois que Alfred Zopf morreu, Andreatta nunca ofereceu apoio à família. Nem sequer um cartão de Natal foi enviado por ele, lembra Susan. “Como ser humano, ele deveria ter melhorado”, diz ela sobre o padre. “Como homem de Deus, ele deveria ter melhorado. Vergonha para ele. Vergonha para a igreja”.

Andreatta, um americano que morreu em 1989, pertencia aos Salesianos de Dom Bosco, uma ordem religiosa que tem uma província com sede em São Francisco. Em maio de 2016, a Coping International, através do seu fundador Doyle, contatou os salesianos em nome de (Suzana) Zopf para tentar saber mais sobre Andreatta. Em resposta, o ‘consultor de saúde’ da congregação telefonou para Zopf para discutir o caso dela – depois encaminhou-a de novo  aos Salesianos. Zopf não foi contatada pelo provincial dos Salesianos, Rev. Ted Montemayor, até este mês de março.

Numa entrevista por telefone, Montemayor diz que não há nenhum registro sobre Andreatta informando que ele teve um filho. No entanto, diz que vê com simpatia a situação de Zopf. “A partir do momento que você é padre e está numa posição de aconselhamento ou de direção espiritual ou seja lá o que for, obviamente há algum poder envolvido”, diz Montemayor. “Desta maneira, se há mágoa – e obviamente a filha está passando por muita coisa ou passou por muita coisa – então devido a esse dano, essa ferida, nós lamentamos que isso tenha acontecido”. Montemayor diz que o caso de Zopf levou a sua congregação a estabelecer diretrizes sobre as responsabilidades parentais dos padres.

Zopf diz que

  • as dioceses católicas e as ordens religiosas
  • precisam ir além de oferecer desculpas e aconselhamento gratuito,
  • e tomar medidas enérgicas para sustentar as mães e os seus filhos.

Ela quer que os padres que se tornam pais sejam obrigados a assumir as suas responsabilidades paternas, continuem sendo padres ou não. “Esta é uma grave violação dos direitos humanos”, diz Zopf. “As mulheres acabam sendo deixadas e abandonadas com um bebê”.

 

Em 1966, Frande Bédard deu à luz um filho gerado pelo pároco local. Ela tinha 18 anos e, embora relutante, entregou-o para adoção. Tinha começado a trabalhar, um ano antes, como empregada doméstica no presbitério de uma paróquia em St-Marc-des-Carrières, uma aldeia 50 quilômetros a oeste da cidade de Quebec. Uma noite, o Rev. Armand Therrien arrastou-a para o seu quarto. “Eu disse: ‘Não, não, não”, diz Bédard, de 70 anos, numa entrevista por telefone, da sua casa em Longueuil, perto de Montreal.

 

France Bédard (Erick Labbe/Le Soleil)FOTO: France Bédard (Erick Labbe / Le Soleil)

“Ele colocou a mão sobre a minha boca de modo que eu não pudesse gritar. Ele disse: ‘se você gritar, o (outro) padre vai ouvir’. Eu imediatamente me senti culpada. Eu disse a ele: ‘Eu sou virgem, nunca conheci um homem’. Ele respondeu: ‘Esta noite vais descobrir o que um homem é’”.

Traumatizada e envergonhada, Bédard sabia que não encontraria conforto na que ela descreve como uma família abusiva, disfuncional e temente à igreja. A Revolução Silenciosa que iria abalar o domínio da Igreja Católica na sociedade de Quebec ainda não tinha deixado a sua marca. Ela manteve o abuso sexual em segredo e continuou trabalhando no presbitério.

Bédard diz que Therrien, que morreu em 2008, se aproveitou da sua vulnerabilidade e falta de apoio familiar para finalmente seduzi-la para um relacionamento íntimo. Ela engravidou e rejeitou a sugestão de Therrien para abortar. Ela veria novamente o filho 30 anos após a adoção, depois de uma busca persistente. A sua vida tinha sido difícil, perturbada pelo abuso de álcool e drogas.

Entretanto Bédard tinha-se casado e tinha três filhos. Em 2005, ela entrou em contato com a Arquidiocese de Quebec e pediu indenização. Quando a diocese recusou, ela foi à polícia e Therrien foi acusado de estupro e indecência grosseira. Um teste de DNA ordenado pelo tribunal provou que ele era o pai do filho de Bédard. Therrien morreu dias antes do seu julgamento.

Bédard então processou a arquidiocese e o espólio de Therrien por 200.000 dólares em danos. No julgamento, amplamente divulgado na cidade de Quebec, o advogado da arquidiocese acusou Bédard de mentir sobre o estupro, insistindo que a criança era o resultado de um caso de amor consensual.

Em 2012, o juiz do Tribunal Superior de Justiça, Édouard Martin assinalou na sua sentença que “ninguém pode permanecer insensível ao sofrimento extremo por que (Bédard) passou. A ferida moral continua doendo. O reverendo Therrien seduziu a reclamante. A gravidez, o nascimento do bebê e o consentimento forçado à adoção vieram em seguida. A reclamante sofreu uma grave injustiça, independentemente de como ocorreu a primeira relação sexual. Ela tem um direito claro à reparação do dano”.

 

Rev. Armand Therrien preyed on the vulnerability of France Bédard, who gave birth to his son.

FOTO: O Rev. Armand Therrien aproveitava-se da vulnerabilidade da France Bédard, que deu à luz o seu filho. (Le Journal de Québec)

Ainda assim, Martin decidiu contra Bédard, dizendo que o prazo de prescrição de três anos para processos civis em tais casos havia expirado. O Tribunal de Recursos chegou à mesma decisão em 2014.

Bédard não vê as decisões como uma derrota. O seu caso encorajou outras pessoas que foram abusadas sexualmente por padres a se apresentarem. Em 2008, ela co-fundou o hoje chamado Comitê para Vítimas de Sacerdotes.

Em parte devido ao seu caso, o Quebec modificou o estatuto de prescrições para processos civis por agressões sexuais, aumentando o prazo para 30 anos. O governo liberal de Quebec stá sendo pressionado agora para eliminar qualquer limite de tempo em tais casos. “No meu coração, eu ganhei”, diz ela.

 

O padre fumando cachimbo, e com forte sotaque holandês, estava à janela do hospital, embalando nos braços a sua filha recém-nascida, Michelle.

Charles Van Item estava com dificuldade para tomar uma decisão. Joanne Johnston, a sua amante – e esposa de um bom amigo de Van Item – fez isso por ele.

“A minha mãe disse que ele lhe propôs deixar o sacerdócio, levá-la, a mim e a minhas duas irmãs mais velhas, e fugir”, diz Michelle Raftis, filha de Van Item.  “Minha mãe recusou. Ela sabia que ele não estava apaixonado por ela. Acho que ele ficou muito feliz por minha mãe ter dito não”, continua a professora da cidade de Barrie. “Acho que era a única coisa que ele queria”.

O marido de Joanne, Gerard, sabia do caso. Ele também sabia que o bebê não era seu, mas manteve o seu tumultuado casamento. Ele permitiu que Van Item continuasse as suas visitas regulares ao vacilante lar em  Pickering depois que o bebê nasceu.

 

FOTO: Charles Van Item

“Ele vinha para os jantares e tudo o mais, e continuou a fazer isso”, diz Raftis, que se lembra da presença de Van Item e que Gerard Johnston não se opunha.  “Quão embaraçoso isso poderá ter sido? Isso durou anos até eu descobrir”. Gerard tinha conhecido Van Item quando ambos eram estudantes num seminário em Toronto. Joanne estava se preparando para ser  freira. Gerard e Joanne conheceram-se num evento social, apaixonaram-se e abandonaram os estudos religiosos para se casarem.

Quando tinha 13 anos, Raftis descobriu a verdade sobre o seu pai biológico quando um amigo da família deixou escapar isso durante um jantar num restaurante com um pequeno grupo. Nessa época, os Johnstons já se haviam separado. (Ambos estão mortos). Michelle lembra claramente a recomendação da mãe para proteger o padre:

“Tu não podes contar a ninguém. Tu nunca podes ter um relacionamento de pai e filha com ele. Tens apenas  de continuar a tua vida feliz como antes”. “E eu era como, ‘uma Santa’…”, diz Raftis. “E não contei a ninguém”.

Van Item interrompeu as visitas quando soube que Raftis sabia que ele era o seu pai. Ela manteve seu segredo e pensava nele “nos momentos mais estranhos”. “Eu estava no pátio da escola olhando em volta, dizendo: ‘Eu me pergunto o que eles pensariam se soubessem quem era meu pai?’”, diz ela. “Isso me vinha à mente muitas vezes. Ainda acontece, atualmente”.

Raftis não se comunicou com Van Item até o primeiro dos seus três filhos nascer. Ela e Ed Raftis, o seu marido de 35 anos, lembram-se de ter recebido uma grande cesta de presentes enviada para o seu quarto de hospital em Edmonton. No primeiro momento, Raftis não percebeu que era de Van Item.

Raftis ligou para o padre. Ela precisava do histórico médico dele e percebeu quão pouco sabia sobre ele: que ele tinha sido um prisioneiro de guerra, capturado durante a Segunda Guerra Mundial, na sua Holanda natal, onde foi torturado, durante anos. Quando já estava no Canadá, Van Item recebeu tratamentos regulares de terapia de choque, que Raftis acredita que seriam para aliviar os sintomas de traumas do tempo da guerra.

Van Item e Raftis começaram a se comunicar por telefone, com mais frequência. Mas nem sempre eram conversas cordiais. “Uma das primeiras conversas foi (ele dizendo) ‘falei com o meu bispo’”, diz Raftis, referindo-se a Van Item falando que tinha informado do seu nascimento a Arquidiocese de Toronto. Ela diz que isso lhe pareceu um manobra preventiva para o caso de ela pedir dinheiro a ele.

“Era quase como: não tente tirar nada de mim. O meu bispo sabe”, continua ela, acrescentando que “eu não perguntei isso a ele, eu não o estava ameaçando”. A família de Raftis voltou para Ontário [Estado] em 1998, estabelecendo-se mais tarde em Barrie. Van Item, nesse meio-tempo, tinha construído uma casa perto de Orangeville, onde ele era pastor na Paróquia de St. Timothy.

Ele também trabalhou na paróquia de St. Clement em Toronto. Raftis visitou-o algumas vezes em Orangeville. Certa vez, ela pediu-lhe dinheiro, quando Ed trabalhava por conta própria e ela estava desempregada: 250 dólares por mês durante dois anos para cobrir pagamentos de benefícios. Van Item prometeu (ajudar).

Os sentimentos conturbados de Raftis em relação ao pai persistiam – culpa, frustração, raiva, arrependimento. A pedido do seu marido, ela escreveu para o então chefe da Arquidiocese de Toronto, o cardeal Aloysius Ambrozic, no início de 2002. Ela queria ajuda para melhorar o seu relacionamento pai-filha. O cardeal não respondeu, mas o reverendo Brian Clough, do ‘Catholic Marriage Tribunal’ [tribunal de família, ndt] da arquidiocese viajou para Barrie para se encontrar com ela e com o seu marido, como mostra correspondência analisada pelo Star.

Depois de uma investigação, Clough deixou claro para Raftis, numa carta, a que o jornal Star (de Toronto) teve acesso, que Van Item era de fato o seu pai. Ele acrescentou que o cardeal Ambrozic não tinha ‘nenhuma objeção’ ao desejo de Raftis de um “relacionamento mais próximo, ‘de pai e filha’, com Van Item.

Ainda assim, as visitas de Raftis a Orangeville eram frequentemente tensas. Ela diz que Van Item era ‘frio’, mesmo em relação aos seus netos. Uma visita fez com que ela percebesse que um relacionamento mais profundo com o seu pai era impossível. Ele disse a ela, sem ser perguntado: “Eu não sou um homem de família, nunca fui, não quero ser”. 

“Isso realmente me derrubou”, diz Raftis. Ansiosa por encontrar outras pessoas como ela, começou a pesquisar on-line, digitando as palavras ‘filhos de padres’ com pouco sucesso. Isso mudou em 2015 quando o site “Coping International” surgiu. Raftis ligou para o seu fundador Vincent Doyle. Doyle encorajou-a a solicitar um ato de desculpas formais à Arquidiocese de Toronto. O cardeal Collins concedeu-lhe um encontro, mas o pedido de desculpas nunca chegou.

Raftis diz que

  • a igreja deve desenvolver políticas
  • que assegurem que os padres que têm filhos assumam as suas responsabilidades financeiras e emocionais.
  • Ela acredita que a igreja também deve repensar a obrigatoriedade do voto de castidade.

“O voto é tão forte assim? Obviamente não”, diz Raftis. “Então parem de dizer que se tem de fazer esse voto quando isso não está realmente acontecendo… Eles estão desrespeitando isso porque eles são humanos”.

Quanto ao pai dela, um tapa final. Van Item morreu sem ninguém informar Raftis. Ela tinha entendido que o padre tinha um amigo íntimo que deveria alertar a família Raftis se ele estivesse gravemente doente ou morresse. Um fumante inveterado de cachimbo, ele desenvolveu um enfisema. Raftis soube da morte dele quando viu o obituário de Van Item on-line.  “Sim, isso me aborreceu. Isso me irritou”, diz ela. “Não houve final mas também não houve começo”.

 

 

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MARY ORMSBY e SANDRO CONTENTA

Para entrar em contato com os repórteres, acesse mormsby@thestar.ca.  ou scontenta@thestar.ca. Este artigo foi atualizado para que ficassem mais claras as regras da Igreja Greco-Católica Ucraniana em relação aos padres casados.

Fonte: https://www.thestar.com/news/insight/2018/04/17/catholic-priests-take-a-vow-of-celibacy-when-theyre-ordained-but-when-they-break-that-vow-their-children-are-left-to-live-a-lie.html

 

 

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