Carta de Francisco aos Bispos chilenos após o encontro em Roma

 Segundo o Papa, “urge gerar dinâmicas eclesiais capazes de promover participação e missão compartilhada de todos os membros da comunidade eclesial evitando qualquer tipo de messianismo ou psicologia- espiritualidade de elite. E, especificamente, por exemplo, nos fará bem nos abrirmos mais e trabalhar em conjunto com diferentes instâncias da sociedade civil para promover uma cultura anti-abuso de qualquer tipo”.

 

Esta é a íntegra da carta.

Em 8 de abril, Domingo da Misericórdia lhes enviei uma carta convocando-os a Roma para discutir os resultados da visita da “Missão especial”, que tinha a tarefa de ajudar a encontrar a luz para tratar adequadamente a ferida aberta, dolorosa e complexa que há muito tempo não deixa de sangrar na vida de tantas pessoas e, portanto, na vida do povo de Deus.

Uma ferida tratada até agora com um remédio que, longe de a cicatrizar, parece tê-la aprofundado mais em sua espessura e dor.  Devemos reconhecer que  foram realizadas várias ações para tentar reparar os danos e sofrimentos causados, mas devemos estar cientes de que o caminho seguido não serviu muito para sarar e curar.

Talvez por querer virar a página rápido demais e por não assumir as insondáveis  ramificações deste mal; ou porque não se teve a coragem de enfrentar as responsabilidades, as omissões e, principalmente, as dinâmicas que permitiram que as feridas fossem feitas e perpetuadas no tempo; talvez porque não se teve a coragem de tomar como corpo essa realidade na qual estamos todos envolvidos, eu por primeiro, e da qual ninguém pode se pode eximir jogando o problema para as costas dos outros; ou porque se pensou que se poderia seguir em frente sem reconhecer humildemente e corajosamente  que em todo o processo se haviam cometido erros

Neste sentido, ouvindo o parecer de várias pessoas e constatando a persistência da ferida, eu formei uma Comissão especial para que, com grande liberdade de espírito, de modo jurídico e técnico, pudesse  fornecer um diagnóstico o mais independente possível e oferecer um olhar limpo sobre os acontecimentos passados ​​e o estado atual da situação.

Este tempo que nos é oferecido é um tempo de graça. Tempo para poder, sob o impulso do Espírito Santo e num clima de colegialidade, tomar as medidas necessárias para gerar a conversão a que o mesmo espírito quer nos levar. Precisamos de uma mudança, sabemos disso, precisamos disso e ansiamos por isso. Não só o devemos a nossas comunidades e a tantas pessoas que sofreram e sofrem na sua carne, as dores causadas, mas também porque pertence à missão e à própria identidade da Igreja o espírito de conversão.

Deixemos este tempo ser tempo de conversão. “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (Jn. 3,30). Com estas palavras, o último dos grandes profetas, João Batista, falava aos seus discípulos quando, escandalizados, lhe faziam ver havia alguém fazia o mesmo que ele. João conscientes de sua identidade e missão -ele não era o Messias, mas tinha sido enviado antes dele (vv.28)- não hesita em lhes dar uma resposta clara, sem qualquer tipo de ambiguidade.

Com este pano de fundo de profecia e inspirado pelas palavras deste profeta, eu gostaria de dar o “pontapé inicial” para a reflexão fraterna com vocês durante estes dias.

 

1. É necessário que ele cresça …

Talvez não haja maior alegria para o crente do que compartilhar, testemunhar e tornar visível Jesus e seu Reino. O encontro com o Ressuscitado transforma a vida e torna a fé contagiante. É a semente do Reino dos Céus que espontaneamente tende a ser compartilhado, para se multiplicar e que, como André, nos leva a correr para os nossos irmãos e dizer. “Achamos o Messias” (Jo. 1,41)

Um Messias que sempre abre horizontes de vida e esperança. O discípulo deseja se lançar nesta aventura do Espírito para fazer crescer e espalhar a nova vida que Jesus nos oferece. Essa ação não a podemos nunca identificar com proselitismo ou conquista do espaço, mas como o convite alegre para a nova vida que Jesus dos oferece. “É necessário que ele cresça” é o que pulsa no coração do discípulo, porque ele experimentou que Jesus Cristo é oferta de vida boa. Só Ele é capaz de salvar. A Igreja no Chile sabe disso. A história nos diz que ela soube ser uma mãe que gerou muitos filhos na fé, pregou a nova vida do Evangelho e lutou por ela quando ela  foi ameaçada.

Uma Igreja que sabia lutar quando a dignidade de seus filhos não era respeitada ou simplesmente ignorada. Longe de se colocar no centro, procurando ser o centro, ela sabia ser a Igreja que colocava o importante no centro. Em momentos sombrios da vida do seu povo, a Igreja no Chile teve a coragem profética, não só para levantar a voz, mas também para convocar, para criar espaços na defesa de homens e mulheres que o Senhor lhe havia confiado para sobre eles velar; bem sabia que  não se podia proclamar sem promover, através da justiça e da paz, o verdadeiro crescimento de cada pessoa (1).

Assim, podemos falar de uma Igreja profética que sabe oferecer e gerar a vida boa que o Senhor nos oferece. Uma Igreja profética que sabe colocar Jesus no centro é capaz de promover uma ação evangelizadora que olha para o Mestre com a ternura de Teresa dos Andes e afirmar:

“Tens medo de te aproximar dele? Olha para Ele no meio do seu rebanho fiel, carregando aos ombros a ovelha infiel. Olha para Ele sobre o túmulo de Lázaro e ouve o que diz a Madalena: muito lhe foi perdoado, porque muito amou. O que descobres nestas passagens do Evangelho senão um coração doce, terno, compassivo, enfim, o coração de um Deus? ” (2)

Uma Igreja profética que sabe colocar Jesus no centro é capaz de fazer festa, pela alegria que o Evangelho provoca. Como observei em Iquique, mas que podemos estender a muitos lugares de norte a sul do Chile, a piedade popular é uma das maiores riquezas de que o povo de Deus tem sabido cultivar.

Com suas festividades de santo padroeiro, com suas danças religiosas – que duram até semanas – com sua música e roupas típicas, conseguem converter tantas áreas em santuários de piedade popular. Porque não são festas que estão trancadas dentro do templo, mas que conseguem vestir todas as pessoas para a festa (3). E assim resta um entrecruzamento capaz de celebrar com alegria e esperança a presença de Deus no meio de seu povo.  Nos santuários aprendemos a fazer uma igreja local, a ouvir, a saber sentir e compartilhar uma vida como ela é apresentada. Uma Igreja que aprendeu que a fé só é transmitida em linguagem popular e assim celebra, cantando e dançando “a paternidade, a providência, a presença amorosa e constante Deus” (4).

Uma Igreja profética que sabe como colocar Jesus no centro é capaz de gerar em santidade  um homem que sabia como para proclamar sua vida:

“Cristo vaga por nossas ruas na pessoa de tantos pobres, enfermos, despejados de seu cortiço esquálido Cristo. Encolhido embaixo de pontes, na pessoa de tantas crianças que não têm ninguém para chamar “pai”, que há muitos sentem a falta de um beijo em sua mãe na sua testa … Cristo não tem casa! Não  queremos nós lhe dar um lar? O que fizerdes ao mais pequeno de meus irmão,  é a mim que o fazeis, disse Jesus (5); pois “se verdadeiramente nós compartilhamos a contemplação de Cristo, temos que sabê-lo descobrir sobretudo no rosto daqueles com os quais Ele mesmo se quis identificar” (6)

Uma Igreja profética que sabe como colocar Jesus no centro é capaz de convocar para gerar espaços que acompanhem e defendam a vida dos diferentes povos que compõem seu vasto território, reconhecendo uma riqueza multicultural e étnica incomparável pela qual é preciso velar. A título de exemplo, eu assinalo especialmente iniciativas promovidas pelos bispos do sul do Chile durante a reunião década 60-70 impulsionando os mecanismos necessários para que o Povo Mapuche pudesse viver plenamente a arte do bem viver -da qual temos tanto que aprender-.

Ações fortes que geraram estruturas em favor da defesa da vida, convidando ao protagonismo responsável de uma fé transformadora e encarnada; essa fé que sabe como fazer vida a chamada do Concílio que nos lembra que

“as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres de todos os que sofrem, são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo.  Não há nada verdadeiramente humano que não encontre eco em seu coração “(7).

Uma Igreja profética que sabe como colocar Jesus no centro com sinceridade, é capaz -como soube mostrar-nos um dos Vossos pastores- de

“confessar que na nossa história pessoal e na história do nosso Chile, houve injustiça, mentiras, ódio, culpa, indiferença [E os convidava a ser] sinceros, humilde e a dizer ao Senhor: “pecamos contra ti”. Pecar contra o nosso irmão, homem e mulher, é pecar contra Cristo, que morreu e ressuscitou por todos os homens. Sejamos honestos, humildes! Pequei contra ti o Senhor! Não obedeci ao teu Evangelho! ” (8)

A consciência conhecedora de seus limites e pecados faz com que ela viva alerta diante da tentação de suplantar o seu Senhor. E assim poderíamos continuar a enumerar muitos fermentos vivos da Igreja profética que sabe como colocar Jesus no centro. Mas o convite maior e mais fecundamente vital -como já procurei enfatizar na recente Exortação Apostólica lembrando Edith Stein– nasce de confiança e convicção de que

“na noite mais escura surgem as maiores profetas e santos. No entanto, a corrente vivificante da vida mística permanece invisível. Os acontecimentos decisivos da história do mundo foram essencialmente influenciados por almas sobre as quais os livros de história nada dizem. E  quais sejam as almas a que  devemos agradecer pelos acontecimentos de nossas decisões de vida pessoal, é algo que só saberemos no dia em que tudo o que está oculto for revelado” (9)

O santo povo fiel de Deus, do seu silêncio cotidiano, de muitas formas e maneiras continua a tornar visível e a testemunhar com “teimosia”  que o Senhor não abandona, que sustém a entrega constante, em muitas situações de sofrimento de seus filhos. O Santo e Paciente Povo fiel de Deus, sustentado e vivificado pelo Espírito Santo, é o melhor rosto da Igreja profética que na entrega quotidiana sabe colocar  no centro o seu Senhor (10).

Nossa atitude como pastores é aprender a confiar nesta realidade eclesial e a reverenciar e reconhecer que, num povo simples, que confessa a sua fé em Jesus Cristo, ama a Virgem,  ganha a vida com seu trabalho, (tantas vezes mal pago), batiza seus filhos e enterra seus mortos; nesse povo fiel que sabe que é pecador, mas não se cansa de pedir perdão porque acredita na misericórdia do Pai, nesse povo fiel e silencioso está o sistema imunológico da Igreja.

 

2. … E que eu diminua

É doloroso notar que, neste último período da história da Igreja Chilena, esta inspiração profética perdeu força para dar lugar ao que poderíamos chamar de uma transformação no seu centro. Eu não sei o que veio primeiro, se a perda de força profética deu lugar à mudança de centro ou a mudança de centro levou à perda da profecia que era tão característica em Vocês.

O que podemos observar é que a Igreja que foi chamada a apontar Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14.6) tornou-se o centro das atenções.

  • Ela parou de olhar e apontar para o Senhor, para olhar para si mesmo e cuidar de si mesma.
  • Ela concentrou a atenção em si mesma e perdeu a memória de sua origem e missão (11).
  • Ela ficou absorvida de tal forma que as consequências de todo esse processo tiveram um preço muito alto: seu pecado tornou-se o centro das atenções.

A dolorosa e vergonhosa constatação de abusos sexuais contra menores, de abusos de poder e de consciência pelos ministros da Igreja, assim como a forma como essas situações foram abordadas (12), mostra claramente esta “mudança do centro eclesial”. Longe de diminuí-lo para que surgissem os sinais do Ressuscitado, o pecado eclesial ocupou todo o cenário, concentrando em si a atenção e os olhares.

É urgente abordar e procurar reparar, a curto, médio e longo prazos, esse escândalo para restaurar a justiça e a comunhão (13). Ao mesmo tempo, acredito que, com a mesma urgência, devemos trabalhar em outro nível para discernir como gerar novas dinâmicas eclesiais em consonância com o Evangelho e que nos ajudem a ser melhores discípulos missionários capazes de recuperar a profecia.

Essa nova vida que o Senhor nos dá, implica recuperar a clareza do Batista e afirmar sem ambiguidade que o discípulo não é e nunca será o Messias. Isso nos leva a promover uma percepção alegre e realista consciência de nós mesmos: o discípulo não é mais que o seu Senhor. E por isso mesmo, em primeiro lugar, temos que estar atentos a todo tipo ou forma de messianismo que procura ser o único intérprete da vontade de Deus.

Muitas vezes podemos cair na tentação de uma vivência eclesial da autoridade que pretende suplantar as várias instâncias de comunhão e participação, ou, o que é pior, substituir a consciência dos fiéis esquecendo o ensinamento conciliar nos lembra que “a consciência é a o núcleo mais secreto e o tabernáculo do homem, no qual ele está só com Deus, cuja voz ressoa na parte mais íntima dela “(14). É essencial recuperar uma dinâmica eclesial capaz de ajudar os discípulos a discernir o sonho de Deus para suas vidas, sem pretender substituí-los em tal busca.

De fato, os falsos messianismos buscam cancelar essa verdade eloquente de que a unção do Santo a possui a totalidade dos fiéis (15). Nunca um indivíduo ou um grupo iluminado pode pretender ser a totalidade do Povo de Deus e, muito menos, acreditar ser a voz autêntica de sua interpretação. Nesse sentido, devemos prestar atenção ao que eu chamo de “psicologia de elite”, que pode se sobrepor na nossa abordagem das questões. A psicologia da elite ou elitista acaba criando dinâmicas de divisão, separação, “círculos cerrados” que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritários nas quais, em vez de evangelizar, o importante é se sentir especial, diferente dos outros, deixando assim em evidência nem Jesus Cristo nem os outros realmente interessam (16).

O messianismo, elitismos, clericalismos, são todos sinônimos de perversão no ser eclesial; e também sinônimo de perversão é a perda da sã consciência  de nos saber que pertencemos ao santo Povo fiel de Deus que nos precede e que – graças a Deus – nos sucederá. Nunca percamos a consciência daquele dom tão excelso que é o nosso batismo.

O reconhecimento sincero, orante e muitas vezes doloroso de nossos limites é o que permite que a graça aja melhor em nós, pois lhe deixa espaço para provocar esse possível bem que se integra numa dinâmica sincera, comunitária e de real crescimento. (17) Esta consciência de limite e da parcialidade  que ocupamos dentro do povo de Deus nos salva da tentação e pretensão de querer ocupar todos os espaços e, sobretudo, um lugar que não é nosso é do Senhor.

Só Deus é capaz de totalidade, só Ele é capaz da totalidade de um amor exclusivo e, ao mesmo tempo,  não excludente. Nossa missão é e sempre será uma missão compartilhada. Como eu vos  disse no encontro com o clero em Santiago:  “A consciência de ter feridas nos liberta de nos tornarmos, de nos crermos seres superiores. Nos liberta da tendência Prometeu daqueles que, basicamente, só confiam em suas forças e se sentem superior aos outros “(18). 

Por isso, e permitam-me insistência, é urgente gerar eclesial dinâmicas eclesiais capazes de promover a participação e a missão compartilhada de todos os membros da comunidade eclesial evitando qualquer tipo de messianismo ou psicologia-espiritualidade elite. E, especificamente, por exemplo, nos fará bem nos abrirmos mais e trabalhar em conjunto com diferentes instâncias da sociedade civil para promover uma cultura antiabuso, seja de que tipo for de qualquer tipo. Quando os convoquei para esta reunião, convidei-os a pedir ao Espírito o dom da magnanimidade para poder traduzir em fatos concretos o que refletirmos. Exorto-vos  para que peçamos com insistência este dom, para o bem da Igreja no Chile. 

Recebi com alguma preocupação a atitude com que alguns de vós, Bispos, reagiram aos acontecimentos presentes e passados.  Uma atitude orientada para o que  podemos denominar de “episódio Jonas” – no meio da tempestade era necessário enfrentar o problema (Jonas 1,4 – 16) (19) – acreditando que a a simples remoção de pessoas solteiras resolveria, sozinha os problemas(20)

Assim, passa ao esquecimento o princípio paulino : “se o pé disser:” Como não sou mão, não faço parte do corpo “, será que, por isso ele não permaneceria parte dele? (21) Os problemas que hoje são vividos dentro da comunidade eclesial não se resolvem apenas abordando os casos concretos e reduzindo-os à remoção de pessoas (22).

Isso – e o digo claramente – deve ser feito, mas não é suficiente, devemos ir além. Seria irresponsável da nossa parte não nos aprofundarmos em busca das raízes e estruturas que permitiram que esses eventos concretos acontecessem e se perpetuassem. As situações dolorosas que ocorrem são indicadores de que algo no corpo eclesial está errado. Devemos abordar os casos específicos e, por sua vez, com a mesma intensidade, aprofundar para descobrir as dinâmicas que tornaram possível que tais atitudes e males pudesse acontecer (24)

Confessar  o pecado é necessário, procurar remediá-lo é urgente, conhecer as raízes dele é sabedoria para o presente-futuro. Seria uma grave omissão da nossa parte não mergulhar nas raízes. Mais ainda: acreditar que só a remoção de pessoas, sem mais, geraria a saúde do corpo, é uma grande falácia. Não há dúvida que iria ajudar e é necessário fazê-lo, mas, repito, não o suficiente (25), uma vez que este pensamento nos dispersaria da responsabilidade e da participação que nos compete dentro do corpo da igreja.

E onde a responsabilidade não é assumida e compartilhada, o culpado pelo que não funciona ou está errado é sempre o outro (26).Por favor, cuidado com a tentação de querer salvar a nós mesmos, de querer salvar nossa reputação (“para salvar a pele”); que possamos confessar comunitariamente a fraqueza e, assim, poder encontrar juntos respostas humildes, concretas e comunitárias em comunhão com todo o povo de Deus.

A gravidade dos acontecimentos não nos permite tornar-nos caçadores de “bodes expiatórios”.Tudo isso nos exige seriedade e co-responsabilidade para assumir os problemas como sintomas de tudo um eclesial que somos convidados a analisar e também nos pede que busquemos todas as medidas necessárias para que nunca mais se tornem a perpetuar. Só o podemos solucionar se assumimos, como um problema de todos e não como o problema que algumas pessoas estão vivendo. Só podemos resolvê-lo se assumirmos colegialmente, em comunhão na sinodalidade.

Irmãos, não estamos aqui porque somos melhores do que ninguém. Como eu vos disse no Chile, estamos aqui com a consciência de sermos pecadores- perdoados ou pecadores que querem ser perdoado, pecadores, com abertura penitencial. E nisto encontramos a fonte de nossa alegria. Queremos ser pastores no estilo de Jesus ferido, morto e ressuscitado. Queremos encontrar nas feridas do nosso povo os sinais da ressurreição. Queremos passar de uma Igreja auto-centrado, abatida e desolada por seus pecados, a uma Igreja servidora de muitos mortos que convivem a nosso lado.

Uma Igreja capaz de colocar no centro o importante: o serviço de seu Senhor nos faminto, nos presos, no sedento, no desalojado, no nu, doente, no abusado … (Mt. 25,35 ) com a consciência de que eles têm a dignidade para se sentarem à nossa mesa, de se sentirem “em casa”, entre nós, de serem considerados uma família. Esse é o sinal de que o Reino dos Céus está entre nós, é o sinal de uma Igreja que foi ferido por seu pecado, e perdoada por seu Senhor, e convertida em prof´ética por vocação(27). Irmãos, idéias se discutem, as situações se discernem. Estamos reunidos para discernir, não para discutir.

Renovar a profecia é voltar a nos concentrarmos no que é importante; é contemplar aquele que trespassaram e ouvir “não está aqui, ressuscitou” (Mt 28,6); é criar as condições e as dinâmicas eclesiais para que cada pessoa, na situação em que se encontra, possa descobrir O que vive e espera por nós na Galileia.

 

Francisco

 

Veja também a carta em espanhol:

Francisco se despede dos bispos do Chile, e lhes entrega uma carta

 

 

Notas:

(1) Cf . Beato PAULO VI, Evangelii Nuntiandi, 29.

(2) Santa Teresa dos Andes, diários e cartas, 373.376.

(3) Cf .. Homilia e saudação final da Santa Missa de N.S  do Carmo e oração para o Chile, Iquique, campus Lobito, 18 de janeiro de 2018.

(4) Evangelii Nuntiandi, 48; CELAM, Pueba, 400.454; CELAM, Aparecida, 99b. 262-265: EG, 122

(5) Santo ALBERTO HURTADO, Cristo não tem casa: meditação num retiro a um grupo de senhoras em 16 de Outubro de 1944.

(6) S. João Paulo II, NMI, 49.

(7) VATICANO II, Gadium et Spes, 1.

(8) Cardeal Silva Henríquez, Reconciliação dos Chilenos, Homilia no final do Ano Santo, 24 de novembro de 1974.

(9) Verborgenes Leben Und Epiphanie: GW XI, 145.

(10) Cf. Gaudete et Exsultate, 09.06 ..

(11) “Tua fama se espalhou entre as nações por causa de tua beleza perfeita, graças ao esplendor com que eu te tinha adornado – oráculo do Senhor. Mas tu te evaideceste com tua beleza e te aproveitaste da tua fama…” Ez. 16,14-15b.

(12) É sintomático notar no relatório apresentado pela “Missão especial” que todos os entrevistados, incluindo os membros do Conselho Nacional para a Prevenção do Abuso de Menores e Apoio às Víítimas, tenham assinalado a insuficiente ação pastoral prestada atá agora a todos aqueles que se viram  envolvidos, de uma forma ou de outra, numa causa canônica de delicta graviora.

(13) Cf. Carta aos Bispos do Chile após o relatório de S.E. Monsenhor Charles J. Scicluna, 8 de abril de 2018.

(14) VATICANO, GS 16.

(15) Cf. Vaticano II Lumen Getium, 12.

(16) Cfr. Evangelii gaudium, 94

(17) Cfr. Gaudete et Exsultate, 52.

(18) Encontro com sacerdotes, religiosos / as, dedicado / as e seminaristas, Santiago de Chile, 16 de janeiro, 2018.

(19) O próprio Jonas assume que a tempestade foi provocada por ele não assumir a missão que lhe fora dada e que, para se livrarem da tempestade, deviam jogá-lo ao mar. v 12: “levantem-me e jogue-me ao mar e ele se acalmará. Eu sei bem que foi por minha culpa que vos veio esta grande tempestade”.

(20) “Morto o cachorro, acabou a raiva”. Igualmente se poderia dizer da “síndrome Caifás”: “convém que um só homem morra pelo povo”.

(21) 1 Cor. 12, 12.

22) Porque não se trata só de um caso particular. São numerosas as situações de abuso de poder, de autoridade, de abuso sexual. E isso inclui o tratamento que até agora se ha vinha tendo com os mesmos.

23) A título de exemplo, no relatório apresentado pela “Missão especial”, muitos dos entrevistados em Sotero Sanz afirmam que parte da fratura profunda na comunhão eclesial se vem arrastando no clero desdo o mesmo Seminário, viciando o que deveriam ser relações fraternas presbiterais e fazendo com que os fieis participassem destas divisões e fraturas, o que acaba por prejudicar irremediavelmente a credibilidade social e a liderança eclesial dos presbíteros e dos bispos

24) No mesmo relatório da “Missão especial”, os meus enviados puderam confirmar que alguns religiosos expulsos da sua ordem por causa da imoralidade de sua conduta, e depois de se ter minimizado a absoluta gravidade de suas ações delituosas atribuindo-as a simples fraqueza ou falta moral, teriam sido acolhidos em outras dioceses e, inclusive, de maneira mais que imprudente, se lhes teriam confiado cargos diocesanos ou paroquiais que implicam contato diário e direto com menores.

25) novamente, nesse sentido, eu gostaria de me deter em três situações que aparecem no relatório da “Missão especial”:

  1. A investigação demonstra que existem graves defeitos na manira de gerir os casos de delicta graviora que corroboram alguns dados preocupantes começaram a chegar ao conhecimento de alguns Dicastérios romanos. Especialmente na maneira de receberas denúncias ou notitiae criminis, pois em não poucos casos têm sido classificados muito superficialmente como inverossímeis, o que eram graves indícios de um efetivo delito. Durante a Visita foi constatada também a existência de presumidos delitos investigados só já fora do tempo ou até nunca investigados, com o consequente escândalo para os denunciantes e para todos aqueles que conheciam as presumidas vítimas, famílias, amigos, comunidades paroquiais. noutros casos, foi constatada a existência de gravíssimas negligências na proteção de meninos/as e de meninos/as vulneráveis, por parte dos Bispos e Superiores religiosos, que têm um especial responsabilidade nessa tarefa de proteger o povo de Deus
  2. Outras circunstância análogas que me deixaram perplexo e envergonhado foi a leitura das declarações que nos dão a certeza de pressões exercidas sobre aqueles que deveriam levar adiante a instrução dos processos penais ou até mesmo a destruição de documentos comprometedores pelos encarregados de arquivos eclesásticos, evidenciando assim uma absoluta falta de respeito ao procedimento canônico, pior ainda, algumas práticas reprováveis que deverão ser evitadas no futuro.
  3. Na mesma linha e para poder corroborar que o problema não pertence só a um grupo de pessoas, no caso de muitos abusadores se detectaram já graves problemas neles, na sua etapa de formação no seminário ou noviciado. De fato, constam nas atas da “Missão especial” graves acusações contra alguns Bispos e Superiores que teriam confiado essas instituições educativas a sacerdotes suspeitos de homossexualidade ativa.

(26) Eco dessa atitude paradigmática que nos recorda Gn 3,11-13 “por acaso comeste da árvore que eu te proibi? ” . O homem lhe respondeu: “A mulher que puseste a meu lado me deu o fruto e eu comi dele”. O Senhor disse então à mulher: “Como fizeste semelhante coisa?”. A mulher respondeu: “A serpente me seduziu e respondi. Em crioulo nos lembra a atitude de menino que olha para seus pais e diz: “Eu não fui”

27) Cfr. Encontro com os sacerdotes, religiosos/as consagrados/as e seminaristas, Santiago de Chile, 16 de janeiro de 2018

 

Veja também:

23 de Maio de 2018 | Categoria: A Palavra de Francisco, Abuso de autoridade na Igreja, Abusos sexuais na Igreja di Chile, Corrupção na Igreja, Homossexualidade na Igreja, Igreja em Caminhada Sinodal, Igreja no Chile, Pedofilia na Igreja | Edite este post

1 comment to Carta de Francisco aos Bispos chilenos após o encontro em Roma

  • oscar varela

    Hola!
    Excelente trabajo de traducción y recopilación de antecedentes en el Listado de los “links”.
    Joao Tavares nos tiene acostumbrados a sus esforzados servicios,
    ¡Gracias!

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