QUANDO O PENTECOSTES ACABAR É O FIM

Não existem, para os cristãos, cidades e povos mais santos uns do que os outros.

 

Resultado de imagem para QUANDO O PENTECOSTES ACABAR É O FIM

Frei Bento Domingues – 20 maio 2018

Imagem: música católica e arte

“Ele sopra onde quer, quando quer e como quer, sem pedir licença ao que antigamente estava escrito na Bíblia. Mas a liberdade do Espírito suscita na Igreja o espírito de liberdade, de criatividade. Foi para a liberdade que fostes libertados.

Uma Igreja que recusa a inovação em nome do que sempre assim foi, do que está escrito nos textos do Novo Testamento, atraiçoa a sua missão. Como diz Tomás de Aquino, a letra sem Espírito, mesmo a do NT, mata!”

 

 

«O animal corre, e passa, e morre. E é o grande frio. / É o grande frio da noite, é a escuridão. / O pássaro voa, e passa, e morre. E é o grande frio. / É o grande frio da noite, é a escuridão. / O peixe nada, e passa, e morre. / E é o grande frio. / É o grande frio da noite, é a escuridão. / O homem come, e dorme, e morre. E é o grande frio. / É o grande frio da noite, é a escuridão. / Acende-se o céu, apagam-se os olhos, resplandece a estrela. / E aqui em baixo é o frio, e lá no alto é a luz. / Passou o homem, desfez-se a sombra, libertou-se o cativo. / Vem, espírito, vem, por ti chamamos.»[1]

O autor dos Actos dos Apóstolos diz que quando chegou o dia de Pentecostes – isto é, cinquenta dias depois da Páscoa – estavam todos os discípulos reunidos no mesmo lugar. Como disse na crónica do Domingo passado,

  • se nada acontecesse de novo,
  • continuava ali uma Igreja na sua prisão de medo,
  • de gente pasmada,
  • fiéis a um judaísmo tradicional,
  • o judaísmo da fidelidade à letra que mata,
  • e às interpretações infinitas do mesmo.

Os Actos falam de algo insólito. Uma rajada de vento e línguas de fogo. O que teria sido aquilo? Estamos perante representações simbólicas.

Segundo uma narrativa antiga, a diversidade de línguas era fruto de uma maldição divina[2]. Era deus que não queria que os povos se entendessem, não fossem eles unirem-se contra ele. Um deus assustado com a criatividade humana.

Os factos até pareciam comprovar essa suspeita. O Pentecostes veio mostrar que era uma suspeita infundada.

  • O que o Espírito de Deus mais deseja
  • é o entendimento de todos os povos,
  • sem anular a originalidade de cada um.

Não lhe agrada a unicidade linguística, nem qualquer outra que tente dominar as possibilidades originais de cada povo. A dominação globalizada é a antítese do Espírito do Evangelho. Sempre que na Historia o nome de Cristo foi usado para impor uma cultura ou uma religião, traiu o que há de mais genuíno no Espírito de Pentecostes.

Existem, certamente, cidades que são património da humanidade, a diversos títulos. Entre nós, é comum referir-se a Jerusalém, a Atenas e a Roma como símbolos de uma cultura que soube unir, sem confundir, a religião, a razão e o direito. Sabemos que nunca foi uma história pacífica e linear. Mas aquilo que deve mover os cristãos é o espírito de convergência e não de arrogância.

A distinção entre a fé, a razão e o direito deve permitir a sua coabitação pacífica, colaborante. Não existe, para os cristãos, cidades e povos mais santos, uns do que os outros. Podemos e devemos rezar pela paz, mas também trabalhar pelo desenvolvimento da razão e do direito se queremos que a religião, a razão e o direito não sirvam para o que há de mais torto no mundo, a dominação dos mais fortes sobre os mais fracos.

 

2. Já abordámos, em crónicas anteriores, os atrevimentos do Espírito de Cristo.

  • Para Ele, não há povos que são de Deus e outros que estão irremediavelmente perdidos.
  • Por outro lado, como não é um espírito nivelador, suscita uma grande diversidade de carismas.
  • Como não actua só no espaço eclesial, a Igreja, enviada a todo o mundo, – Igreja de saída – tem de estar atenta a tudo o que de bom vai acontecendo na sociedade, dentro e fora das religiões.

Ele sopra onde quer, quando quer e como quer, sem pedir licença ao que antigamente estava escrito na Bíblia. Mas a liberdade do Espírito suscita na Igreja o espírito de liberdade, de criatividade. Foi para a liberdade que fostes libertados. Uma Igreja que recusa a inovação em nome do que sempre assim foi, do que está escrito nos textos do Novo Testamento, atraiçoa a sua missão. Como diz Tomás de Aquino, a letra sem Espírito, mesmo a do NT, mata!

Não se trata de recusar o estudo aturado, a exegese em todas as suas formas, dos textos do NT. Não se pode pensar que o Espírito de Cristo esgotou as suas capacidades e as nossas necessidades. Precisamos de rezar como os pigmeus,Vem, espírito, vem, por ti chamamos.

 

3. Jacques Lacan tinha razão quando dizia que o cristianismo ainda não disse a sua última palavra. Com toda a objectividade, não se pode reduzir a sua história àquilo que atraiçoou o espírito do Nazareno. Semelhante a um grande rio, como diz Hans Küng, cuja nascente é das mais modestas, soube adaptar-se sempre a novas paisagens culturais. Sofreu derrotas estrondosas e profundas alterações. Esteve, muitas vezes, na origem de novas transfigurações da história do mundo.

O que é extraordinário é que esse Espírito conseguiu irromper sempre, apesar das falhas pessoais e das instituições, na vida daquelas e daqueles que não se contentaram com palavras e O seguiram na sua vida, de forma nova e inovadora, em fidelidade à graça que o Baptismo celebra e que a Eucaristia alimenta.

A verdade do cristianismo

  • não é um encadeado de ideias ortodoxas para conhecer e debater, um credo,
  • mas uma verdade que faz viver, transfigurar a existência.
  • O que lhe interessa não é a produção de uma história exterior de beleza e cultura.
  • O fruto dos dons do Espírito Santo são as pessoas que consentem que as suas vidas sejam verdadeiras obras de arte, pela alegria que deram a quem precisava de uma mão estendida e de um sorriso.

O cristianismo não disse a última palavra. S. Pedro, no sermão do Pentecostes, mostrou porquê ao lembrar uma profecia que não está esgotada: derramarei o meu Espírito sobre todo o ser vivo. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões[3].

O Papa Francisco tem feito um esforço enorme para que esta profecia continue a realizar-se. Uma das coisas em que mais insiste com os jovens é que eles devem ser

  • pessoas criativas e de rebeldia,
  • inconformados com o mundo que temos.
  • Quando se lhes pede para que sejam muito ajuizados, Bergoglio pede-lhes que sejam muito atrevidos.

Mas esse atrevimento, em vez de ser dirigido para a repetição da estupidez, seja criador de sonhos. Uma das invenções da juventude é a descoberta da sabedoria dos avós e daqueles que foram arrumados em casas de tristeza. Aconselha-os a irem cantar e dançar com e para quem ainda pode rir e alegrar-se.

Se o Pentecostes é a abertura, a partir do concreto, a todos os mundos, a todos os povos de todas as línguas e culturas, sem esse Espírito ficaremos atados aos projectos de quem pensa que todo o mundo é seu e que precisa de levantar muros físicos, técnicos, económicos e culturais para perpetuar a sua dominação.

 

 

Frei Bento Domingues, O.P.

Fonte: https://www.publico.pt/2018/05/20/…/quando-o-pentecostes-acabar-e-o-fim-1830583

 

 

 

.

NOTAS:

[1] Pigmeus, África Equatorial (trad. de Herberto Helder)

[2] Gn 1, 9

[3]https://www.publico.pt/2018/05/20/…/quando-o-pentecostes-acabar-e-o-fim-1830583 Act 2

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>