Chile, a tomada de consciência de uma Igreja ferida

 

A clamorosa decisão dos 34 bispos de colocar nas mãos do Papa a sua renúncia abre uma fase de renovação. Que será longa e difícil

 

ANDREA TORNIELLI – CIDADE DO VATICANO, 18/05/2018

Tradução: Orlando Almeida

Nunca na história da Igreja tinha acontecido uma coisa assim: o episcopado de um país inteiro que coloca nas mãos do Papa a sua renúncia. Um gesto clamoroso e inédito, que representa a primeira resposta realmente adequada  à dramaticidade da situação.

O escândalo dos abusos sexuais contra menores, dos abusos de consciência e de poder, a guarida e o encobrimento, a pertinaz incapacidade de tomar consciência do que aconteceu e de quanto descrédito isso representou para a Igreja, tornaram necessária esta decisão.

 

No documento de dez páginas escrito pelo Papa, que foi entregue aos 34 bispos na sua chegada ao Vaticano, Francisco não fez o papel de inquisidor, não foi à caça de culpados como bodes expiatórios a serem sacrificados. Ele foi à raiz do problema, mostrando, com dados em mãos e graças à investigação aprofundada conduzida por monsenhor Scicluna, quanto a doença estava estruturada e sistêmica.

Por isso pôde afirmar que tudo o que foi feito até agora para reparar o mal cometido “não serviu para grande coisa”, talvez porque se quis “virar a página rápido demais” ou porque “não se teve a coragem de enfrentar as responsabilidades, as omissões e especialmente as dinâmicas que permitiram que as feridas acontecessem e se perpetuassem no tempo”.

Papa Francisco: Jamais o perdão jurídico a quem abusou de menores Foto: La Stampa

Francisco recordou o glorioso e profético passado da Igreja chilena, que nos anos Setenta defendeu o povo da ditadura, levantando corajosamente a sua voz em favor dos mais fracos. Depois aconteceu alguma coisa, mudou o centro em torno do qual tudo girava. “A própria Igreja se tornou o centro das atenções. Parou de olhar e apontar para o Senhor, para olhar-se e ocupar-se de si mesma”.

 Em resumo, nas entrelinhas do documento papal lê-se este diagnóstico: os pastores separaram-se do povo, achegaram-se ao poder, tornaram-se uma casta, com uma “psicologia de elite”, círculos fechados com espiritualidades narcisistas e autoritárias.

Em vez de evangelizar, o importante era sentirem-se especiais, diferentes dos outros: “Messianismo, elitismo, clericalismo são todos sinônimos de perversão do ser da Igreja e também sinônimo de perversão é a perda da sã consciência de saber que pertencemos ao santo povo fiel a Deus que nos precede”.

A doença que atingiu a Igreja chilena – fruto de décadas de nomeações selecionadas segundo as regras de pertencimento a clubes selecionados e cordadas eclesiais, e aos seus referentes vaticanosnão se cura passando uma esponja, uma operação maquiagem, a demissão de algum bispo.

Exige que se vá mais a fundo. Houve proteções, os culpados de abusos foram afastados de uma ordem religiosa para ser acolhidos em outro lugar, em dioceses, onde foram colocados novamente em contato com os jovens.

 

As denúncias das vítimas que corajosamente quebraram o asfixiante muro de silêncio que envolvia os crimes do padre Fernando Karadima foram consideradas “inverssímeis” por bispos, arcebispos e cardeais, porque Karadima era um “santo” e um grande formador de sacerdotes e bispos.

As vítimas foram desacreditadas, afastadas, rejeitadas, definidas como “serpentes” nas trocas de cartas entre cardeais. E foi impressionante ler o que até na véspera do encontro com o Papa foi arrogantemente declarado por algum dos protagonistas, incapaz de ver, incapaz de fazer ‘mea culpa’. Esse ‘mea culpa’ que, ao contrário, Francisco fez, pedindo perdão por ter-se enganado sobre o caso chileno.

Com uma igreja

  • onde se verificaram abusos de poder,
  • onde houve pressões indevidas sobre quem estava investigando, para que tudo ficasse encoberto,
  • onde foram destruídos documentos para impedir que as investigações prosseguissem, a fim de apurar a verdade,

o Papa Francisco não usou o seu “poder”.

No Chile, Francisco pede perdão pela pedofilia de sacerdotes – REUTERS

Não se apresentou como um anjo vingador, pronto a fulminar os culpados em virtude de ser o chefe da Igreja universal. Propôs aos 34 bispos um retiro espiritual, um percurso penitencial. Colocou-os diante das suas responsabilidades, ou melhor, abriu os olhos deles para o estado em que se encontra a Igreja de Chile.

E em três dias o episcopado chileno finalmente percebeu a situação, colocando o Papa em condições de renovar.

“Irmãos – escreveu Francisco no documento entregue aos bispos –  não estamos aqui porque somos melhores que os outros. Como vos disse no Chile, estamos aqui com a consciência de sermos pecadores perdoados ou pecadores que querem ser perdoados, pecadores com abertura penitencial ». Não super-heróis.

Uma Igreja que olha para si mesma, que se preocupa consigo mesma, com o seu bom nome, que vive de si mesma, do seu poder e dos seus privilégios, e não sabe ficar perto do povo. O caso do Chile torna-se emblemático para outras Igrejas, para outros episcopados, para outros países do continente americano e do europeu.

A atitude penitencial, de quem não se coloca num pedestal defendendo o indefensável, é um passo necessário no Chile e em todas as partes do mundo.

As feridas só poderão ser curadas se a Igreja chilena, além de pôr em prática as melhores práticas para a proteção dos menores, e de agir contra os que se mancham com estes delitos que destroem a alma, voltar a se centrar fora de si mesma e do seu poder, tornando “a olhar e a indicar o Senhor”.

 

 

ANDREA TORNIELLI

Fonte: http://www.lastampa.it/2018/05/18/vaticaninsider/cile-la-presa-di-coscienza-di-una-chiesa-ferita-EK6xUVlEdIsMGViWGRZRUO/pagina.html

 

 

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