A vida secreta da Idade Média. Como se vivia realmente mil anos atrás?

Entrevista com Elena Percivaldilibrovitasegretamedioevo1

 Marco Corrias

Tradução: Orlando Almeida

Em 2013 foi publicada a “La Vita Segreta del Medioevo Come si viveva davvero mille anni fa?”[A Vida Secreta da Idade Média – Como se vivia realmente há mil anos atrás?], livro editado na Itália pela Newton Compton.

Tivemos a oportunidade de falar com a autora antes de sua conferência sobre “Constantino e Helena na iconografia e na arte”, realizada na conclusão da Mostra – evento, realizado em Giussano (Província de Monza e Brianza) na primeira metade de dezembro [de 2013].

Vamos fazer à autora as nossas perguntas mais urgentes, a propósito do seu trabalho mais recente.

A ENTREVISTA:

P: “A Vida Secreta da Idade Média” é a análise de uma época histórica que vem sendo amplamente pesquisada há anos, mas ainda largamente desconhecida do público em geral. Qual é o objetivo do seu novo trabalho?

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[Há uma versão em português, da Editora Vozes: “A VIDA SECRETA DA IDADE MÉDIA: Fatos e curiosidades do milênio mais obscuro da história(Nota do Tradutor)]. Foto: amazon

R: Escrevi-o como uma narrativa não convencional da Idade Média.

  • Não era para ser o costumeiro manual de história, cheio de listas de datas, batalhas e nomes já conhecidos,
  • mas a síntese de aspectos menos conhecidos.

Em “A Vida Secreta da Idade Média” fala-se da vida cotidiana: roupas, comida, religião, vida sexual, morte e psicologia do homem nos diferentes momentos que marcaram esta época que durou mais de um milênio.

 

P: A Idade Média é uma era muito mal compreendida; no melhor dos casos, era capaz de evocar no imaginário coletivo lugares comuns como princesas e castelos; no pior, ao contrário, séculos de trevas e pestilências. A quem dar razão?

R: A Idade Média

  • nem sempre foi considerada um período interessante,
  • mas uma época obscurantista,
  • erroneamente avaliada de acordo com os critérios e valores do pensamento de hoje.

Os castelos existem e as princesas também, mas especialmente nos séculos mais tardios: época que eu não deixei de lado, embora, para o meu gosto, a idade mais fascinante e menos explorada seja a representada pela primeira fase, das invasões dos bárbaros até Carlos Magno  (séculos VI-IX).

 

P: As suas páginas descrevem mil anos de história com uma abordagem agradavelmente informativa, dando preferência a eventos menos conhecidos, curiosidades e notas coloridas.

R: A Vida Secreta na Idade Média é um livro para todos; tanto para quem já conhece o assunto, como para quem quer aprofundá-lo. A avaliação final caberá aos leitores. Até agora, as vendas estão indo bem, a ponto de estarmos aguardando a reimpressão.

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P: Comecemos dos alvores. Da alta Idade Média dos bárbaros, eternos incompreendidos. Séculos de estudos clássicos falsearam a realidade acerca destes grandes “pioneiros” da Europa.

R: A sua observação é relevante.

  • Os bárbaros de etnia germânica
  • trouxeram para a Itália a sua bagagem de conhecimentos a seu modo evoluídos,
  • diferentemente do que os estudos seculares nos fizeram acreditar.

Na verdade, tratou-se inicialmente um encontro-confronto com os povos itálicos:

  • o bárbaro, habituado a viver imerso na natureza, era muito diferente do homem do Mediterrâneo;
  • no entanto, a capacidade de comunicação mútua entre culturas opostas levou ao nascimento da futura identidade europeia:
  • a partir dos usos e costumes, através da linguagem falada, até à formação de uma tradição cultural e literária.

 

P: Na “Vida Secreta da Idade Média”, os supostos séculos das trevas constituem um milênio povoado por viajantes, por mulheres eruditas e corajosas. Quem o diria?

R: Algumas figuras mais conhecidas, como Hildegarda de Bingen, foram pessoas extraordinárias, capazes de superar a condição da mulher subordinada ao homem; mas houve também outras figuras menos conhecidas, como a nobre Dhuoda: manifesto vivo de uma mulher culta que, na época considerada “mais obscura” (século IX), conhecia bem o latim e a religião e tentou educar o filho que estava longe nos valores fundantes da sociedade carolíngia, com um tratado-carta a ele dirigido, sobre como lidar com os poderosos. Mesmo a nossa época precisaria de mães como ela!

 

P: Concordo plenamente. No seu texto fala-se de viagens oníricas e de viagens fantásticas, como a sua conhecida tradução e comentários da “Navegação de São Brandão” (monge-navegador irlandês do século VI); mas também de viagens concretas, como a do compatriota dele, São Columbano. 

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R: O impacto com mundos novos ou meio desconhecidos deveu-se principalmente a razões comerciais. Além do já famoso Marco Polo, eu quis também considerar viajantes provenientes de outras culturas, como a islâmica. O mundo na época era percebido como mais vasto do que o atual, povoado por seres imaginários. É por isso que, ao lado do aspecto geográfico da descoberta, também se recortou um espaço imaginário, como nas extraordinárias viagens do “Preste João”: soberano de um reino de imensas riquezas.

 

P: O que pode dizer-nos, para o bem ou para o mal, sobre o papel desempenhado pela Igreja na Idade Média?

R: Os pilares do pensamento medieval eram dois:

  • de um lado, a Igreja com seus ditames,
  • do outro, o Império, que impunha leis, modelos de comportamento e convenções sociais.

A Igreja era o eixo através do qual girava o mundo todo: criticada e adorada, conforme a época.

A relação entre o cidadão medieval e a Igreja, de fato, era de amor e de ódio: um relacionamento do qual surgiria toda uma série de movimentos alimentados pela ânsia de renovação (os patarinos em Milão, os cátaros, as ordens mendicantes…), às vezes acusados de heresia.

 

P: A meu ver, no Ocidente a sociedade laica resultou da relação de confronto entre os dois grandes poderes de que nos falou agora mesmo: o laico e o espiritual. O que pensa a propósito disso?

R: O confronto é frequentemente portador de resultados positivos. A rediscussão de ideais compartilhados e o colapso de velhas certezas levaram muitas vezes à necessidade de avançar e, consequentemente, ao progresso.

 

P: A propósito do Império: o Barbarroxa. Há alguns anos, saiu um filme não exatamente memorável, aliás objeto de várias acusações. Uma oportunidade perdida de contar-nos, através da tela grande, um episódio fundamental da nossa história?

R: Além de se fazer porta-voz de uma mensagem política, a minha opinião sobre o filme de Martinelli, do ponto de vista estritamente histórico, é negativa. Além disso, o filme carece de páthos, de inspiração poética e é mal interpretado.

 

P: Para voltar ao nosso tema, a certo ponto, diz-nos a história, “explode”o Humanismo. Com ele terá início o Renascimento: mas a Idade Média realmente acabou?

R: Não. A Idade Média continua, a Idade Média está aí ainda hoje. Muitas vezes ouvimos falar por meio de clichês: quantas vezes ouvimos frases feitas, de “ideias” ou “práticas” medievais?

Deveríamos aprender, de uma vez por todas, que agora

  • a Idade Média deve ser interpretada de forma positiva:
  • é o patrimônio que está em nós e que carregamos dentro de nós através das festas, do folclore e das tradições, a base da nossa cultura:
  • sem o legado medieval não somos nada.

 

P: O medo da morte, outro lugar comum da época medieval, na verdade nasceu no limiar do Renascimento (basta pensar nos famosos e perturbadores “Triunfos da Morte”, afrescos pintados entre os séculos XIV e XV: da obra-prima de Buffalmacco no Cemitério de Pisa, à do Oratório dos  Disciplini em Clusone – Bergamo…).

R: O medo da morte nasce sempre quando se tem algo a perder.

  • Na alta Idade Média, havia muito pouco a perder: as pessoas tinham pouco.
  • Só mais tarde, com a ascensão da burguesia, foram criadas as condições para um estado social e um patrimônio:

por isso, quando os cidadãos da época tardia começaram a morrer devido à peste (a mais famosa, a de 1348, que veio através do comércio com o Oriente) ou devido à guerra, criou-se uma situação de grave perda.

 

P: Há uma fascinante nota de “horror”, tirada da sua Vida Secreta da Idade Média, que não posso deixar de mencionar: ou seja, a dos “revenant” ou “retornados da morte”.

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R: Os ‘revenant’ são figuras extraordinárias que aparecem antes mesmo da Idade Média. Eles eram os que nos tempos modernos costumamos chamar de “vampiros”.

Temos testemunhos disso não apenas no Leste Europeu, mas também na Irlanda e até na Itália. Nas necrópoles da região da Emilia (Reno, Baggiovara…) os arqueólogos escavaram túmulos de personagens misteriosos sacrificados e trespassados por pregos e estacas, aos quais foram cortados as mãos e os pés.

Essas partes, misturadas, foram colocadas novamente no túmulo para evitar que voltassem do além para molestar os vivos.

Certamente esses personagens faziam parte de uma sociedade diferente: forasteiros, transgressores de leis, assassinos ou pecadores. Em qualquer caso, não estavam enquadrados pela ordem estabelecida da época.

 

P: Para terminar, “Mille non più Mille[Mil não mais Mil] (1): quando se começará, então, a falar menos por meio de frases feitas e a aprender mais com o próprio passado?

R: As pessoas do ano Mil não sabiam que viviam no ano Mil, portanto não se preocupavam com o problema. Era apenas uma questão entre eruditos.

 

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Marco Corrias

 

https://www.milanofree.it/milano/cultura/la_vita_segreta_del_medioevo_come_si_viveva_davvero_mille_anni_fa_intervista_a_elena_percivaldi.html

 

 

***

(1) Equivalente à expressão proverbial portuguesa: “De mil passarás, de dois mil não passarás”.

 

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