A Igreja Ortodoxa Russa ‘sopra ora quente ora frio’ sobre o diálogo ecumênico

 

L’Église orthodoxe russe souffle le chaud et le froid sur le dialogue œcuménique

Samuel Lieven,  08/05/2018

Tradução: Orlando Almeida  

Enquanto o Patriarca Kirill faz votos de unidade das Igrejas Cristãs diante do terrorismo islâmico, o metropolita Hilarion manifesta o seu ceticismo sobre uma reaproximação com a Igreja Católica.

Esta divisão de papéis permite a Moscou ‘soprar ora quente ora frio’ [assumir posições contraditórias] sobre o ecumenismo, um terreno altamente sensível dentro das suas fileiras.

Na Foto: Vladimir Putin e o Patriarca Kirill assistem a um serviço de oração por ocasião da investidura de Putin na Catedral da Anunciação no Kremlin, em Moscou, em 07 de maio de 2018 / Alexey Nikolsky / sputnik / kremlin pool/epa/Maxppp

 

O ecumenismo não é, ao que parece, a unanimidade na cúpula da Igreja ortodoxa russa.

  • Ao mesmo tempo em que o Patriarca Kirill de Moscou realizava, de 28 a 30 de abril, uma visita histórica à Albânia onde defendeu a unidade das Igrejas cristãs na luta contra o terrorismo,
  • o Metropolita Hilarion, número dois da Igreja Russa encarregado das relações exteriores do Patriarcado jogava um balde de água fria nos entusiasmos ecumênicos do seu chefe.

Hilarion, em especial, não concorda com aqueles que acreditam que as Igrejas ortodoxa e católica-romana superarão por fim a  sua separação histórica.

 

A eventual canonização de um cardeal croata não é aceita

“Embora os fundamentos da nossa fé sejam idênticos, e o Credo quase análogo, os católicos tiveram outra representação da processão do Espírito Santo. Este é o primeiro ponto.

Em segundo lugar, durante quase mil anos de história de existência separada, acumulámos muitas contradições e desentendimentos”

– declarou o metropolita durante o programa “A Igreja e o Mundo” do canal de TV Russia 24, comentando a declaração do Patriarca de Constantinopla Bartolomeu, segundo a qual a reunião dos dois ramos do cristianismo seria inevitável.

Para reforçar as suas palavras, o metropolita mencionou a canonização de santos católicos, inaceitável do ponto de vista ortodoxo.

Os católicos falam da possibilidade de canonizar o cardeal Stepinac” – frisou ele. – Ele era croata, é venerado na Igreja Católica como um santo. Mas, na opinião da Igreja Ortodoxa sérvia, ele participou diretamente do genocídio dos Sérvios”.

Em 2016, foi criada em Roma uma comissão para permitir aos católicos e aos ortodoxos estudarem juntos a figura controversa do cardeal croata, considerado como um

  • opositor ferrenho do regime Ustache pelos croatas católicos,
  • mas como um homem violentamente anti-sérvio e anti-semita pelos ortodoxos sérvios.

A outra crítica de Hilarion à Igreja Católica é bem mais antiga.  Está relacionada com o proselitismo de que esta última ainda hoje é suspeita por causa do uniatismo – termo que designa as tentativas históricas de converter as populações ortodoxas ao catolicismo.

Relações muito degradadas na época de João Paulo II

Muito deterioradas ao tempo de João Paulo II, que

  • reativou as dioceses católicas romanas na Rússia durante o seu pontificado
  • e nomeou um arcebispo polonês para Moscou,

as relações entre a Igreja Ortodoxa russa e a Igreja Católica estão em conflito principalmente na questão dos greco-católicos da Ucrânia.

Minoritária, unida a Roma desde a sua fundação no final do século XVI, a Igreja greco-católica (5 milhões de fiéis de rito oriental), duramente perseguida durante o período soviético, tomou naturalmente partido pela reaproximação de Kiev com a União Europeia. Ao fazê-lo, atraiu os raios da ira de Moscou, que fez disso um obstáculo para a continuação do diálogo ecumênico com Roma.

O ecumenismo é uma área muito sensível dentro da mais importante Igreja Ortodoxa,

  • dominada por uma corrente nacionalista e ultraconservadora
  • com a qual o Patriarca Kirill é obrigado a conviver.

Daí

  • a divisão de papéis com o seu número dois, o metropolita Hilarion,
  • para melhor alternar o calor e o frio nas relações com a Igreja Católica.

Quando Kirill

  • encontra o papa em Cuba (fevereiro de 2016)
  • e estende a mão ao Ocidente na defesa dos cristãos do Oriente,
  • na luta contra o terrorismo ou na promoção dos “valores tradicionais”, de que Moscou fez sua o seu cavalo de batalha,

Hilarion por seu lado

  • lembra sistematicamente os pontos de desacordo com a Igreja católica.

É a mesma estratégia de quente e frio que, dentro de mundo ortodoxo, levou finalmente Kirill a boicotar a reunião do Concílio pan-ortodoxo realizado em Creta, há dois anos, por iniciativa do Patriarca Ecumênico de Constantinopla.

 

 

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Samuel Lieven

Fonte: https://www.la-croix.com/Religion/Orthodoxie/LEglise-orthodoxe-russe-souffle-chaud-froid-

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