Deus não é misógino

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Anselmo Borges, 04/05/2018

 

1. “Preocupa-me que continue a persistir uma certa mentalidade machista, inclusive nas sociedades mais avançadas, nas quais há actos de violência contra a mulher, convertendo-a em objecto de maus-tratos, de tráfico e de lucro, bem como de exploração na publicidade e na indústria do consumo e da diversão. Preocupa-me igualmente que, na própria Igreja, o papel de serviço a que todo o cristão está chamado deslize algumas vezes, no caso da mulher, para papéis que são mais de servidão do que de verdadeiro serviço.” Quem o diz é Francisco, Papa.

A confirmar que esta preocupação tem fundamento está um texto recente, que não apareceu em nenhum jornal revolucionário, mas num suplemento do órgão oficioso do Vaticano, L”Osservatore Romano:

“O trabalho (quase) gratuito das freiras”, no qual várias irmãs, sob anonimato, se queixam: “Algumas servem nas casas de bispos e cardeais, outras trabalham na cozinha de instituições da Igreja ou desempenham tarefas de catequese e de ensino. Algumas, ao serviço de homens da Igreja, levantam-se pela manhã, para preparar o pequeno-almoço e vão-se deitar, depois de servir o jantar, limpar a casa, lavar a roupa e passar a ferro… Neste tipo de serviços, as irmãs não têm um horário preciso nem regulamentado como os leigos.” E “raramente são convidadas a sentar-se às mesas que servem”, perguntando uma das irmãs:

“É normal para um consagrado ser servido deste modo por uma consagrada também?” Isto significa “muitas vezes que as irmãs não têm um contrato com os bispos ou as paróquias”. Por isso, “o pagamento é baixo ou nenhum”.

Assim, como podem viver as comunidades a que pertencem estas irmãs? E o problema não é só de dinheiro:

“Por detrás, há ainda a ideia de que a mulher – e nesta situação há inclusivamente irmãs doutoradas em Teologia – vale menos do que o homem, sobretudo que o padre é tudo enquanto a irmã religiosa é nada na Igreja. O clericalismo mata a Igreja.”

E, de repente, podem ser despedidas e reenviadas para a Congregação. Doentes, nenhum padre vai visitá-las. Mas, quando o padre vai rezar a missa às religiosas, “pede 15 euros. Por vezes as pessoas criticam as freiras, a sua cara fechada, o seu carácter… Mas, por detrás de tudo isso, há muitas feridas”.

O artigo conclui, dizendo que as experiências destas religiosas “poderiam transformar-se numa riqueza para toda a Igreja, se a hierarquia masculina as considerasse uma ocasião para uma verdadeira reflexão sobre o poder”.

 

2. O problema essencial é mesmo este: o clericalismo e o poder, embora Jesus tenha proclamado a igualdade de todos e mandado que todos estejam ao serviço, sem servidão. Felizmente, Francisco vai repetindo que

  • as mulheres devem ocupar lugares cimeiros para as decisões da Igreja,
  • e o cardeal P. Parolin, secretário de Estado do Vaticano, disse recentemente que o seu sucessor poderia ser uma sucessora, uma mulher.

Mas vem sempre ao de cima a questão da possibilidade ou não da ordenação das mulheres. Assim, e recordando apenas os últimos papas – remeto para a obra importante

Para nuestra memoria histórica. Las mujeres en la voz de los papas, de Marta Zubía Guinea, doutorada em Teologia -, temos que

  • a Igreja não está autorizada a admitir as mulheres, porque “Cristo é um homem.” (Paulo VI);
  • “A Igreja não tem de modo algum a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres”, porque “Cristo chamou como apóstolos seus só homens e associou-os especial e intimamente à missão do mesmo Verbo encarnado.” (João Paulo II);
  • “O ministério sacerdotal, procedente do Senhor, está reservado aos homens, na medida em que o ministério sacerdotal é o governo no sentido profundo, pois, em última análise, é o sacramento que governa a Igreja.” (Bento XVI).

É claro que estas afirmações,

  • que supõem uma concepção misógina de Deus, no quadro do patriarcalismo,
  • têm também na sua base uma determinada hermenêutica da criação, no Génesis, e a própria biologia.

De facto, Aristóteles e São Tomás escreveram que “a mulher é um homem mutilado” – não se pode esquecer que

  • só em 1827 se descobriu o óvulo feminino,
  • de tal modo que antes só o homem seria propriamente procriador,
  • a mulher era passiva.

Por outro lado, quando se argumenta com Cristo-homem, esquece-se o que está no Evangelho de São João, no qual se lê que o Verbo, a Palavra, se fez sarx (no grego), carne (humanidade frágil). Escreve justamente Marta Zubía:

“Sublinhar

  • a masculinidade de Jesus
  • e não o seu ser humano
  • leva a incorrer num reducionismo de Cristo,

porque o Evangelho anuncia-nos que

  • que o Verbo se humanizou, não que se varonizou,
  • que se fez homem (anthropos, homo)
  • e não que se fez varão (aner, vir).

Deus não se humanizou na sexualidade de Jesus, mas na sua pessoa, na sua humanidade. Esta redução,

  • agravada pelo uso exclusivo de linguagem e imagens masculinas,
  • leva a considerar a masculinidade,
  • se não em teoria, pelo menos na prática,
  • como uma característica essencial do próprio Deus.”

 

3. No passado dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, muitas católicas desfilaram também nas marchas de protesto, declarando o que é verdade:

“Se nós, as mulheres, pararmos, a Igreja pára.”

O que a Igreja prega para fora tem de valer também para dentro:

  • serem diferentes
  • não pode continuar a significar inferiores.

“Durante quanto tempo pode a hierarquia manter a credibilidade de um Deus

  • que quer as coisas assim,
  • que quer uma Igreja onde as mulheres são invisíveis e não têm voz na liderança?”,
  • perguntou a católica Mary Mcleese, ex-presidente da Irlanda.
  • Deus não se pode opor aos direitos humanos. Jesus teve discípulos e discípulas e São Paulo na Carta aos Romanos refere Júnia, “ilustre entre os apóstolos”.

O cardeal Ch. Schönborn, arcebispo de Viena, acaba de propor um concílio para decidir sobre a ordenação das mulheres “como sacerdotes e bispos”.

 

 

Anselmo Borges

 

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/deus-nao-e-misogino-9306476.html

 

 

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