Sobre a crise dos abusos no Chile, quem levou o Papa Francisco a cometer “graves erros”?

 

On Chile abuse crisis, who led Pope Francis to make ‘serious errors’?

 

Inés San Martín – 25/04/2018

CORRESPONDENTE NO VATICANO

Foto: O Papa Francisco reúne-se com os bispos do Chile na sacristia da catedral em Santiago, Chile, em 16 de janeiro. (Crédito: CNS photo / Paul Haring.)

Tradução: Orlando Almeida

 

 

ROMA – Na esteira do notável reconhecimento do Papa Francisco de ter cometido “graves erros de avaliação e de percepção” ao lidar com uma crise de abusos sexuais no Chile, a esta altura estamos com mais perguntas do que respostas

  • o que realmente aconteceu
  • e quem é o responsável pela inicialmente forte defesa feita pelo pontífice de um bispo acusado de encobrimento.

De 28 a 30 de abril, Francisco irá encontrar-se com três vítimas do mais infame padre pedófilo do Chile, o padre Fernando Karadima:

  • Juan Carlos Cruz,
  • James Hamilton
  • e Andres Murillo.

Ele pediu que eles viessem a Roma e eles ficarão em Santa Marta, a residência dentro da área do Vaticano onde ele mora.

Duas semanas depois, de 14 a 17 de maio, Francisco estará recebendo os 32 bispos chilenos que ainda estão na ativa. Entre eles,

  • quatro foram fortemente influenciados por Karadima
  • e foram acusados ​​pelos sobreviventes de encobrir o seu antigo mentor.

Francisco convocou os prelados a Roma com uma carta que enviou a eles depois de analisar um relatório de 2.300 páginas do arcebispo Charles Scicluna.

*

Desde que os próximos encontros entre Francisco e dois grupos muito diferentes de Chilenos foram anunciados, há pelo menos cinco perguntas que continuam sendo urgentes:

  • Francisco disse que cometeu erros de avaliação “devido à falta de informações verdadeiras e equilibradas”. Quem lhe deu essas informações?
  • Muitos em Osorno, para onde o bispo Juan Barros, um ex-membro do círculo íntimo de Karadima, foi transferido pelo papa em 2015, têm contestado essa nomeação desde então, assim como os três sobreviventes. O Vaticano já tinha investigado Barros antes de fazer a transferência?
  • Quem era mesmo Karadima, e por que alguns, incluindo o papa, pensam que a posição da imprensa contra Barros poderia ter sido ideologicamente motivada?
  • Em 2011, o Vaticano considerou Karadima culpado de abusar sexualmente de menores e sentenciou-o a uma vida de “penitência e oração”. São, ele e as pessoas que ele influenciou através da paróquia de El Bosque, num dos bairros mais ricos de Santiago, o fim da história? Ou há outros escândalos de abusos esperando para serem revelados?
  • Por mais raras que estas duas reuniões possam ser, elas são realmente sem precedentes?

Na semana passada, Crux conversou com várias pessoas do Chile numa tentativa de responder a estas perguntas. Devido à sensibilidade do assunto,

  • muitos pediram para falar na condição de anonimato devido ao fato de alguns deles terem sido vítimas de abuso psicológico de Karadima
  • e outros trabalham para a hierarquia local e não foram autorizados a falar com a mídia.

 

In wake of abuse scandal, bishops of Chile talk resignation

Quem deu ao papa informações sobre o caso Barros (foto)?

Vários bispos, incluindo os cardeais Francisco Javier Errázuriz e Ricardo Ezzati, ambos arcebispos de Santiago, negaram abertamente ter informado mal o papa. No entanto, eles são muitas vezes os únicos apontados pelas vítimas e por muitos clérigos locais.

Aos 84 anos, Errázuriz está aposentado, mas liderou a Igreja de Santiago de 1998 a 2010. Apesar da sua idade,

  • ele continua a ter uma presença importante na Igreja Chilena,
  • entre outras razões, porque participa do conselho dos nove cardeais conselheiros de Francisco.

Ele está atualmente em Roma, participando das reuniões regulares do conselho consultivo papal.

Na semana passada ele disse que

  • o seu papel como conselheiro papal não significa que ele está encarregado de informar Francisco sobre a situação da Igreja Chilena.
  • O seu trabalho no “C9”, disse ele, é “aconselhar o papa sobre os assuntos que ele nos consulta”.

“Não faz parte da nossa tarefa informar o papa sobre as dificuldades, os possíveis erros e males que afetam a Igreja”, afirmou Errázuriz.

Durante uma coletiva de imprensa na semana passada, Ezzati disse que nem ele nem a Igreja Chilena haviam enganado o papa, pedindo ao mesmo tempo que qualquer um que tenha feito isso se apresente.

“Aqueles que cometeram erros devem reconhecê-los, arrepender-se e repará-los”, disse Ezzati no encerramento de uma reunião que manteve com o clero de Santiago para ler e falar sobre a carta do papa.

Fontes

  • descreveram essa reunião como “inútil”,
  • com uma pessoa temendo realmente que a reunião se tornasse um “campo de batalha”,
  • o que no final não aconteceu.

No entanto, falando com Crux, padres que estavam presentes destacaram o fato de que

  • depois de Ezzati ter feito as suas considerações finais,
  • nas quais defendeu suas ações,
  • nenhum padre aplaudiu.
  • Ele teria alegado que, quando se tratou de abuso sexual clerical, ele “fez tudo certo”.

“Ele está negando completamente a realidade”, disse um padre a Crux na segunda-feira, quatro dias depois da reunião na catedral de Santiago.

Ezzati tem 76 anos, o que significa que ele já apresentou a sua renúncia a Francisco, já que é obrigatório que todos os bispos façam isso quando atingem 75 anos.

  • Ele foi nomeado arcebispo de Santiago em dezembro de 2010,
  • dois meses antes da sentença do Vaticano contra Karadima.

Outra pessoa que está no olho do furacão é o representante do papa no país, o arcebispo Ivo Scapolo, que está no Chile desde julho de 2011. Ele foi transferido para lá pelo Papa Bento XVI quatro meses depois de Karadima ter sido considerado culpado pelo Vaticano.

Como núncio, Scapolo desempenhou um papel chave na nomeação de Barros para Osorno, pois faz parte do seu trabalho enviar ao Vaticano uma lista de três candidatos quando qualquer diocese precisa de um bispo. Ele presumivelmente também aconselhou a Santa Sé na nomeação de seis outros bispos que foram nomeados por Francisco, e de alguns dos sete nomeados por Bento XVI durante o seu pontificado.

  • O núncio está perto de completar 65 anos, portanto, do ponto de vista canônico, ele não é obrigado a renunciar.
  • Ele comprometeu-se a ficar em silêncio, optando por não fazer comentários sobre a carta do papa, em público.

Embora acreditando que ambos deveriam ser removidos de seus postos, um leigo com conhecimento interno da Igreja Chilena disse a Crux que tinha evidências suficientes para acreditar que tanto Ezzati como  Scapolo tinham feito tudo o que podiam para dar ao papa as informações necessárias.

No entanto,

  • em entrevistas diferentes e até nas redes sociais,
  • algumas das vítimas de Karadima apontaram os três como responsáveis ​​por informar mal o papa.

O cardeal Sean P. O’Malley de Boston, chefe da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores,

  • entregou em mãos ao papa uma carta de Cruz, um dos sobreviventes,
  • onde este detalhou os abusos que sofreu e o papel que Barros desempenhou.

O’Malley é o mesmo cardeal que, depois que Francisco disse que as acusações contra Barros eram uma “calúnia”, divulgou uma declaração dizendo que era “compreensível” que a linguagem do pontífice tivesse causado “grande dor”.

A carta de Cruz foi entregue a O’Malley no início de 2015 por quatro membros da comissão pontifícia que se tinha encontrado com vítimas de Karadima.

A correspondência entre Errázuriz e Ezzati vazada para a mídia chilena no ano passado

  • sugere fortemente
  • que os dois homens estavam determinados a bloquear a nomeação do sobrevivente de abuso Cruz para a comissão papal.

Por último mas não menos importante, há o padre jesuíta espanhol Germán Arana.

  • Relatos do seu papel na nomeação de Barros remontam a 2015,
  • quando foi revelado que o bispo teve um mês de retiro em janeiro conduzido por Arana.
  • Logo depois, o padre supostamente foi a Roma, onde se encontrou com Francisco e apresentou um ‘feedback’ positivo sobre Barros.
  • O padre foi visto mais tarde em Osorno, durante a Missa de posse de Barros, que teve que ser encurtada devido aos protestos dentro e fora da catedral local.

ScVatican investigator meets with Chilean sex abuse victims

Mons Scicluna, enviado de Francisco para investigar denúncias, no Chile e Nova Iorque

A reportagem de Colazzi, em 2012

A visita de Scicluna ao Chile e a Nova York, onde ele se encontrou com 64 pessoas, muitas delas vítimas, e nem todas relacionadas com caso de Karadima, foi vista como uma mudança de atitude em Francisco.

Embora ainda desconhecido,

  • o conteúdo do relatório apresentado por Scicluna afetou claramente o Papa
  • tanto que o levou a escrever a carta ao Chile
  • e a contatar os sobreviventes uma semana depois que recebeu os documentos finais.

Mas não foi o primeiro relatório que um papa pediu sobre um ex-membro do círculo íntimo de Karadima. Durante os períodos

  • de 4 a 8 de dezembro de 2011 e 25 a 28 de janeiro de 2012,
  • o bispo uruguaio Carlos Colazzi visitou o Chile para entrevistar cerca de 45 padres – incluindo os quatro Bispos
  • que na época eram membros da “União Sacerdotal do Sagrado Coração”, fundada na década de 1920
  • e que eventualmente caiu sob o controle de Karadima.

O objetivo da sua visita era

  • avaliar o processo de formação dos membros da união
  • e a transparência financeira do grupo.

Em 2010,

  • quando as alegações contra o padre abusador se tornaram públicas pela primeira vez (uma das vítimas tinha ido à diocese em 2003),
  • dez padres decidiram deixar a união,
  • que na época era dirigida pelo bispo Andrés Arteaga, um dos quatro acusados ​​de encobrimento.

O relatório de Colazzi, que é o resultado do que é conhecido como uma visita apostólica, foi descrito a Crux como “superficial”, na melhor das hipóteses. Durante a visita, o bispo

  • conversou com cada um dos membros da união uma vez,
  • gastando segundo consta “30, 40 minutos no máximo” com cada um deles.

O relatório, enviado ao Vaticano, nunca foi publicado. No entanto, as fontes disseram a Crux que ele continha várias recomendações. Segundo consta,

  • uma delas era uma sugestão para Ezzati não desmembrar a união,
  • de modo que, se ainda surgissem mais acusações das vítimas de Karadima,
  • elas processariam a união e não a diocese.

“Era uma tentativa de proteger a Igreja como instituição, em vez de ficar ao lado das vítimas”, disse na quinta-feira a Crux um dos padres que recebeu orientação espiritual de Karadima. “No fundo, os bispos viam as vítimas como inimigas da Igreja e trataram-nas como tais”.

No entanto, Ezzati decidiu desmantelar a união antes que o relatório de Colazzi aparecesse. Testemunhas afirmam que ele não fez isso de muito bom grado.

“A arquidiocese não teve a capacidade de acolher as vítimas”, disse a Crux na segunda-feira um segundo padre que era ex-membro da sociedade.

  • “Conheço duas das vítimas muito bem. São pessoas muito boas.
  • Se tivessem encontrado o apoio de que precisavam da parte da Igreja depois que a sentença se tornou pública,
  • poderíamos ter trabalhado com eles lado a lado contra o abuso clerical durante os últimos oito anos”.

O segundo padre disse que a hierarquia escolheu “defender a empresa, e não o seu povo”.

O leigo Alejandro Álvarez, advogado e porta-voz de Catholic Voices Chile, disse a Crux que a Igreja Católica no seu país

  • precisa de uma “mudança de paradigma”,
  • para garantir que a pessoa e “não a corporação” estejam sempre no centro de tudo,
  • especialmente quando se trata de sobreviventes de abuso sexual clerical.

Álvarez disse que, se uma mudança de paradigma acontecer, “haverá muitas mudanças, [inclusive] renúncias”.

Os esforços de Crux para falar com Colazzi, via e-mail e por telefone, ficaram sem resposta.

 

Quem é Karadima afinal, e o que tem a ideologia a ver com a crise?

Considerado culpado pelo Vaticano em 2011 e condenado a uma vida de “penitência e  oração”, Karadima

  • nunca foi sentenciado pelos tribunais chilenos
  • devido ao estatuto de prescrição do país.

Até hoje, não se sabe quantas pessoas foram abusadas sexualmente por Karadima. Presumivelmente,

  • o número de pessoas que foram abusadas psicologicamente,
  • ou vítimas do seu abuso de poder,
  • ou que tiveram as suas consciências manipuladas pelo padre,

é ainda maior.

Entre aqueles que sofreram abuso de poder de Karadima está o padre Samuel Fernández, que falou com Crux por telefone na sexta-feira. Ele reconheceu que quando as acusações de abuso sexual surgiram pela primeira vez, ele teve dúvidas,

  • “não porque Karadima fosse um santo”,
  • mas porque o abusador tinha sido seu diretor espiritual por muitos anos,
  • e estando imerso “na atmosfera, era muito difícil reconhecer os abusos”.

Especialistas em abuso, disse ele, mostram que

  • as pessoas que estão mais próximas da situação podem às vezes ter dificuldades em aceitar as acusações quando elas aparecem pela primeira vez.
  • No entanto, no momento em que a sentença do Vaticano chegou, Fernández estava pessoalmente convencido de que o seu diretor espiritual era culpado de abuso sexual,
  • uma conclusão a que chegou depois de ver não apenas a gravidade dos casos, mas a verdade nas acusações.

“Hoje, eu não entendo por que demorei tanto para [acreditar que Karadima era culpado]”, disse ele. “Quando alguém me pergunta, eu digo a verdade: não entendo a mim mesmo”.

 

Karadima era um homem extremamente poderoso. A paróquia que ele dirigia

  • estava sempre cheia de gente,
  • com missas noturnas às oito em ponto,
  • que eram assistidas apenas em pé.

Havia dezenas de vocações sacerdotais surgidas daí, e os bispos de Santiago costumavam ir a El Bosque para serem vistos junto com ele.

 

“Tudo indicava que o que acontecia lá era bom”, disse uma fonte a Crux na segunda-feira. “Era você chegar a El Bosque e começaria um processo lento de truques espirituais. Ele eventualmente colocaria você sob a sua magia através da direção espiritual, usando [fora de contexto] citações do magistério da Igreja e de muitos santos em questões como

  • obediência,
  • humildade
  • e o pecado do orgulho”.

Essa descrição vem de um terceiro padre que antes pertenceu à união sacerdotal de Karadima.

  • “Alguns viveram o ‘caminho da santidade’ de Karadima com alegria,
  • ao passo que outros tiveram uma rebelião interior muito forte,
  • mas nós aceitávamos o que estava acontecendo pensando que era a vontade de Deus”,

disse o padre.

Neste ponto,

  • é virtualmente impossível saber quem disse o quê ao papa acerca de Karadima e dos bispos seus aliados,
  • a menos que Francisco decida ele próprio falar.

Um padre que recebeu orientação espiritual de Karadima por quatro anos e que foi um dos primeiros a acreditar nas acusações contra ele em 2010, disse que parte da culpa pela desinformação do papa deve-se ao fato de que Karadima continua a ser uma “figura muito polêmica” na Igreja de Santiago.

“Por mais difícil que seja de acreditar, há muitos que o odeiam

  • mais por razões ideológicas
  • do que pelos crimes que cometeu”, disse ele.

Essas razões ideológicas estão enraizadas no fato de que

  • Karadima era um padre de direita,
  • e o ministério que ele exercia a partir da próspera paróquia de El Bosque e
  • era percebido por muitos como uma resposta conservadora às mudanças postas em andamento pelo Concílio Vaticano II na década de 1960.

Não para defender o papa, mas para tentar explicar de onde veio isso, a fonte disse que

  • é plausível que a informação “com carga ideológica”
  • tenha sido o que levou Francisco a dizer em 2015 que aqueles que estavam protestando na Diocese de Osorno contra Barros
  • estavam sendo “levados pelo nariz pelos esquerdistas”.

Hoje,

  • há vários bispos na igreja do Chile que foram auxiliares de Santiago durante o apogeu de Karadima.
  • Há também muitos padres que foram moldados por Karadima,
  • e um número ainda maior deles que foram para o seminário em Santiago
  • quando, por quase uma década, ele foi dirigido por um dos aliados mais próximos de Karadima.

Há também um testemunho sob juramento de que na década de 1980,

  • dois reitores do seminário foram até ao arcebispo de Santiago
  • e falaram sobre o abuso de poder de Karadima.

Um deles, de acordo com depoimento publicado em 2015 pelo jornal chileno The Clinic, enviou um relatório por escrito detalhando as acusações. Segundo o terceiro padre que conversou com Crux, que se descreveu ele mesmo como vítima de manipulação emocional e psicológica por parte de Karadima, mas não como uma vítima de abuso sexual

  •  o impacto que o abusador tinha sobre aqueles que ele orientava
  • variava, dependendo da  situação emocional deles
  • e do apoio que recebiam fora da paróquia, seja da família, seja de amigos, de outros padres ou mesmo de psicólogos.

“Quanto mais fracos eles eram, maior era o dano que ele lhes causava, por mais óbvio que isso seja”, disse o sacerdote.

 

 Karadima é apenas a ponta do iceberg?

Como foi o pedido de Francisco a Scicluna para que investigasse mais profundamente o caso Barros, que levou o pontífice a enviar uma carta aos bispos chilenos, é natural que o foco seja quase exclusivamente

  • em Karadima
  • e nos bispos que ele orientou.

No entanto, dizem os observadores, isso também é enganoso.

“Se posso dar-lhe um pequeno conselho, a questão de El Bosque é realmente importante e, do ponto de vista da mídia, icônica”, disse Fernandez, em reflexões que foram compartilhadas por todas as fontes consultadas por Crux, uma das quais chamou Karadima repetidamente “um monstro”.

“Sem tirar um átomo de importância dele”, continuou Fernández, “esse caso não é o único, nem mesmo o mais grave”.

“Os autores das denúncias do caso Karadima tornaram-se realmente vozes de muitas pessoas”, disse Fernández.

O alcance e a profundidade da crise, argumentou ele, devem ser levados em consideração, e nesta questão,

  • a renúncia de Barros é quase um acessório.
  • Os quatro bispos formados por Karadima poderiam renunciar amanhã,
  • assim como os cinco bispos chilenos com mais de 75 anos.

No entanto, considerando que

  • Scicluna falou com 64 pessoas
  • e apresentou um relatório com 2.300 páginas,
  • e que Francisco chamou a Roma os 32 bispos em atividade, e não apenas Barros e Ezzati,
  • “a questão é evidentemente muito mais profunda”,

arriscou Fernandez.

“Para mim, seria a melhor notícia jamais dada se tudo estivesse concentrado em um caso, mas infelizmente não é assim”, disse ele, acrescentando que o abuso sexual clerical vem de ambos os lados, dos progressistas e dos conservadores, de modo que não é “também uma questão ideologicamente marcada”.

Outro dos padres orientados por Karadima que falou com Crux concorda:

  • O alcance da crise vai além de El Bosque.
  • No meio da hierarquia, disse ele, há alguns que querem que a atenção continue sendo sobre Karadima
  • para que outros casos continuem despercebidos.

 

No entanto, em janeiro de 2018, havia um total de 80 padres que, tendo trabalhado no Chile – alguns missionários estrangeiros, muitos locais – foram acusados ​​de má conduta sexual nos últimos 15 anos.

Segundo La Tercera, uma das principais agências de notícias do Chile,

  • 45 foram condenadas seja por tribunais civis seja pelos eclesiásticos,
  • 34 deles por abusarem de menores.

Portanto, Barros,

  • Barros, Karadima et alii são uma questão “importante” para os encontros de maio, afirmou Fernández,
  • mas por muito tempo o clero local de toda a América Latina
  • tem-se “acostumado a não dar explicações a ninguém, e é aqui que entra a responsabilidade”.

“Há uma sensação de impunidade, e esta é uma questão muito sério”,

  • porque está relacionada com a forma como a Igreja Católica é concebida, disse ele.
  • Precisamos reconhecer os erros que cometemos,
  • e, se forem necessárias sanções,
  • elas devem ser impostas”.

Muitos leigos concordam.

Um leigo que trabalha de perto com os bispos, e que conversou com Crux na quinta-feira disse que

  • a crise de abusos sexuais do clero na Igreja chilena
  • é comparável à dos Estados Unidos e à da Irlanda.
  • “Não apenas porque os padres abusadores eram transferidos de uma paróquia para outra,
  • mas porque havia um mecanismo criado para encobri-los”, disse a fonte.

“São necessários avanços para que a Igreja reconheça que essa cultura de proteção da instituição é autodestrutiva”.

Vatican expert to meet delegation in Chile bishop dispute

Francisco convoca os bispos chilenos a Roma – Foto Crux

Precedentes do que acontecerá em Roma

Embora Francisco se tenha encontrado com sobreviventes de abuso sexual antes, inclusive no Chile,

  • o encontro desta semana é único
  • no sentido de que é a primeira vez que um papa vai encontrar-se com um grupo de vítimas que ele tinha acusado de “calúnia”.

Ele já reconheceu o seu erro, e provavelmente pedirá desculpas novamente não apenas pelos erros cometidos pela Igreja, mas também por ele mesmo. Na quarta-feira de manhã, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, divulgou um comunicado dizendo que o papa agradece às três vítimas por terem aceitado o seu convite.

“Durante estes dias de encontro pessoal e fraterno, ele quer

  • se desculpar,
  • compartilhar a sua dor e vergonha pelo que eles sofreram
  • e, acima de tudo, ouvir todas as sugestões que eles podem fazer
  • para evitar a repetição desses atos repreensíveis”, disse Burke.

O leigo americano também disse que o papa pede orações pela Igreja no Chile, esperando

  • que estes encontros possam ocorrer num “clima de serena confiança”,
  • e que eles se tornem um “passo crucial para remediar e evitar para sempre abusos de consciência, de poder e, particularmente, os de natureza sexual” na Igreja.

 

No que se refere ao fato de os bispos de um país inteiro serem chamados a Roma, sem ser para a sua visita ad limina a cada cinco anos, isso é raro, mas não sem precedentes.

Em abril de 2002, doze cardeais americanos, e o presidente e vice-presidente da conferência dos bispos, reuniram-se em Roma para lançar as bases da assembleia dos bispos dos EUA, que ocorreu no final daquele ano em Dallas, durante a qual foram elaboradas as políticas sobre como lidar com acusações contra padres por abuso sexual de menores.

O papa João Paulo II estava presente naquela reunião em Roma, mas foi o cardeal Joseph Ratzinger, mais tarde Papa Bento XVI, que

  • teria ajudado a salvar a política de “tolerância zero”
  • adotada pelos bispos em Dallas
  • e que encontrou resistência em três dos quatro dicastérios do Vaticano envolvidos.

 

Em 2010, Bento XVI convocaria a Roma todos os bispos da Irlanda para discutir os relatórios Ryan e Murphy sobre o generalizado abuso infantil por clérigos.

O primeiro relatório causou ampla controvérsia sobre suas descobertas de que

  • o abuso sexual e psicológico era “endêmico”
  • em escolas industriais administradas por católicos
  • e orfanatos da Irlanda durante a maior parte do século XX.

 

O segundo foi o resultado de uma investigação instaurada em 2006 para ver como as autoridades da Igreja e do Estado tinha lidado com as acusações de abuso infantil contra 46 padres durante o período de 1975 a 2004.

Publicado em 2009, ele mostrou que

  • a Igreja colocou a sua própria reputação
  • acima da proteção das crianças sob seus cuidados
  • e que as autoridades do Estado facilitaram o encobrimento
  • ao permitir que a Igreja operasse fora da lei.

Depois dessa reunião, o papa alemão

  • publicou uma carta pastoral histórica
  • na qual pediu desculpas às vítimas de abusos sexuais do clero contra crianças,
  • pelos “graves erros” cometidos pelas autoridades da Igreja Irlandesa.

Ele também anunciou uma investigação formal do Vaticano nas dioceses irlandesas, nos seminários e nas ordens religiosas afetadas pelo escândalo.

O arcebispo Eamon Martin, de Armagh, que era o secretário da conferência dos bispos irlandeses na época, ofereceu um pequeno conselho para a próxima reunião, não dirigido aos bispos chilenos mas ao Vaticano e, em última análise, ao papa: “Escutem”.

  • Reconhecendo que “não conhece realmente muito dos detalhes” do caso chileno,
  • ele disse a Crux que o encontro com Bento XVI
  • foi um “momento muito importante para a Santa Sé, ouvir das pessoas in loco a realidade das lutas com esta questão”.

Na época, disse ele,

  • “às vezes era apresentado na mídia que o papa Bento estava chamando os bispos irlandeses para uma espécie de reprimenda”,
  • e, segundo Martin, dar a mesma interpretação ao encontro entre Francisco e os bispos chilenos “seria igualmente equivocado”.

“É muito importante que

  • a Igreja em Roma escute,
  • escute os tipos de preocupações,
  • a forma como essa questão traumatiza vítimas e sobreviventes,
  • traumatiza as suas famílias,
  • as paróquias”,

disse ele a Crux em 17 de abril.

Martin disse que o abuso sexual tem um “impacto horrendo”, destruindo tudo o que toca por gerações, por isso ele acredita que é muito importante que o papa e as congregações do Vaticano ouçam

  • o que é “para uma Igreja em um lugar como o Chile ou a Irlanda”,
  • “lutar com essa realidade horrenda no seu próprio meio.
  • Uma realidade que despedaçou tudo.
  • Que traiu a confiança sobre a qual a Igreja assenta”,

disse ele.

“Erros e coisas terríveis aconteceram em todos os níveis na Igreja, e é muito importante que isso seja ouvido no centro da Igreja”, disse Martin.

 

Resultado de imagem para Ines San Martín

Ines San Martín (com Francisco)

Fonte:  https://cruxnow.com/global-church/2018/04/25/on-chile-abuse-crisis-who-led-pope-francis-to-make-serious-errors/

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>