Qual é a única coisa que une os brasileiros e que o poder prefere esconder?

 

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Juan Arías – 25 Abril 2018
Foto: Antonio Cruz /Ag. Brasil
 Até os mais pobres estão mais preocupados com a corrupção dos poderosos do que com a própria economia, algo que só seria concebível em países com velhas raízes democráticas.

O comentário é de Juan Arias, jornalista, publicado por El País, 24-04-2018.

 

 

Será verdade que, como injustamente se divulga no exterior, os brasileiros estão divididos em tudo? Que nada é capaz de unir os cidadãos de um lado e do outro do arco político? Há dois brasis irreconciliáveis em tudo? A julgar pelos resultados da última pesquisa nacional do Datafolha, a resposta é não.

De acordo com essa pesquisa, quem aposta em um Brasil dividido em tudo deve se sentir frustrado. Existe um tema que vem incendiando a opinião pública nos últimos anos e que se intensificou com a condenação e prisão de Lula:

  • o apoio à Lava Jato, cuja continuidade é defendida por 84% dos brasileiros.
  • Apenas insignificantes 12% acham que deve terminar.

O Brasil todo parece unido na luta contra a corrupção e contra as tentativas de “estancar a sangria”, sonho de tantos políticos e poderosos e até mesmo de boa parte do Supremo Tribunal Federal.

  • Entre esses 84% que querem que a Lava Jato continue estão, por exemplo,
  • 77% dos eleitores de Lula, algo que o PT, que acusa a Justiça de ser seletiva com seu partido, deveria explicar, se de fato a grande maioria de seus eleitores também defende essa cruzada contra a corrupção.

Outro dado importante de uma pesquisa anterior do Datafolha confirma que os brasileiros concordam, quase unanimemente, que a Lava Jato deve seguir seu caminho:

em 22 anos, é a primeira vez que a corrupção é a maior preocupação do país.

  • Não é a violência? Não. A corrupção já preocupava quatro vezes mais em 2015.
  • E a educação? Também não. Preocupa quatro vezes menos que a corrupção.
  • Não seria economia, ou o desemprego, a maior preocupação dos brasileiros? Não, a corrupção preocupa cinco vezes mais.
  • E a saúde, a angústia das filas nos hospitais? Nem isso. A corrupção interessa duas vezes mais que a saúde.

 

Imagem relacionadaFoto: Exame
  • Será que os pré-candidatos à presidência tomaram consciência de que a sociedade como um todo, pobres e ricos, continua a favor da luta contra a corrupção?
  • E os governadores, senadores e deputados que pretendem ser reeleitos?
  • Terão percebido os excelentíssimos magistrados do Supremo que a única coisa que parece unir os brasileiros é a luta contra a corrupção, e quase 60% defendem a prisão após condenação em segunda instância sem esperar pelos recursos a instâncias superiores? E que a grande maioria é contra o foro privilegiado?

Sabemos que

  • mais de um magistrado disse não entender o que significa a voz das ruas
  • e que lhes interessa mais a letra da lei que no seu espírito, que é o que deve ser levado em conta quando se trata de julgar indivíduos de carne e osso.

Não é segredo que, no Brasil, antes da Lava Jato,

  • a Justiça procurava ser humana e respeitosa com os condenados importantes, para quem a presunção de inocência deveria ser sagrada.
  • O condenado sem nome tornava-se, por outro lado, um número frio e sem alma.

 

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Um povo que foi capaz de metabolizar sem dramas nem tumultos a prisão de Lula e dos grandes industriais do país acusados de corrupção

  • talvez seja mais solidamente democrático e socialmente mais saudável
  • do que uma minoria exaltada se esforça para negar.

Se for esse o caso, é uma injustiça grave apresentar, no exterior,

  • um Brasil à beira de um descarrilamento democrático,
  • um golpe militar
  • ou uma guerra civil,

como vi escrito em jornais sérios. É injusto porque é falso.

O que o mundo deve saber é que, no Brasil, até os mais pobres estão mais preocupados com a corrupção dos poderosos do que com a própria economia, algo que só seria concebível em países com velhas raízes democráticas.

Às vezes, chego a pensar que este país pode até dar uma reviravolta na teoria de Murphy, segundo a qual “se algo pode dar errado, dará”. Talvez seja capaz de interpretar essa lei pessimista mudando-a para o lado positivo: “se algo pode dar certo, dará”. E se nas próximas eleições, apesar de todo o pessimismo, acabar, por exemplo, acontecendo o melhor?

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