Em Sabetta, na Sibéria, o primeiro complexo de liquefação de gás do Ártico russo: “Revolucionará o mercado”

MATTIA BERNARDO BAGNOLI – De SABETTA (SIBERIA)

Foto: A partir da esquerda, o ministro da Energia russo Alexander Novak, o CEO da Novatek Leonid Mikhelson, o presidente russo Vladimir Putin, em visita ao complexo de gás liquefeito Yamal LNG no porto de Sabetta, além do Círculo Polar Ártico. 8 de dezembro de 2017/AP

 

 

O sorriso de Vladimir Putin, entre divertido e satisfeito, diz tudo. Ela acabou de passar a mão sobre uma espécie de scanner-laser e no teto, na verdade uma grande cúpula, é projetado um vídeo impactante, imersivo:

“O comandante em chefe deu a ordem, vamos prosseguir”.

É uma brincadeira, entre Star Trek e Missão Impossível. Mas por outro lado, estamos além do Círculo Polar Ártico, em Sabetta, na Sibéria (em dezembro), lá fora é uma escuridão total (às 4 da tarde), a temperatura está quase a 30 graus abaixo de zero e onde, até seis anos atrás, não havia nada, a não ser uma aldeia com quatro casas, hoje vivem 20 mil almas, num emaranhado surreal de tubos, dormitórios, navios-cisterna.

É Yamal LNGa, a usina ciclópica de liquefação de gás da Novatek, a primeira construída no Ártico russo – uma loucura de bilhões de dólares destinada a revolucionar o mercado do metano. E provavelmente não só esse.

Putin sabe disso. Não é por acaso que a cerimônia de inauguração é uma daquelas em grande estilo:

  • há diplomatas,
  • investidores,
  • metade do governo.
  • O aeroporto está cheio de jatos particulares.

A primeira unidade de Yamal – de três no total – poderá produzir 5,5 milhões de toneladas de gás por ano; em pleno funcionamento, até 2021, a produção subirá para 16,5 milhões. Leonid Mikhelson, o número da Novatek (que é uma empresa privada, detalhe nada insignificante na Rússia), não se preocupou com os gastos:

  • aviões inteiros da Aeroflot alugados em regime  de ‘business class’ foram postos à disposição dos convidados ilustres,
  • jaquetas da Bask Company, a equivalente russa da Canadian, foram distribuídos à vontade (modelo Yamal, como a península onde, precisamente, a Novatek construiu sua jóia)
  • e, coelho da cartola, um espaço para eventos em forma de iglu voltado para o porto.

Também construído a partir do nada, obviamente. É o gás beleza. Tanto gás. Tudo bem.

Pergunta. Como se faz, estando no pólo norte, para entregá-lo por todo o mundo, mesmo que esteja liquefeito?

Simples: pega-se um navio-cisterna, combina-se  com um navio quebra-gelo, e o resultado é Christophe de Margerie, (o primeiro navio de seu gênero – classe ARC7 –  capaz de quebrar camadas de gelo com espessura superior a 2 metros e  de transportar 172.600 metros cúbicos de gás.

 

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Navio cisterna e Quebra-gelo Christophe de Margerie – Foto: Renascença

 

O navio-cisterna-quebra-gelo é francês

Putin, veio de propósito ao topo do mundo, para dar a saída ao primeiro carregamento ‘made’ em Yamal. Um acontecimento histórico à sua maneira,

  • após a provação dada pelo Kremlin em 2010,
  • entre muitas dúvidas de viabilidade e de ciúmes rasteiros dos líderes dos clãs da elite, em luta constante entre eles para obter os favores do czar.

Que, deve ser dito, não tem pelos na língua quando se trata de castigar os boiardos.

“Disseram-me que este projeto não seria possível… e isso foi dito por algumas pessoas que estão aqui conosco hoje… mas eis-nos aqui”. 

  • Putin fala,
  • Mikhelson brilha.
  • Alexei Miller, chefe da Gazprom, e Igor Sechin, chefe da Rosneft, estão na primeira fila. Ouvem em silêncio.

Não há certeza de que estocada seja para eles mas, vistas as reações, poderiam ser

  • Sechin mastiga fel,
  • Miller parece prestes a vomitar.
  • Enquanto isso, Mikhelson goza o seu momento.

É preciso que fique claro.

  • Em Sabetta não está sendo inaugurada apenas uma usina, ainda que gigantesca,
  • mas dá-se início uma parte importante da geopolítica energética russa:
  • entre os visitantes, está o ministro da Energia da Arábia saudita, Khalid al-Falih (guardem isto na memória, dentro em breve será útil) .

A própria composição societária da Yamal LNG é além disso uma eloquente ressonância magnética das alianças estratégicas tecidas por Moscou.

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O Caminho do Nordeste  Imagem: El Periodico de Aragon

 

De fato,

  • se a Novatek detém 50,1%,
  • a francesa Total tem um consistente 20%
  • e os chineses da China National Petroleum Coorporation e da China Silk Road Fund 20% e 9%, respectivamente.
  • Portanto, não é coincidência que o primeiro navio-cisterna-quebra- gelo do mundo tenha recebido o nome do ex-administrador delegado da Total, que morreu em Moscou em 2014 num acidente aéreo e que era um grande entusiasta da ‘dorsal energética’ do Ártico. “Yamal LNG – comenta Ekaterina Klimenko, do Instituto Internacional da Paz em Estocolmo –é um dos poucos projetos de cooperação que conseguiu sobreviver às sanções”.

Com um toque tricolor [italiano, ndt], visto que  que o Intesa Sanpaolob contribuiu com uma linha de crédito de 800 milhões de euros.

Mas, se Yamal sobreviveu, observa Klimenko, foi graças à China, que investiu garantindo novos recursos, que estavam congelados devido às restrições ao sistema financeiro. Uma jogada de longo alcance, confirmando o abraço cada vez mais apertado entre Pequim e Moscou, que certamente se estreitará devido a mais uma crise nervosa entre a Rússia e o Ocidente provocada pelo caso Skripal.

Isso porque a usina Yamal

  • não apenas garante um lugar ao sol no florescente mercado de gás liquefeito (dominado pelo Catar e, em perspectiva, pelos EUA com o gás de xisto),
  • mas serve também como um aríete para fazer decolar finalmente a rota do Ártico e transformar a “passagem nordeste” num verdadeiro corredor internacional.

A Novatek, graças aos seus navios-cisterna-quebra-gelo, usará a rota do Ártico 365 dias por ano para levar o gás a seus próprios clientes (principalmente China, Japão e Coréia do Sul ou Índia, onde chegou há pouco a primeira carga). Mas em breve não será a única. A passagem nordeste – que ficou mais fácil de atravessar graças ao derretimento do gelo – reduz quase à metade os tempos de entrega entre a Europa e o Sudeste Asiático: uma economia enorme para empresas de navegação como a Coscoc e a Maersk.

Pequim farejou o negócio e em janeiro passado publicou o seu primeiro “livro branco” sobre o Ártico, lançando efetivamente a ideia de um “ramo polar” da sua Nova Rota da Seda. Fantasias? De maneira alguma.

O ano de 2016 foi aquele em que  a quantidade de mercadorias transportadas pela passagem nordeste bateu o recorde de 7,5 milhões de toneladas registrado na época da União Soviética e, segundo a Agência Federal Russa de Transportes marítimos e fluviais, poderá crescer até seis vezes nos próximos três anos, até alcançar 70 milhões de toneladas em 2035.

“A rota do Ártico – declarou Putin em Sabetta – poderá trazer mercadorias de todo o mundo e garantirá o futuro da Rússia”.

Tanto é verdade que o czar está pensando em reservar os direitos de trânsito comercial de gás e petróleo exclusivamente para os navios de bandeira russa, garantindo assim o monopólio do tráfico.

Se o amor pela fronteira pela fronteira norte vem de longe, hoje Moscou parece ter redescoberto o espírito de conquista e de aventura dos tempos soviéticos, mas reforçado por uma visão mais orgânica, não limitada às bases militares – que estão sendo reestruturadas ou mesmo construídas do zero – ou às estações de  pesquisa científica.

 

Por isso o primeiro-ministro Dmitri Medvedev confirmou que o Estado pretende gastar 2,7 bilhões de dólares de agora até 2025 para fortalecer as infra-estruturas árticas e a Rosatom, o colosso russo líder do setor de  energia atômica civil, desenvolveu até um projeto de «mini-reatores nucleares», alguns dos quais «flutuantes ou subaquáticos», concebidos especificamente para fornecer energia às instalações do Árctico «dentro do respeito com o ambiente». E aqui há um pouco de ficção científica, sem dúvida.

Então, a Yamal LNG é apenas o começo. Quando estiver totalmente operacional, calcula-se que os navios quebra-gelo metaneiros – já foram encomendadas 15 unidades – farão 200 viagens por ano transformando a rota do Ártico numa autoestrada. Mas não é só isso. A Novatek pretende relançar e abrir um segundo centro de extração (Arctic GNL) com produção de 18 milhões de toneladas de gás por ano, talvez até 2023.

É uma estratégia bem adequada aos desafios do quarto mandato de Putin:

  • tornar a economia mais competitiva,
  • mesmo no contexto de um possível confronto perpétuo com o Ocidente,
  • do qual a modernização do país (até hoje) dependeu.

Mas agora que Putin  ganhou de lavada as eleições, o “grande jogo” pode recomeçar. As primeiras jogadas já foram feitas:

  • a Rússia convidou a Arábia Saudita a participar do GNL Ártico
  • e a gigante do petróleo de Riad, a Saudi Aramco, respondeu assinando um memorando com a Novatek.

A presença de al-Falih na cerimônia de 8 de dezembro passado trouxe portanto os seus dividendos: «O Artic GNL – disse al-Falih – fará parte da estratégia energética da Saudi Aramco».

Do permafrost ao deserto escaldante, a connectography d que desenha um mundo novo: onde os últimos serão os mais últimos.

 

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MATTIA BERNARDO BAGNOLI

http://www.origamisettimanale.it/2018/04/11/speciali/origami/in-viaggio-con-putin-nella-citt-dei-titani-del-gas-tra-igloo-e-orsi-polari-5lOgumkAugVI13StaUoYDN/pagina.html

 

NOTAS:

 

a LNG – liquified natural gas (gás natural liquefeito).

b Intesa SanPaolo – um dos maiores bancos da Itália e da Europa.

COSCO – China Ocean Shipping Company.

Connectography [conectividade e geografia] – neologismo introduzido por Parag Khanna, um indo-americano especialista  em relações internacionais.

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