“Só contamos com a solidariedade dos povos, não dos governos”

Os Capacetes Brancos em Fafe

António Marujo – 

Foto: Os Capacetes Brancos em Fafe /  Manuel Meira

Os Capacetes Brancos salvam pessoas dos escombros nos bombardeamentos na guerra na Síria.

Com cerca de quatro mil membros, de todas as religiões, tornaram-se um símbolo de resistência da sociedade civil neste conflito. Dois deles estão em Portugal.

Os CB já só esperam, agora, a solidariedade dos povos, já que os governos dos países mais poderosos ficam-se pelas condenações verbais. Com cerca de quatro mil membros, dos quais cerca de 400 mulheres, reunindo muçulmanos, cristãos “e até ateus”, os CB já pagaram também um preço alto da sua missão: 237 foram mortos quando socorriam outras pessoas.

Porque registam o que fazem?

A.Y. – Quando filmamos, não é para fazer propaganda. A razão mais importante é documentar o que acontece no terreno, documentar os crimes. A comunidade internacional não se vai mexer por ver uns vídeos de pessoas a morrer. Mas a nossa missão é dar voz a quem não tem voz, as vítimas também têm direitos.

O regime e a Rússia dizem que o ataque químico em Douma foi uma mentira. Qual é a vossa convicção?

N.I. – O regime diz que não usou armas químicas. Não só estamos convencidos do contrário, como documentámos o ataque. Não temos um laboratório para saber que agente químico foi usado, mas filmámos pessoas a salivar e outras cuja pele ficou azul. No início, o regime disse que não tinha armas químicas, mas depois assinou um acordo para as entregar. Como é que se disse que não se tem e depois se diz que entregam as armas?

A Rússia e o regime acusam-nos de estarem ligados a grupos terroristas. Como conseguem trabalhar mantendo a neutralidade?

N.I. – A única garantia para não sermos atacados por nenhum dos grupos que combatem é a nossa neutralidade. Caso contrário, seríamos o primeiro alvo dos ataques.

Sete anos depois do início da guerra, como se sai daqui?

N.I. – É muito difícil responder. Teremos de chamar à justiça os criminosos, que mandaram aviões para bombardear as pessoas, que permitiram que muita gente que estava nas prisões saísse para formar grupos da Al-Qaeda, do Daesh, etc. São os que ajudaram os mesmos grupos no Iraque.

E são estes grupos a base do mal. Antes de 2011, havia um Estado. Depois de 2011 e da revolução,

  • instalou-se um caos generalizado,
  • formaram-se grupos armados para espalhar o pânico,
  • abriram-se as fronteiras para deixar entrar toda a gente…

O regime é que permitiu o que está a acontecer.

The ‘White Helmets’ Controversy

Estranhas relações dos Capacetes Brancos com a Al Kaeda e o Daesh. Foto: strategic-culture.org

Os Capacetes Brancos têm pedido a intervenção da ONU, mas as Nações Unidas são o que os EUA, a Rússia e a União Europeia permitirem. O que se pode fazer?

N.I. – O povo sírio já perdeu a fé e a esperança na comunidade internacional. Agora, só contamos com a solidariedade dos povos, não dos governos. Todos os dias ouvimos condenações, mas o que acontece a seguir? Que passos concretos se dão? Nenhuns… Na ONU houve 12 vetos, seis deles só por causa do uso de armas químicas. Houve uma resolução para um cessar-fogo em Goutha, e o que aconteceu? Houve um deslocamento forçado das pessoas que, a seguir, foram bombardeadas com armas químicas…

Têm esperança numa Síria em paz, onde seja possível a convivência de diferentes culturas e religiões? É possível, numa Síria sem Assad, que a liberdade religiosa subsista?

N.I. – Se não fosse essa esperança, já tínhamos morrido. Uma das estratégias que temos é de espalhar a mensagem de que todos têm lugar. A convivência que existia na Síria não existia em muitos lugares do mundo. Há muitos lugares onde vivem cristãos, católicos ou outros, muçulmanos xiitas e outros. E nós CB também temos essa mistura, até temos ateus.

No início, pensávamos no que iria acontecer depois de Assad, se seria possível arranjar alternativa para ele sem acontecerem coisas piores. Mas Assad continua lá e o pior está a acontecer, não pode haver pior do que isto: um país destruído e cortado aos bocados…

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António Marujo

Fonte:https://www.publico.pt/2018/04/18/mundo/entrevista/ja-so-contamos-com-a-solidariedade-dos-povos-nao-dos-

 

 

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NOTA DA REDAÇÃO:

Apesar da dificuldade de interpretar o que se passa na Síria desde 2011, ficam bastantes dúvidas sobre a auto-apregoada neutralidade dos Capacetes Brancos. São claramente anti-Assad e anti-Rússia que ajuda Assad a se manter no poder.

Tanto são admirados pelo seu trabalho de resgate de pessoas, como são criticados pelo fato de filmarem tudo e de serem pagos pela Cia e/ou ligados à Al Kaeda, Daesh e outros grupos anti-Assad.

Na Síria joga-se, há anos, o destino do Médio Oriente, num pesado jogo geopolítico onde o que importa não é cada país e seu Povo, mas os grandes interesses mundiais do Petróleo da Ásia Central e Sudoeste que ficaria bem mais barato e acessivel se pudesse chegar, através do Iraque e da Síria, diretamente ao Mediterrâneo. Portanto, uma guerra sem fim pelas fontes fósseis  de energia.

Além, naturalmente, do pesado jogo pela influência russa, europeia e norte-americana na há já tantos conflagrada região. 

João Tavares

 

 

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