O Papa sobre o Chile: “Cometi graves erros de avaliação. Muitas vidas crucificadas pelos abusos”

Andrea Tornielli, 11/04/2018

Carta de Francisco (clique e veja): depois do dossiê do Scicluna, Bergoglio escreve que se encontrará com as vítimas de Karadima.

Errei “por falta de informação verdadeira e equilibrada“. Os bispos convocados ao Vaticano

Foto: O bispo Juan Barros durante uma missa papal no Chile em janeiro passado

 

“No que me diz respeito, reconheço e quero que vós o transmitais fielmente, que incorri em graves erros de avaliação e de percepção da situação, especialmente por falta de informação verdadeira e equilibrada. E, desde já, peço perdão a todos aqueles a quem ofendi e espero poder fazê-lo pessoalmente nas próximas semanas, nos encontros que terei com os representantes das pessoas que testemunharam.

É a passagem crucial da carta do Papa Francisco aos bispos chilenos, por ele convocados para em breve virem a Roma para discutir as conclusões da investigação realizada pelo enviado do papa, o arcebispo Charles Scicluna, encarregado de ouvir as vítimas e de indagar sobre os encobrimentos dos casos de pedofilia.

Um dos casos ‘quentes’ desta história diz respeito ao bispo Juan Barros, colaborador do padre Fernando Karadima: este último, um predador em série de menores, contou por muito com a cobertura de altos membros das hierarquias eclesiásticas.

  • Barros sempre negou ter conhecimento dos atos praticados pelo seu mentor.
  • Francisco sempre acreditou em Barros e, com base nas informações recebidas, sempre o defendeu recusando os seus repetidos pedidos de renúncia.

Durante a recente viagem ao Chile, o Pontífice, numa resposta de improviso a uma rádio, parecia ter minimizado as acusações das vítimas. Mas disse estar disponível para receber novas informações. Uma vez recebidas, Francisco

  • parou de confiar apenas na versão “filtrada” pelos vértices da Igreja chilena
  • e decidiu enviar Scicluna.

Que, com o seu grande trabalho de recolha de 64 testemunhos em Nova York e em Santiago do Chile – 2.300 páginas, entregues no Vaticano em 20 de março passado – forneceu ao Pontífice

  • indícios,
  • evidências,
  • e, acima de tudo, muitas histórias de sofrimento
  • que antes ninguém nos vértices da Igreja chilena tinha querido escutar.

 

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Conferência Episcopal do Chile. Foto: Aciprensa

 

Às 15 horas de Santiago do Chile, 20 horas de Roma, foi dada a conhecer a sua pungente carta ao episcopado chileno. Francisco fala da necessidade de

  • “restaurar a confiança na Igreja, a confiança quebrada pelos nossos erros e pecados,
  • para curar algumas feridas que não param de sangrar” na sociedade chilena.

O papa escreve que enviou Scicluna e o seu colaborador, monsenhor Jordi Bertomeu Farnós, para

“ouvir com o coração e humildade. Mais tarde, quando me entregaram a documentação, e em particular a avaliação jurídica e pastoral deles acerca das informações coletadas, reconheceram perante mim que

  • se sentiram esmagados pela dor de tantas vítimas de graves abusos de consciência e de poder
  • e, em particular, dos abusos sexuais cometidos por várias pessoas consagradas do vosso País contra menores” aos quais “foi roubada a inocência”.

Francisco agradece

  • aos meios de comunicação pelo seu trabalho
  • e também a todos os protagonistas por terem evitado transformar a investigação de Scicluna num “circo midiático”.

E  acrescenta:

Agora, depois de uma leitura meditada dos atos desta ‘missão especial’, creio poder dizer com segurança que todos os testemunhos recolhidos falam de maneira despojada e sem edulcorações de muitas vidas crucificadas e confesso-vos que isso me causa dor e vergonha“.

O Papa não comunicou qualquer decisão específica sobre o caso Barros ou sobre outros casos. Mas escreve aos bispos reunidos em assembleia plenária para

  • “solicitar humildemente a vossa colaboração e assistência
  • no discernimento das medidas que – a curto, médio e longo prazo – deverão ser tomadas
  • para restabelecer a comunhão eclesial no Chile,
  • com o objetivo de reparar, quanto possível, o escândalo e restabelecer a justiça”.

Faz o convite a todos os bispos a virem a Roma para discutir o que fazer. E desde logo o Papa pede à Igreja do Chile que se ponha em oração.

Mesmo na ausência de outras decisões concretas, além da de receber as principais vítimas de Karadima (que também acusam Barros que ter-lhes dado as costas) e de convocar os bispos para virem ao Vaticano, duas coisas são evidentes:

  • a primeira é que os testemunhos recolhidos por Scicluna apresentaram a Francisco uma realidade muito diferente da que ele tinha conhecido através das informações que lhe chegaram do episcopado.
  • A segunda é que nada será como antes na Igreja do Chile.

 

 

Andrea Tornielli

Fonte: http://www.lastampa.it/2018/04/11/vaticaninsider/ita/vaticano/il-papa-sul-cile-ho-commesso-gravi-sbagli-di-valutazione-molte-vite-crocifisse-dagli-abusi-Mn3Flo9KjxVjMn4OHJhlMK/pagina.html

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