Martin Luther King, o que resta do sonho

O líder do movimento afro-americano pelos direitos civis foi assassinado em 4 de abril, 50 anos atrás. Hoje a América celebra a sua memória, mas honrar o seu último legado é tarefa do próximo meio século. 

 

GIANNI RIOTTA – Nova York, 02/04/2018

Tradução: Orlando Almeida

Na foto: Martin Luther King (1929-1968) em 28 de agosto de 1963 na frente do Memorial de Lincoln em Washington, ao final de uma marcha de protesto pelos direitos civis, quando pronunciou o famoso discurso “I have a dream” 

Crédito: AFP

 O reverendo Martin Luther King, “Dr. King” para os seus fiéis, encontrou-se com Malcolm X apenas uma vez, em Washington, durante o debate parlamentar sobre a lei dos direitos civis em 1964. “Olá, Malcolm, fico feliz em ver-te”, disse King. “Igualmente”, respondeu Malcolm X cortesmente, “estou me lançando agora no coração da batalha pelos direitos”.
Os dois líderes foram imediatamente separados pelos repórteres. Logo caíram vítimas de atentados, ambos com 39 anos, Malcolm X em 1965, assassinado por extremistas islâmicos, o reverendo King, meio século atrás, em 4 de abril de 1968, atingido pelo racista foragido James Earl Ray. Em ambos os crimes, os historiadores suspeitam que tenha havido um papel, ou pelo menos cumplicidade e acobertamento do FBI, comandado pelo sinistro J. Edgar Hoover.

King ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1964 pela criação do movimento pacifista afro-americano e recebeu postumamente a Medalha da Liberdade, a mais alta condecoração civil dos EUA; todas os anos, na segunda-feira  da terceira semana de janeiro os Estados Unidos param, é um feriado nacional em sua homenagema.

Malcolm X, pelo menos antes do filme de Spike Lee, de 1992, passa por ser um ultra radical e desesperado, o romântico perdedor da Autobiografia, escrita por Alex Haley (Einaudib).

 

O tempo da desilusão

Cinquenta anos depois, a história recorda o encontro fugaz entre os dois líderes, porque nos últimos meses de vida Malcolm X

  • se afasta do nacionalismo retrógrado da Nation of Islam
  • e, depois de uma peregrinação à Meca,
  • prega uma possível coalizão de brancos e negros.

Paralelamente, o nobre pacifismo do reverendo King, celebrado no discurso “Eu tenho um sonho…” na Marcha sobre Washington em 1963, desfaz-se em desilusão.

Os EUA

  • integram as escolas com a sentença da Suprema Corte Brown vs. Board of Education de 1954 (Linda Brown, a menina que foi o pivô do caso, faleceu em 27 de março passado),
  • abrem – depois de dois séculos de discriminação – o voto às minorias com o Voting Rights Act de 1965
  • e põem fim ao ‘apartheid’ racista que se seguiu à guerra civil, graças ao Civil Rights Act de 1964.

Agora brancos e negros podem usar os mesmos sanitários, restaurantes, hotéis, e nenhum xerife vai impedir um negro de votar, escarnecendo: “Recite para mim a Constituição…”.

Mas King percebe que, após estas concessões, a maioria branca e o presidente democrata Johnson, dizem: basta!

 

A “vingança dos brancos”

A sua campanha pelos direitos

  • deixa o Sul ex-escravagista, das plantações e da pobreza,
  • e volta-se  diretamente para o Norte, para onde os negros emigram desde há muito tempo, em busca de trabalho na indústria.

Lá ele constata com clareza:

“A América dos brancos não está psicologicamente preparada para a igualdade real”, para iguais condições econômicas, de vida, de trabalho e de família.

Como escreve Eddie Glaude, decano de estudos afro-americanos na Universidade de Princeton:

“A brutalidade do Sul e a hipocrisia do País inteiro levam King a compreender que

  • a igualdade racial, entendida como ação humanitária,
  • distorce os princípios da democracia
  • e desfigura caráter e moralidade naqueles que se obstinam em acreditar na mentira”.

 

“I have a dream”. Mas os brancos americanos tentaram matar esse sonho   –   Crédito: AFP

 

É este último

  • o King que por fim toma posição contra a guerra no Vietnã,
  • o King que desafia as empresas e os sindicatos sobre o desemprego.

“Há uma vingança contínua dos brancos”, escreve com amargura em 1966,

  • afundando numa depressão psicológica,
  • que o levará a não conseguir sequer sair da cama,
  • depois de ter visto uma multidão de racistas massacrar adolescentes negros, do lado de fora de um colégio no Mississippi.

Dois anos antes de sua morte, King é rejeitado nas pesquisas por 63% dos brancos, que – observa o escritor negro James Baldwin – veem “os direitos civis como linha de chegada, ao passo que eles são apenas ponto de partida”.

Hoover

  • solta as rédeas do FBI para persegui-lo,
  • envia cartas anônimas à sua esposa, Coretta Scott, com provas da infidelidade do marido,
  • instiga-o: “Mata-te, King, se não queres escândalos”. 

O Ku-Clux-Klan dá início a uma temporada de terrorismo em Forrest County, Mississippi, e em Bogalosa, Louisiana, onde os ativistas Vernon Dahmer e Clarence Triggs são abatidos. O prefeito de Chicago Daley, um democrata, proíbe King de fazer manifestações contra a pobreza na cidade, e o Congresso rejeita o seu projeto de lei integrar o mercado das casas e de alugueis.

Nos últimos meses de vida, Martin Luther King faz o balanço das vitórias e das derrotas, ciente de que uma longa e nova campanha está começando. Ele quer

  • integrar brancos e negros pobres,
  • sacudir o racismo hipócrita dos que toleram os direitos, desde que os negros fiquem longe deles.

King não verá o resultado desta campanha, assassinado em Memphis por uma bala que lhe atinge a coluna vertebral, disparada pelo foragido Ray, que a família King ainda considera inocente,  mera fachada para encobrir o complô do FBI.

 

Verdadeira igualdade

Em 1968,

  • a América assiste à ofensiva no Vietnã em fevereiro;
  • King cai em abril;
  • as cidades ardem em  revolta, 40 mortos e 3.000 feridos, as agitações são as mais sangrentas desde 1863;
  • o senador Robert Kennedy – que em Indianapolis cita Ésquilo em memória de King na noite da morte deste,–  é assassinado em junho;
  • há uma a batalha na Convenção Democrática de Chicago em agosto, 28.000 policiais contra 10.000 militantes, transmitida ao vivo para todo o mundo; o republicano Nixon é eleito em novembro.

Nem mesmo Barack Obama, primeiro afro-americano na Casa, que por dois séculos e meio só foi meio Branca, consegue suturar as feridas.

O presidente Reagan, como tantos conservadores, falava da “justiça cega” de King, mas na época da morte deste – quando era governador da Califórnia – denunciava “aqueles que primeiro infringiram a lei’, acusando nas entrelinhas os negros, um ressentimento surdo ainda presente na eleição de 2016.

A Améria hoje

  • curva-se diante da poça de sangue de Martin Luther King;
  • honrar a sua memória é exercício onipresente nas escolas:

honrar o seu último legado,

  • justiça para todos e todas,
  • a verdadeira igualdade,

não de papel, é a tarefa do próximo meio século.

Free at last“, finalmente livre, o lema que se lê na lápide do túmulo de M. L. King em Atlanta, na Geórgia, ainda é um auspício, não uma meta.

 

Gianni Riotta

http://www.lastampa.it/2018/04/02/cultura/martin-luther-king-quel-che-resta-del-sogno-rYJTca4TvigSo6zlPzJRfN/pagina.html

a O Martin Luther King Day é uma festa nacional dos EUA, celebrada todos os anos na terceira segunda-feira de janeiro.

No Brasil a Autobiografia de Malcolm X foi editada pela Record (esgotada).

 

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