O plutônio perdido no Nanda Devi. Por isso, a montanha sagrada polui o Ganges

As montanhas, como sabemos, guardam segredos e mistérios. A montanha mais alta do território indiano guarda um deles, o mais perigoso de todos.

Há meio século, Nanda Devi, “a deusa que dá a felicidade”, esconde no seu ventre rochoso uma pílula envenenada, que ficou perdida no meio das geleiras devido à estupidez humana. Ou melhor, para ser precisos, devido à estupidez da Agência Central de Inteligência americana.

Esta é a história de 5 quilos de plutônio abandonados a grande altitude no Himalaia, na que talvez seja a mais longa, mais cara, mais numerosa e desastrosa expedição da história. Este grave acontecimento tinha sido varrido para debaixo do tapete, mas agora, graças ao interesse de Scott Rosenfelt, produtor de Hollywood que está coletando 20 milhões de dólares para transformá-lo num filme de ação, corre o risco de despertar o interesse do mundo.

 

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Foto: Wikipedia: Assim se envenena o rio Ganges

Tudo começa em 1964, no auge da Guerra Fria, quando a China surpreende a América ao concluir seu primeiro teste nuclear em Xinjiang. A tecnologia dos satélites ainda não permitia a espionagem espacial, por isso os americanos decidem usar o Himalaia como observatório das planícies chinesas. A CIA é encarregada de montar uma equipe de alpinistas e espiões secundados com um grupo de funcionários do Escritório de Inteligência da Índia.

A operação Montanha Azul, também conhecida como Hat (High Altitude Test), tem um objetivo aparentemente simples: instalar uma antena-espiã de dois metros de altura no cume da montanha sagrada Nanda Devi (7.816 m), alimentando-a com um gerador nuclear . O Snap-19C pesa 17 kg, dos quais 5 são de estrôncio 90 e de plutônio 238 e 239.

São contratados 30 carregadores locais da etnia Bhotia e recrutados 9 ‘sherpas’ do Sikkim,  devido à  sua habilidade em escalar as geleiras. A missão é liderada pelo comandante da Marinha indiana Manmohan Singh Kohli, que mais tarde descreverá a aventura no livro “Spies in the Himalaya” [Espiões no Himalaia].

 

O ‘identikit’ do rio Ganges, o rio da vida: 2.507 km de  extensão, 350 km de largura no delta, área da bacia 1 milhão de km2, 500milhões de indianos vivem na sua bacia. ESTÁ ENTRE OS 10 RIOS MAIS POLUÍDOS DO MUNDO: 700 indústrias lançam resíduos no rio; 200 toneladas de cadáveres semi-cremados lançados no rio só na cidade de Varanasi.   Imagem: la Stampa

 

Já é outubro de 1965, quando começa a expedição que envolve montanhistas famosos, cientistas nucleares, psiquiatras, especialistas em telemetria e oficiais de inteligência. Os carregadores competem para transportar o plutônio nas costas porque os mantém aquecidos. O técnico da CIA põe uma tarja branca na jaqueta deles: “Se mudar de cor, a radiação tornou-se perigosa”.

 

Resultado de imagem para Spies in the HimalayaFoto: Amazon.com
A 7.000 metros, as coisas se complicam. O peso do equipamento excede os limites humanos, o frio está mais intenso do que o esperado.
Missão abortada. Os sherpas e os carregadores guardam o plutônio do Snap-19C numa cavidade da rocha. Voltam para o vale. Será feita uma nova tentativa na primavera.

Em maio de 1966, a expedição refaz o caminho anterior, mas não encontra nem a cavidade nem as cordas, nem a rocha do acampamento. Tudo varrido pelas avalanches.

O plutônio, e a tecnologia secreta da CIA, estão sepultados no gelo. A busca continua durante três anos: no inverno, em Delhi, estudando os mapas, no verão, vasculhando a montanha sagrada. Nada.

Os cientistas americanos estão preocupados:

  • “Se o plutônio atingir o Ganges, milhões de indianos morrerão”.

O rio Rishi Ganga, que vem da montanha divina, é de fato um importante afluente do rio sagrado indiano. Ao longo dos anos, uma vez que o plutônio não é encontrado, os cientistas americanos mudam o discurso:

  • “Causará danos à saúde se quem encontrar o material o fragmentar”.

Em qual versão acreditar?

Em 1974, uma investigação científica indiana alerta o governo de que é preciso continuar a monitorar os níveis de radiação do ar, da água e do solo. A possibilidade de acidentes são mínimas, segundo alguns cientistas que se baseiam em detalhes parciais do documento dessegredado. Hoje, um deles, Mgk Menon, admite: “O perigo é que as perdas radioativas na água se tornem letais porque o plutônio, se entrar no sistema humano, é altamente tóxico”.

Desde 1982, o Santuário do Nanda Devi está fechado para todos, exceto para os militares. Oficialmente, é para proteger, com o patrocínio da UNESCO, as 300 espécies de plantas raras e as 80 espécies de animais raros, como o leopardo das neves, o urso preto e o cervo-almiscarado do Himalaia.

A geleira de Nanda Devi move-se alguns centímetros por ano, e após o forte terremoto no Nepal, teme-se que os abalos sísmicos possam causar o rompimento da carcaça que encerra o plutônio. “Na verdade não há mesmo nenhum monitoramento de possíveis radiações”, escreveu Vinod K. Jose numa investigação sobre o mistério de Nanda Devi.

Agora quem conhece esta história, pode admirar lá no alto do Himalaia, a imponente beleza da ‘Deusa que dá a felicidade’, mas sabe também que Nanda Devi poderá, mais cedo ou mais tarde, gerar a morte, devolvendo o veneno aos humanos que o perderam no meio das suas neves, na desastrada Missão Montanha Azul.

 

Fonte: http://www.lastampa.it/2018/03/28/esteri/il-plutonio-smarrito-sul-nanda-devi-cos-la-montagna-sacra-inquina-il-gange-ZFWsIqYY2Xq8KcE56jZDRM/pagina.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

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