Contra Francisco, contra o Concílio

1. Um dos núcleos da discórdia, a ponto de Francisco ser atacado por ser débil em teologia e até herético, é a sua reflexão sobre a possibilidade de, no quadro do devido discernimento, católicos recasados serem admitidos à comunhão. Mas, afinal, o próprio Bento XVI, quando era apenas professor Joseph Ratzinger, escreveu, em 1972, um texto nessa direcção. Sim, o casamento é indissolúvel, mas, cito, quando

“um primeiro casamento se rompeu há já algum tempo” e de modo irreparável, e quando “um segundo enlace se vem manifestando como uma realidade moral e está presidido pela fé, especialmente no que se refere à educação dos filhos (de tal maneira que a destruição deste segundo casamento acabaria por destroçar uma realidade moral e provocaria danos morais irreparáveis), neste caso – mediante uma via extrajudicial -, contando com o parecer do pároco e dos membros da comunidade, dever-se-ia consentir a aproximação da comunhão aos que assim vivem”.

 

2. Entre os maiores opositores a Francisco está o cardeal guineense (Guiné-Conacri) Robert Sarah, prefeito da Congregação para a Liturgia. O Papa emérito Bento XVI até escreveu um prefácio elogioso para a sua obra A Força do Silêncio – Contra a Ditadura do Barulho. Esse livro, cito,

“ensina-nos o silêncio: o permanecer em silêncio com Jesus, o verdadeiro silêncio interior, ajudando-nos assim precisamente a compreender a palavra do Senhor de um modo diferente (…). É esta a base que lhe permite reconhecer os perigos que ameaçam continuamente a vida espiritual, mesmo a dos padres e a dos bispos, ameaçando assim a própria Igreja, na qual não raro ocupa lugar uma certa verbosidade em que se dissolve a grandeza da palavra”.

Quem se atreveria a pôr em causa e a não louvar o mérito do apelo ao silêncio? Todos estaremos gratos a Sarah, mesmo os não crentes, pois das necessidades maiores nesta sociedade da ditadura do barulho é precisamente o cultivo do silêncio, lá onde se ouve o melhor: o silêncio que fala e no qual se acendem todas as palavras e atitudes que dão calor e sentido verdadeiro à existência.

Não é nisto que está o diferendo. O Papa Francisco

  • admoestou-o publicamente
  • por sugerir o regresso à missa em latim,
  • com o celebrante de costas para o povo.
  • Lembrou-lhe que Deus está voltado para todos os lados.

E a que propósito o latim, como se Deus, digo eu, não entendesse as outras línguas? Mais uma vez, o terrível perigo do clericalismo.

De facto,

  • só os padres sabem latim
  • e só eles, de costas,
  • estariam em autêntico contacto com Deus…

Mais recentemente, Sarah arremeteu contra os católicos que legitimamente apresentam a mão para a comunhão:

“É um ataque diabólico à eucaristia”, diz.

No prefácio ao livro do padre italiano Federico Bortoli, A Distribuição da Comunhão na Mão, afirma que a comunhão na mão é uma “falta de respeito” ao Santíssimo,

acrescentando que

o ataque malvado mais insidioso consiste em procurar extinguir a fé na eucaristia semeando erros e favorecendo uma forma inadequada de recebê-lo” e que “a guerra entre o arcanjo Miguel e os seus anjos, por um lado, e Lúcifer, por outro, continua hoje nos corações dos fiéis: o objectivo de Satanás é o sacrifício da missa e a presença real de Jesus na hóstia consagrada.”

Os fiéis deverão de novo receber o Senhor na boca:

“Porquê esta atitude de falta de submissão aos sinais de Deus? Recebê-lo de joelhos e na língua é muito mais adequado para o próprio sacramento.” Embora reconheça algumas “boas iniciativas” do Concílio quanto à participação activa dos fiéis, denuncia: “Não podemos fechar os olhos ao desastre, à devastação e ao cisma que os promotores modernos de uma liturgia viva causaram ao remodelar a liturgia da Igreja de acordo com as suas ideias.”

E, num ataque àqueles que consideram que o Concílio foi “uma verdadeira primavera na Igreja”. “No entanto, um número cada vez maior de líderes eclesiais consideram esta primavera como uma recusa, uma renúncia à sua herança milenar.”

Eu concordo que é necessário dar dignidade à celebração eucarística.

Mas

  • não é farisaísmo a advertência de Sarah?
  • Porventura é a língua mais digna do que a mão?
  • Sobretudo, não é aos bebés que damos de comer na boca?
  • Ora, não é de comunidades cristãs adultas que precisamos?
  • Ou queremos cristãos menorizados e infantilizados?

Mais grave:

  • não há nas posições de Sarah o pressuposto subtil, mas errado, de que na Igreja o núcleo são as celebrações e não a vida?
  • Afinal, não é nesse pressuposto do primado das celebrações que assenta aquela declaração desgraçada de muitos que se dizem “católicos, mas não praticantes”?

Pergunta-se: mas praticam na vida o Evangelho e a sua exigência

  • de verdade,
  • de justiça,
  • de cumprimento do dever,
  • de não corromper nem ser corrupto,
  • de lutar por um mundo em que todos tenham o mínimo que lhes permita realizar a sua dignidade humana como Cristo mandou?

O que é verdade é que, contra o que insinua Sarah, na hierarquia autêntica do ser cristão primeiro está a fé viva no Deus de Jesus, que é Pai e Mãe de todos, com todas as consequências.

Depois, só depois, é que vem a celebração: esta vida, a vida cristã, que é

  • vida quotidiana,
  • familiar,
  • profissional,
  • a vida dos negócios e da política, iluminada pela fé a caminho da plenitude do Reino de Deus, celebra-se em eucaristia.

Na fraternidade, na alegria, na beleza e recebendo mais Vida para a vida.

 

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

 

 

Anselmo Borges

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/contra-francisco-contra-o-concilio-9191106.html

 

 

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