“A religião detesta as mulheres”

DIA DO DIREITO DAS MULHERES

Declarações registradas por Alizée Vincent – publicado em 23/03/2017]

Foto: Pauline Hillier e Inna Schevchenko © Hermance-Triay / Le Seuil

Em Anatomia da opressão *, duas ativistas do Femen dissecam os textos dos três monoteísmos que tratam do corpo feminino. Neste dia 8 de março, Dia do direito das mulheres, republicamos esta entrevista na qual elas analisam para nós o peso das normas religiosas no século XXI.

 Tradução: Orlando Almeida
Uma radioscopia do corpo feminino lida sob o prisma religioso: este é o trabalho empreendido por Inna Schevchenko e Pauline Hillier, duas militantes do movimento feminista Femen, famoso por suas ações em ‘topless’. As jovens ensaístas têm como alvo as três religiões abraâmicas, que elas criticam com base em citações fiéis dos textos sagrados, investigando as restrições religiosas que pesam sobre cada membro do corpo feminino: a cabeça, os seios, as mãos, o sexo, os pés, etc.

Que parte do corpo feminino contém a carga simbólica mais importante e sofre a opressão mais intensa nos textos religiosos?

Inna Schevchenko: Eu diria a cabeça porque ela engloba o cabelo, os olhos, o sorriso, o pensamento, a fala, o rosto, etc. Tudo começa pelo pensamento, e especialmente pelo que as mulheres pensam de si mesmas, das suas habilidades, da sua força. Esta é a primeira coisa que as religiões tentam controlar. Isso passa pelas instituições educacionais, em particular as dirigidas pela Igreja Católica. A religião judaica também investe grande parte das suas finanças na educação no mundo todo, assim como o Islã com o desenvolvimento das escolas corânicas.

Pauline Hillier: Eu teria dito o ventre, uma vez que as religiões parecem querer reduzir de forma permanente as mulheres unicamente à função de reprodução sobre a qual eles querem exercer um controle total. Isto foi visto nas questões de IVG [Interrupção Voluntária da Gravidez] e de contracepção. Estes são frequentemente os primeiros direitos em que há retrocesso quando a religião registra uma retomada. A figura da mãe é a figura da mulher perfeita para a religião.

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(*) Anatomie de l’oppression, Inna Schevchenko et Pauline Hillier (Seuil, 2017)

O vosso livro sugere que o patriarcado, ainda profundamente enraizado nas sociedades do século XXI, deriva inteiramente das religiões. Vocês acham que a opressão das mulheres não depende senão de uma herança religiosa?

  1. H: Não, nós explicamos, ao contrário, que o patriarcado é anterior à religião, mas esta tornou-se o seu braço armado. É a ferramenta mais eficaz que o patriarcado encontrou para aplicar uma política de autoridade masculina. Observamos, por outro lado, que a religião tenta fazer-nos acreditar que a ordem patriarcal é a ordem do mundo tal como sempre foi. Isso não é verdade, as sociedades nem sempre corresponderam a esta hierarquia.
  2. S: Os antropólogos consideram que as normas patriarcais se desenvolveram um ou dois séculos antes da aparição dos primeiros monoteísmos. Penso que a religião tornou-se a ferramenta perfeita do patriarcado que permitiu a ele tornar-se o que ele é hoje: uma cultura e um sistema. E continua a fortalecer-se, agora mesmo com Donald Trump, François Fillon ou mesmo Marine Le Pen.

 

As três religiões monoteístas também transmitem padrões de enquadramento do corpo masculino. Vocês veem essas regras como uma forma de opressão semelhante à que as mulheres sofrem?

  1. H: Não. Essas formas de regulação não são comparáveis porque sobre os homens pesam muito menos regras e interdições que do que sobre as mulheres. Não só nos textos, mas ainda mais na sua aplicação real. Há normas de decoro acerca da nudez dos homens, mas, no dia a dia, elas não exercem a mesma pressão que na vida de uma mulher, porque elas foram inventadas para estabelecer uma relação de subordinação a favor dos homens.
  2. S: Quando os textos religiosos formulam uma regra dirigida aos homens, é para criar direitos. Enunciada para as mulheres, a regra é sistematicamente para limitá-los. As normas religiosas de vestuário não têm o mesmo significado quando são ditadas para os homens. No judaísmo, a kipá simboliza uma conexão direta entre os homens e Deus. Pelo contrário, as mulheres judias cobrem a cabeça em sinal de deferência para com os maridos. Assim, entre as mulheres e Deus, há o marido. O significado do chapéu é completamente diferente.

Por isso, é impossível comparar os dois tipos de opressão, embora seja importante enfatizar que os homens também sofrem com esquemas impostos pela religião.  Ela transmite uma imagem limitada do homem, que seria sexualmente muito ativo, constantemente atraído pelas mulheres e incapaz de se controlar. É uma forma de violência. Nem todos os homens são “animais sexuais”. Além disso, nem todos são atraídos pelas mulheres nem sentem necessariamente desejo sexual.

Na opinião de vocês, é possível livrar-se do legado opressivo das religiões sem contudo negar a fé ou a espiritualidade? Em outras palavras, é possível ser crente e feminista?

  1. H: Esta é uma questão importante sobre a qual queremos ser claras: o problema não é a fé. O problema é o dogma institucionalizado, as regras liberticidas e punitivas e a autoridade clerical. Os seres humanos são naturalmente seres espirituais. Por outro lado, a noção de “feminismo religioso” é antinômica, porque a religião odeia as mulheres. O feminismo é uma energia do progresso e da modernidade, que procura acompanhar as mulheres na História, enquanto que a religião parece ser uma energia da imutabilidade, que atua em nome do sagrado para que nada mude.
  2. S: Naturalmente, pode-se ser crente e feminista. Por outro lado, o feminismo não pode ser religioso. Isso é impossível porque a religião não separa as crenças religiosas da dimensão política. O modelo da sociedade defendido pelo feminismo é incompatível com as normas sociais multisseculares defendidas pelas religiões.

Existe um texto religioso mais respeitoso do corpo feminino do que os outros?

  1. S: Não posso dizer que um texto confira mais direitos às mulheres do que a outro. Isso depende dos contextos. Alguns textos colocam mais ênfase sobre certa parte do corpo, enquanto outros detêm-se menos sobre nela. Pode-se também sentir uma diferença na forma como os textos estão escritos: o Alcorão é muito claro e definitivo, ao passo que a Bíblia deixa mais espaço para as metáforas, mas não podemos dizer que um texto sagrado é mais violento do que outro.
  2. H: Em termos de aplicação dos textos, as religiões monoteístas não parecem estar no mesmo estágio da sua história. Os países islâmicos são mais severos atualmente. Por outro lado, nos textos, as três religiões se equivalem na questão das mulheres.

Vocês explicam que o peito das mulheres combina duas cargas simbólicas opostas. Quais são as origens desta dupla opressão?

  1. H: Os seios cristalizam emoções opostas. São ao mesmo tempo portadores de uma imagem sacralizada, evocando a Virgem com o Menino, a mulher amamentando, a fonte da vida …e do outro lado, eles são objeto de um enorme tabu. As resistências na sociedade moderna são surpreendentes. No Facebook, o peito de um homem não é censurado ao passo que o mamilo do peito feminino é. No entanto, o mamilo é exatamente similar em ambos os casos. Como mulher, eu aspiro a um tratamento mais banal do meu corpo e da minha nudez. Os homens têm direito a essa banalidade, eu os invejo.
  2. S: Observa-se que quando os seios servem à sociedade, alimentando a nova geração, por exemplo, não há problema. Quando eles respondem ao desejo dos homens, isso ainda passa. Mas assim que os seios servem às mulheres, acabou. Se nós utilizamos os nossos peitos como ferramentas políticas, é porque acreditamos que nada é mais pacifista do que mostrar o peito nu. Mostramos que não temos armas, não temos nada. Não podemos fazer nada de prejudicial. Não é senão a pele, mas a religião considera isso como uma forma extrema de violência. Aí está a nossa diferença de percepção. Quando nós nos desnudamos na frente das suas igrejas, os fiéis veem nisso um ato de guerra, ao passo que na cruz, Jesus, ele está mesmo de peito nu… Ele está ‘topless’!

Vocês colocam no mesmo plano o fato de protestar com os seios nus no espaço público, e fazer o mesmo num espaço privado e confessional, como uma igreja?

  1. H: Estamos conscientes de que este não é o mesmo nível de provocação. Contudo nós nunca o fizemos interrompendo o culto. Nós sempre interviemos fora dos horários de oração, porque não queremos atingir os fiéis. A ação em Notre-Dame de Paris, por exemplo, foi realizada por razões específicas: na época, em fevereiro de 2013, a religião interferiu no debate público e político [sobre casamento para todos, ndr]. Ela saiu dos seus limites para manifestar seu ponto de vista sobre a lei. Líderes religiosos foram convidados a tomar lugar nos hemiciclos, no Parlamento Europeu, alguns crentes rezavam na rua em sinal de oposição… Então foi uma resposta na medida da invasão deles no nosso espaço.
  2. S: Se as igrejas fossem espaços privados, nem todos poderiam entrar nelas. Na Ucrânia, só os crentes vão às igrejas. Na França, todos as visitam devido ao seu interesse cultural, arquitetônico, etc. As pessoas bebem Coca, tiram fotos, nelas. Por que a nossa ação é considerada como uma blasfêmia e esse tipo de comportamento não? E por que não poderíamos ser contra os crentes? O meu objetivo não é de machucá-los. O meu único objetivo é expressar minha opinião. São eles que se sentem feridos. Sinto-me pessoalmente, ofendida todos os dias por pessoas como Trump, Fillon, Marine Le Pen… Se vocês acreditam na liberdade de expressão, desde que ela não contrarie os sentimentos dos outros, vocês não acreditam na liberdade de expressão.

Que representa o sagrado aos vossos olhos? Vocês falam do aborto especificamente como um direito sagrado…

  1. H: Eu não gosto muito da noção de sagrado porque ela congela as coisas, impede qualquer debate, qualquer evolução. Mas se eu tivesse que escolher, eu diria que a liberdade de expressão é o único direito sagrado sobre o qual se juraria.
  2. S: Eu considero que o limite à liberdade de expressão é a vida: se a vida de outrem está em perigo, isso se torna um crime. O resto não faz senão reforçar a liberdade.

Inna Shenvchenko, você lembra que, em 2012, você se estabeleceu na França devido ao seu  respeito pelas liberdades e pelos direitos humanos. Hoje, você ainda vê a França como um país sinônimo de liberdade para as mulheres?

  1. S: Quando cheguei aqui, pensei que não haveria nada a fazer em termos de militância feminista. Eu estava simplesmente fugindo da Ucrânia. Durante a nossa primeira ação pública, nós fomos agredidas em plena rua por membros da associação católica integrista ‘Civitas’. Isso não acontecia na Ucrânia! Nós sofríamos violência por parte da polícia e dos serviços secretos, mas nunca por parte dos próprios cidadãos! Então eu descobri que, se a França é um dos países onde as mulheres gozam de maior número de direitos, isso na realidade é ilusório. Esses direitos parecem estar adquiridos, mas estamos num ponto de ruptura, onde a França poderia regredir fortemente. As nossas manifestações são testes democráticos que permitiram detectar numerosos cânceres da sociedade. As religiões estão incluídas no domínio das ideias: se não podemos mais criticar as ideias, é preciso questionar-se sobre a saúde democrática e a liberdade de expressão da nossa sociedade.
  2. H: Quando ingressei no Femen, não esperava passar noites numa cela. Estou um pouco envergonhada pelo modo como o Femen é visto aqui. Somos tratadas como delinquentes sexuais. Uma das características sintomáticas da França é a distância entre o discurso e os fatos. Alguns meses atrás, Manuel Valls afirmava, por exemplo, que a imagem da República era uma mulher com os seios nus, enquanto que o seu próprio governo nos perseguia por exibicionismo…

 

Uma das críticas que frequentemente é feita a vocês é o fato de que vocês prejudicam a vossa causa com ações consideradas muito chocantes. Que resposta têm vocês para dar aos vossos contraditores?

  1. S: Ao ultrapassar os limites do que é considerado aceitável, nós ampliamos o espectro do possível e aumentamos a noção de liberdade de expressão. Mostramos à sociedade que o corpo feminino não é sexual por definição e que ele pode ser um vetor de expressão. Em qualquer configuração social, o fato de ficarmos silenciosas é que é contraproducente. É cumplicidade. Nós escolhemos não nos calarmos.
  2. H: Nós derrubamos os clichês porque as nossas ações dão uma definição pluralista da feminilidade. Dizer que somos contraproducentes é intelectualmente desonesto em relação ao trabalho realizado, porque nós fizemos sair do armário temas sobre os quais não se falava mais. Nós nos opusemos frontalmente a integristas e a movimentos de extrema-direita contra os quais ninguém lutava. Que se aprove ou não o método, não se pode negar que contribuímos para colocar essas questões em destaque. As nossas ações deram origem a numerosos debates na televisão, nas refeições familiares, entre amigos, etc. Alguns desses temas não eram discutidos antes. Não há coisa mais produtiva do que isso. O fim justifica os meios.

 

Alizée Vincent

Fonte: http://www.lemondedesreligions.fr/une/femen-la-religion-deteste-les-femmes-23-03-2017-6225_115.php

 

 

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