Francisco. E depois?

Resultado de imagem para Cartas a FRanciscoAnselmo Borges – 09/o3/2018

“Havia uma vez um barco, um velho e belo barco que há muito tempo estava ancorado no porto. A vida a bordo era de prerrogativa. Os oficiais estavam ataviados com uniformes de diferentes cores –

  • o negro para os de mais baixa graduação,
  • violáceo, vermelho e púrpura para os outros -, a que alguns tinham juntado adornos (capas, arminhos, condecorações…).

As relações entre os comandos superiores e os subalternos regiam–se por um cerimonial carregado de requintados ritos e reverências.

Na realidade,

  • a vida a bordo era fácil,
  • porque tudo o que havia para fazer ou deixar de fazer
  • estava determinado por um regulamento muito preciso
  • que todos observavam escrupulosamente.

Como é lógico, no barco havia também marinheiros, embora dificilmente fossem vistos. Trabalhavam no porão e na sala das máquinas, apesar de o trabalho com os motores não ser muito importante num navio que nunca deixa o porto.

As veneráveis senhoras que passeavam pelo cais diziam umas às outras: “Este barco é o meu preferido; é um barco fidelíssimo, nunca se move do seu sítio”.

Um dia, o comandante reformou-se e, cumprindo o regulamento de regime interno, os oficiais de uniforme púrpura reuniram-se para nomear um novo comandante. Elegeram um deles, já de idade avançada, que, com certa dificuldade, subiu a escada que leva ao posto de comando. E de repente ouviu-se ele a dizer algo que deixou a todos petrificados:

“Levantai âncoras, rumo ao mar!”.

Um dos oficiais atreveu-se a perguntar:

“Ouvimos bem? Poderia repetir…”

E o comandante repetiu com voz forte e clara:

“Já disse: rumo ao alto mar!”.

Entre os oficiais estendeu-se um murmúrio que acabou por transformar-se em clamor:

“Ele está completamente louco, o barco vai afundar-se!”

Pelo contrário, muitos marinheiros ficaram contentes, ao verem que acabava a monotonia.

Quando a terra desapareceu da vista, desencadeou-se uma tempestade e então todos compreenderam que o regulamento vigente no porto não servia para o alto-mar. Alguns gritavam, mortos de medo:

“Voltemos para o porto, pois afundamo-nos.”

Mas, ao fim e ao cabo, os barcos foram feitos para navegar. E o regulamento começou a mudar.”

 

2. Impressiona como é que Francisco,

  • com pulmão e meio,
  • ciática,
  • e 81 anos,
  • mantém a energia para levar por diante a renovação da Igreja a favor da humanidade.

Quando naquele 13 de Março de 2013 – há cinco anos –

  • apareceu à multidão
  • simples,
  • desejando “buona sera“,
  • inclinando-se e pedindo a bênção aos fiéis,
  • referindo-se a si mesmo apenas como bispo de Roma,

intuiu–se que a ordem agora era: “Rumo ao alto-mar!”

Depois, a intuição foi-se confirmando.

  • Ficou na Casa de Santa Marta.
  • Um carro modesto
  • e uns sapatos normais pretos, de alguém que não pisa salões de senhores, mas os caminhos das pessoas, sobretudo das mais débeis e necessitadas.

Passados dias, abraçou com força aquele homem de rosto completamente desfigurado (sofre da doença de Von Recklinhausen).

Beija, conforta, anuncia sem cessar, por palavras e obras, que Deus é amor e misericórdia e que perdoa sempre – logo o acusaram de que agora vale tudo, esquecendo

  • que o amor é tremendamente exigente
  • e que ele próprio sabe que a vida não é fácil
  • e dá disso testemunho numa vida imensamente austera e sacrificada.

Pela humildade, cordialidade, serviço, conquistou a simpatia de crentes e não crentes.

  • Não se considera infalível,
  • dá risadas,
  • telefona a este e àquela.
  • Quando é preciso, vai a um mictório público.

Um Papa cristão, apaixonado pelo Evangelho, notícia boa e felicitante!

  • “A Igreja somos nós todos” ao serviço de todos.
  • O clericalismo e o carreirismo são “a peste da Igreja”.
  • Impõe-se reformar a fundo a Cúria Romana. Não podemos ficar “mumificados nas nossas estruturas”.
  • Para a pedofilia, tolerância zero – se se equivoca, como aconteceu no Chile, vai emendar o erro.
  • Transparência total no Banco do Vaticano.
  • É preciso descentralizar a Igreja.
  • Os leigos “não são funcionários do clero”.
  • As mulheres têm de ocupar o seu lugar nos postos cimeiros de decisão, contra o machismo.
  • Acabaram as condenações de teólogos.
  • “O celibato dos padres não é um dogma.”
  • É preciso continuar e aprofundar o diálogo com as outras Igrejas cristãs e também o diálogo inter-religioso.

Líder político-moral global, dos mais influentes e amados, se não o mais influente e amado – 45 milhões de seguidores no Twitter -, Francisco denuncia a financeirização especulativa da economia, “que mata”.

Sim à economia de mercado, mas social e ecológica de mercado, com acento no social e ecológica.

O seu combate a favor da paz não tem tréguas.

A sua leitura da Igreja e do mundo é a partir das periferias e o seu modelo é o poliedro.

 

3. Na síntese de franciscano por opção e de jesuíta por formação, Francisco pôs a Igreja em marcha, sem ser possível voltar atrás.

  • Os opositores vêm sobretudo de cima e de dentro,
  • porque não querem sair dos seus privilégios e instalação dogmática,
  • esquecendo a vida.

Já Jesus tinha sido vítima dos instalados na religião, com os seus privilégios.

Disse que não sai a pontapé. Mas, quando já não puder, resignará e penso que não ficará no Vaticano, não há lugar para a figura de “Papa emérito”, será “bispo emérito de Roma”.

E, a seguir, do que a Igreja e o mundo precisam é de um João XXIV, na continuação de Francisco e João XXIII, o “Papa bom”, que na noite da abertura do Concílio Vaticano II observou à multidão que nem à Lua o acontecimento passara indiferente e pediu aos pais que levassem um beijo do Papa para os filhos.

 

Anselmo Borges

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/francisco-e-depois-9172769.html

 

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