O rosto de uma Igreja em estado de missão

Entrevista do arcebispo Cyril Vasil’ após a sua visita à Índia
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Nicola Gori – 27 de fevereiro de 2018

Tradução: Orlando Almeida

Uma comunidade em expansão, onde o número de fiéis está crescendo, as vocações sacerdotais e religiosas são abundantes e o zelo missionário atinge territórios a milhares de quilômetros de seu centro original, que é o estado de Kerala na Índia: é a Igreja Siro-Malabar, que ultimamente viu aumentar o número das suas eparquias para garantir os cuidados pastorais a todos os fiéis espalhados pelo país.

O arcebispo secretário da Congregação para as Igrejas orientais, Cyril Vasil’, que no passado mês de janeiro fez uma viagem à Índia, acompanhado pelo sub-secretário do dicastério, o dominicano Lorenzo Lorusso, fala nesta entrevista ao Osservatore Romano de algumas impressões sobre essa realidade eclesial.

 

Quais foram os motivos desta viagem?

Em 9 de outubro de 2017, no contexto da plenária da Congregação, foi publicado um documento do Papa com o qual foram erigidas duas eparquias Syro-malabares – Hosur e Shamshabad – e foram estendidos os limites das duas já existentes no sul da Índia.

Desta forma, foi garantido o cuidado pastoral e uma jurisdição da Igreja Siro-Malabar que abrange todo o país. Outro motivo da minha viagem foi o vigésimo quinto aniversário da elevação a sede maior do arcebispado da Igreja Siro-Malabar.

Que objetivos atingiu a visita?

A primeira parada foi em Hyderabad, no estado de Telangana, com a visita às realidades pastorais dessa cidade e depois à nova eparquia de Shamshabad, cuja sede episcopal fica numa área perifétrica, nos arredores do aeroporto de Hyderabad.

Em seguida, teve lugar a posse do novo bispo Raphael Thattil, até agora visitador visitante dos Siro-Malabares fora dos territórios cobertos pela jurisdição da Igreja Siro-Malabar.

Portanto, o novo bispo eparquial continua a sua missão de contato com os fiéis dispersos, até agora confiados aos cuidados dos bispos latinos. Com esta disposição, foram colocadas as bases

  • não só para uma abertura pastoral para com os fiéis siro-malabares que saíram da área original do Kerala, onde a Igreja tem a sua sede histórica,
  • mas também para o trabalho missionário neste território.

A cúria ainda está toda por construir do ponto de vista pastoral, mas as pessoas já existem porque já há uma boa colaboração entre as realidades mais pobres e as realidades missionárias. A celebração foi muito concorrida e decorreu numa atmosfera festiva.

Estavam presentes os cardeais George Alencherry, arcebispo-mor dos siro-malabares e Baselios Cleemis Thottunkal, arcebispo-mor da Igreja Siro-Malancar, mais de cinquenta bispos, inclusive os pertencentes à Igreja Latina, e mais de quatro mil fiéis.

Quais são os principais desafios enfrentados pela Igreja siro-malabar?

Esta disposição é um evento histórico, porque a Igreja siro-malabar pode a título pleno cuidar pastoralmente dos seus próprios fiéis onde quer que se encontrem nos estados da Índia.

Ao mesmo tempo permite

  • que ela se empenhe na missão ad gentes em todo o território,
  • ao passo que até agora isso só acontecia nas paróquias ou eparquias missionárias criadas desde os anos sessenta, à maneira de uma manta de retalhos, sem ligação lógica ou orgânica.

Assim, foram cumpridas as recomendações do Vaticano II que afirmou que todas as Igrejas sui iuris têm igual dignidade no que tange à possibilidade do trabalho missionário. Agora, as Igrejas sui iuris que operam na Índia estão todas no mesmo nível, como explicou o cardeal Leonardo Sandri, prefeito do dicastério, na mensagem que eu li durante a celebração.

A Igreja siro-malancar também tem extensão jurisdicional em toda a Índia?

A Igreja siro-malancar já teve alguns anos atrás uma extensão:

  • não do próprio território,
  • mas da possibilidade de cuidar de seus fiéis em toda a Índia
  • e também de realizar a missão ad gentes, através do estabelecimento de duas circunscrições jurídicas, consideradas como pertencentes à Igreja malancar, mas “fora do território próprio” desta Igreja.

Embora seja uma Igreja numericamente menor do que a siro-malabar, teve esta abertura antes por vários motivos. Durante a minha visita, tive a oportunidade de conhecer algumas realidades missionárias das duas Igrejas, nas áreas de eparquias nascidas como missionárias. Na verdade, foi a primeira vez que pude ver uma Igreja oriental em missão ad gentes.

Esta é uma característica das igrejas siro-malabar e siro-malancar, que

  • entre todas as igrejas católicas orientais
  • são talvez as únicas que operam maciçamente como Igrejas missionárias.

Ao contrário, muitas Igrejas orientais estão impedidas de fazer este trabalho.

  • Basta pensar nas que estão no  Médio Oriente, onde as conversões são praticamente inadmissíveis por razões sociopolíticas e culturais;
  • ou nas Igrejas da Europa oriental, que são consideradas vinculadas a uma determinada região ou etnia.

A Igreja na Índia, por outro lado, tem um anseio e um espírito missionário. Para a evangelização,

  • usa línguas locais
  • e entra na cultura das pessoas desses territórios,
  • criando um vínculo orgânico de acordo com o rito em que a evangelização ocorre.

Que consistência tem hoje a realidade da Igreja Siro-Malabar?

Conta com quatro milhões e quinhentos mil fiéis, a maioria deles concentrada nas eparquias do Kerala e das áreas adjacentes. Desde há algumas décadas, assistimos a uma emigração maciça de fiéis dentro da Índia por razões de trabalho.

Por isso, há vários anos, a Sé Apostólica tem criado novas estruturas eclesiásticas para responder às necessidades, a começar pela eparquia de Kalyan, criada em 1987, com centro na zona de Bombaim.

Assim também

  • foi erigida em 2012 a eparquia de Faridabad, localizada perto de Nova Deli;
  • ou  foi estendido o território das eparquias existentes para incluir uma grande cidade metropolitana, como foi feito para Bangalore.

Com a criação da eparquia de Hosur, foi incluído também o território de Chennai, anteriormente chamado Madras, onde há um grupo notável de fiéis siro-malabares migrantes. Na própria cidade de Hyderabad e arredores, há cerca de vinte mil fiéis siro-malabares que constituem o ponto de partida desta eparquia.

Qual é a geografia dos ritos na Índia?

O território inteiro da Índia é coberto por três jurisdições:

  • latina,
  • siro-malabar
  • e siro-malancar.

A maioria dos fiéis na Índia pertence à Igreja latina. Até pouco tempo atrás, a Igreja siro-malabar era considerada uma Igreja regional, com algumas exceções para o cuidado pastoral de próprios fiéis que viviam nos grandes centros.

A partir de agora, esta situação administrativa não existe mais. Embora se pudesse temer que isso poderia prejudicar a Igreja unida ou única, ao contrário, o que vimos, é que

  • onde a Igreja latina e as Igrejas orientais coexistem e colaboram no mesmo território,
  • a pastoral se beneficia com isso.

Essas disposições também alteram a perspectiva teológica, porque

  • a eparquia ou a diocese não são mais concebidas como um governo de um território confiado a um bispo,
  • mas como o governo das pessoas que vivem num determinado território, ou seja, de uma pars populi Dei .

Para entender melhor, essa parte do povo de Deus

  • está ligada a uma determinada igreja sui iuris
  • e a um bispo,
  • e não ao território.

A área territorial é um ‘contêiner’ que tem dentro dele vários grupos de fiéis de diferentes Igrejas sui iuris. Assim, no mesmo território, sobrepõem-se as jurisdições de diferentes bispos que cuidam cada um dos seus fiéis.

A evangelização é uma prioridade na Índia?

Pelo que pude ver, há situações realmente encorajadoras no que diz respeito a uma missão direta ad gentes. Estivemos em algumas aldeias realmente pobres, onde havia poucas famílias cristãs, ao passo que a maioria era hinduísta ou muçulmana.

Pude ver o trabalho precioso das irmãs em áreas muito pobres e notei que o trabalho missionário se move segundo três vetores.

Em primeiro lugar, o rosto de uma Igreja caridosa com muitíssimas instituições de caráter social.

Depois, a educação: as escolas administradas pelos missionários desempenham um papel importante e também são uma oportunidade para entrar em contato com a população local.

O terceiro vetor é o anúncio direto

  • através de programas de evangelização,
  • mas sobretudo através do testemunho destes cristãos que vivem com grande seriedade e compromisso a sua fé.

Considerando também que são uma minoria em comparação com os hinduístas e provêm dos estratos sociais mais vulneráveis.

Entre outras coisas, visitei a eparquia de Kalyan, a região missionária de Saugli, onde prestam serviço os sacerdotes dos missionários de São Tomé, uma sociedade de vida apostólica nascida em Kerala para dar impulso missionário à Igreja siro-malabar.

A visita terminou em Mount Saint Thomas, na cidade de Ernakulam, onde se localiza a sede do arcebispo-mor da Igreja siro-malabar. Lá foi realizado o sínodo dos bispos no vigésimo quinto aniversário da elevação a arcebispado-mor.

O que o impressionou do ímpeto missionário dos siro-malabares?

Atualmente, a Igreja siro-malabar conta com sessenta e quatro bispos. Se pensarmos que há cem anos, tinha apenas três e que seu território estava limitado a uma pequena área do Kerala, vemos como cresceu.

Cem anos depois vemos uma Igreja enraizada no seu território original,

  • forte na sua estrutura hierárquica,
  • na sua presença
  • e na sua dimensão missionária.

Posso dizer que é uma das igrejas mais florescentes que conheci. Muitas vezes, nas antigas terras cristãs, sente-se certo desânimo e falta de confiança.

Por isso, aos pastores que se sentem tristes por causa da diminuição da presença cristã, eu recomendaria uma visita à Igreja do Kerala.

  • É uma igreja jovem
  • cheia de vocações,
  • com 8.600 sacerdotes
  • e 36 mil religiosas.

Nela também vigora o celibato, considerado pela Igreja siro-malabar como seu patrimônio disciplinar, mas isso não significa falta de vocações. A questão do celibato não é portanto decisiva para superar a falta de vocações. Às vezes a obrigação do celibato na Igreja Latina é apontada como dificuldade para o crescimento da Igreja.

O que favorece tantas vocações?

Um dos motivos é, sem dúvida, o fato de que existe uma vida familiar exemplar. As famílias ainda são numerosas em comparação com a Europa. Deve-se considerar ainda que a Igreja tem um ótimo sistema escolar e catequético. Dá-se muita importância à catequese.

A criança siro-malabar tem catecismo durante doze anos –  de 6 a 18 anos – com uma preparação muito bem estudada. Este é um dos pontos fortes desta Igreja. Se pensarmos que o comparecimento à missa dominical é de 95 a 98 por cento, isso quer dizer que o cristão considera como fundamental a participação.

Além disso, os leigos

  • se identificam na fé
  • e têm um forte senso da vida paroquial.
  • Sentem-se muito vinculados a uma paróquia concreta, participam das decisões importantes.

Na prática, há uma forte presença de leigos

  • bem formados e bem conscientes da própria responsabilidade e dignidade,
  • e da possibilidade de colaboração harmoniosa com o clero e os religiosos.

Este é outro aspeto maravilhoso, de onde derivam as outras dimensões. Não esqueçamos que a Igreja siro-malabar oferece numerosos sacerdotes à Igreja latina, tanto na Índia como em outras partes do mundo.

É uma Igreja com ótimos missionários, que trabalham também nas estruturas da Igreja latina em muitas partes da Europa e da África. O rito é secundário para os siro-malabares em comparação com a universalidade. Os fiéis amam o seu próprio rito mas sentem-se católicos, abertos à colaboração com outras Igrejas.

 

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Nicola Gori

http://www.osservatoreromano.va/it/news/il-volto-di-una-chiesa-stato-di-missione

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