Pedofilia: o papa Francisco na tormenta

Le cardinal George Pell quitte le tribunal de Melbourne le 5 mars 2018.

Agnès Chareton, 05/03/2018

[REVISTA PÉLERIN] Após a sua viagem ao Chile, Francisco se vê criticado pela sua inércia na luta contra a pedofilia na Igreja. As vítimas pressionam-no para que ponha em andamento ações concretas, enquanto que o cardeal australiano George Pell deve comparecer de novo diante da justiça em 5 de março.

Foto: O cardeal George Pell deixa o tribunal de Melbourne em 5 de março de 2018. / PAUL CROCK / AFP

Tradução: Orlando Almeida

Artigo publicado na revista Pèlerin n ° 7057

A crise eclodiu no Chile, país traumatizado pelos abusos sexuais do clero. Em janeiro passado, o papa argentino provocou a indignação ao celebrar a missa ao lado do bispo Juan Barros, o bispo de Osorno, acusado de ter calado sobre as ações de um padre pedófilo, o padre Karadima.

Durante toda a viagem, Francisco deu um apoio incondicional ao bispo Barros e denunciou “calúnias“. Mas, de volta a Roma, enquanto a controvérsia aumentava, o papa fez uma reviravolta. Em 30 de janeiro, ele enviou Mons. Scicluna, arcebispo de Malta, na linha de frente contra abusos sexuais, para investigar no Chile. Uma missão desencadeada por “elementos recentemente chegados“, segundo um comunicado do Vaticano.

 

Uma rede internacional de vítimas de pedofilia

Francisco foi mal informado? Ou ele foi complacente para com um bispo que ele mesmo nomeou em 2015? A tempestade desencadeada no Chile não tem fim. Na luta contra os abusos sexuais, o Papa Francisco sopra quente e frio. As associações de vítimas censuram-no por multiplicar belas palavras, sem que elas sejam seguidas por efeitos.

À margem da sua visita ao Chile, várias delas criaram uma rede internacional de vítimas, Ending Clerical Abuse (ECA). “Pareceu-nos necessário criar um organismo mundial de luta contra a pedofilia para estabelecer um contra-poder perante o Vaticano” – explica François Devaux, co-fundador de ‘La parole libérée’, a associação de vítimas do padre Preynat em Lyon,sobre a iniciativa do projeto.

Para fazer andar as coisas, a arma é sempre a mesma: sensibilizar a opinião pública – insiste ele. Nenhuma instituição resiste a isto. Não queremos mais deixar alternativa à Igreja, para que ela haja e rápido!

 

O cardeal George Pell, Don Mauro Inzoli, Mons. Juan Barros …

Há vários meses a crise da pedofilia faz balançar o pontificado. Em junho de 2017, a acusação do cardeal australiano George Pell por abusos sexuais provocou uma onda de choque em Roma.

O “tesoureiro” do Vaticano, que afirma ser inocente, teve de retornar à Austrália para “limpar o seu nome“. Francisco, que o tinha nomeado para um posto-chave, manteve-lhe a confiança, enquanto aguarda que a justiça se pronuncie. Uma nova audiência está prevista para 5 de março em Melbourne, Austrália.

O papa também é criticado pela sua clemência no caso de Don Mauro Inzoli, padre pedófilo italiano, que ele por fim reduziu ao estado laical em maio de 2017, depois de ter tergiversado.

 

“Compaixão para com as vítimas”

Num livro publicado que apareceu nos últimos dias (1), Francis Sullivan, diretor do conselho criado pela Igreja para esclarecer os abusos sexuais na Austrália, resume bem o dilema que é o seu.

Se Francisco “sente compaixão para com as vítimas, ele tem se mostrado frequentemente indulgente” para com bispos complacentes, “sem se preocupar com o impacto sobre as vítimas de abuso“. O medo de ser instrumentalizado por grupos de pressão também explica a cautela do Papa Francisco nesses casos.

 

Continuar a “tolerância zero” de Bento XVI

Retomando a política de “tolerância zero” iniciada por Bento XVI, o Papa fez da luta contra a pedofilia uma prioridade de seu pontificado. Em 2014, o estabelecimento de uma comissão pontifica para a proteção de menores, encarregado de aconselhá-lo, despertou fortes expectativas das vítimas. A nomeação do cardeal dos EUA, Sean O’Malley, conhecido por ter “feito a limpeza” na diocese de Boston, nos Estados Unidos, era uma garantia de credibilidade.

A carta apostólica “Como uma mãe amorosa” de 4 de junho de 2016 fazia parte desta política de firmeza. O texto prevê que

  • os bispos possam doravante ser demitidos
  • por “negligência” em caso de não denúncia de abusos sexuais cometidos em suas dioceses contra menores de idade ou adultos vulneráveis.

 

Várias demissões da comissão contra a pedofilia

Mas, apesar desses sinais positivos, a mudança está demorando a chegar. Isto é confirmado pela demissão da irlandesa Marie Collins. Ela própria, que já tinha sido uma vítima, bateu a porta da comissão contra a pedofilia em março de 2017, denunciando as “resistências” da Cúria, em particular as da congregação para a doutrina da fé.

Em fevereiro de 2016, Peter Saunders, outra vítima membro da comissão, foi convidado a deixá-la depois de criticar a nomeação do bispo Barros no Chile.

A psiquiatra infantil francesa Catherine Bonnet, membro deste grupo de especialistas, já tinha apresentado a sua demissão ao papa Francisco em junho de 2017, mas ela não foi aceita. Na época, duas propostas que ela defendia não chegavam a termo.

  • A primeira era que a comissão pudesse consultar diretamente as vítimas” – explica ela.
  • A segunda era para introduzir no direito canônico uma obrigação, para os bispos e para os superiores das ordens religiosas, de alertar as autoridades em caso de suspeita de abuso sexual. Isto parece-me indispensável para proteger as crianças“.

 

Uma mudança ao longo de várias gerações

Em 17 de fevereiro, Francisco renovou a comissão pontifícia para a proteção dos menores e nomeou novos membros. Os seus trabalhos, até agora emperrados, será que receberão um novo impulso? Catherine Bonnet, que não foi reconduzida, não está desanimada.

  • Eu acho – diz ela – que a luta contra a pedofilia é um assunto com que o papa se preocupa.
  • Ele estabeleceu esta comissão em 17 de dezembro, dia do seu aniversário, isso me tocou muito.
  • Agora é preciso que ele passe à ação, porque há urgência. “

Para Nicolas Senèze, correspondente de La Croix em Roma, a “mudança cultural” que o Papa Francisco quer impulsionar será necessariamente longa: “isto será levado acabo em uma ou duas gerações…”

——————-

► POR  DATAS

2014. Criação da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores presidida pelo cardeal Sean O’Malley.

4 de junho de 2016. Publicação da carta apostólica “Como uma mãe amorosa” pelo Papa Francisco. Os bispos que fecharam os olhos diante dos abusos sexuais poderão ser demitidos.

1 de março de 2017. A irlandesa Marie Collins deixa a Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores e denuncia o fato de que um tribunal encarregado de julgar os bispos negligentes não tenha sido criado.

29 de junho de 2017. O cardeal australiano George Pell, “ministro da economia” do Vaticano, é acusado de abusos sexuais.

30 de janeiro de 2018. O papa envia o bispo Scicluna para investigar no Chile sobre o bispo Juan Barros e ouvir as vítimas do padre Karadima.

17 de fevereiro de 2018. A Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores é renovada.

 

 

Agnès Chareton

 

https://www.la-croix.com/Religion/Catholicisme/Pape/Pedophilie-pape-Francois-tourmente-2018-03-05-1200918261

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>