Tempo de crepúsculo para o ‘Poderoso Chefão’ do Vaticano.

 Os casos de abuso sexual do Chile e o homem que já comandou a Cúria Romana

Robert Mickens, Roma,. 23/02/2018

Ele tem agora 90 anos de idade. E o poder pessoal que ele consolidou sistematicamente ao longo de várias décadas, atingindo seu zênite no início da década de 1990, começou a desvanecer-se.

Mas por cerca de três décadas ele era o homem no Vaticano que ninguém ousava contradizer. Até mesmo os papas com quem atuou eram cuidadosos para ter seu consentimento, devido à lealdade que inspirava a muita pessoas importantes de todos os níveis da Cúria RomanaSeu nome é Angelo Sodano, o atual decano do Colégio de Cardeais e antigo Secretário de Estado do Vaticano.

O desenrolar dos casos de abuso sexual pelo clero e seu encobrimento institucional no Chile, onde foi núncio papal de 1978 a 1988, deve encerrar o capítulo de seu longo reinado como influência no Vaticano de forma definitiva.

Mas não vai apagar seu grande impacto – nem sempre positivo – sobre a Igreja e sua estrutura institucional, às quais dedicou sua longa e prodigiosa vida na carreira de diplomata da Santa Sé.

Um incidente em que seu poder e sua influência foram particularmente determinantes aconteceu em 22 de junho de 2006.

Nesse dia, o Papa Bento XVI anunciou que

  • Sodano seria aposentado (um homem apenas cinco meses mais velho que ele)
  • e o cardeal Tarcisio Bertone, assistente de confiança da época em que o papa era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), assumiria o cargo de Secretário do Estado.

Embora a transição não fosse ocorrer antes de três meses daquela data (em 15 de setembro), foi nesse dia de verão em 2006 – dizem – que

  • Bento XVI causou uma ferida aberta e mortal ao seu próprio pontificado,
  • ao rejeitar o cardeal Sodano.

O cardeal italiano, na época com 78 anos, que era Secretário de Estado desde dezembro de 1990, havia tentado dissuadi-lo de escolher Bertone para o cargo.

Nas semanas que antecederam a aposentaria, Sodano aconselhou Bento XVI

  • a escolher um diplomata experiente,
  • coisa que Bertone, salesiano e canonista medíocre, não era.

Um dos nomes da lista de candidatos proposta pelo futuro Secretário de Estado aposentado era o arcebispo Giovanni Lajolo, o “ministro de relações exteriores” do Vaticano na época.

Lajolo era um dos aliados de confiança de Sodano e vinha da mesma região, Piemonte, no norte da Itália. Mas, ainda mais importante, Lajolo também tinha sido núncio papal na Alemanha (1995-2003) e falava a língua materna do Papa, motivo pelo qual seu cardeal-protetor acreditava que ele era uma escolha promissora que Bento XVI poderia aceitar.

 

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Cardeal Sodano com Bento XVI – Foto: Periodista digital

Mas o Papa da Baviera

  • rejeitou o conselho de Sodano
  • e insistiu na nomeação de Bertone.

Assim,

  • perdeu o apoio vital da maioria dos diplomatas da Cúria Romana no Vaticano,
  • arrastados pela influência de Angelo Sodano,
  • que alimentou a narrativa de que o Papa os havia deixado à margem ao escolher Bertone, que não era diplomata.

Apenas 14 meses depois de se tornar Bispo de Roma, Bento XVI cometeu um grande erro tático.

Daí em diante, seu pontificado

  • cambaleou de uma grande crise para outra,
  • tanto dentro do Vaticano como no cenário mundial.

Depois de quase oito anos agonizantes, ele e seu círculo minúsculo de assistentes de confiança estavam isolados. Diante de tudo isso, o já idoso teólogo e papa renunciou.

O clássico clérigo e defensor da instituição

Mas Sodano (e suas forças) sobreviveram e, no conclave de 2013, por ser decano do Colégio dos Cardeais, um de seus deveres era moderar as discussões pré-conclave e presidir a missa. Sabe-se amplamente que quando a votação começou ele já havia convencido vários outros cardeais a votar em Jorge Mario Bergoglio SJ, que hoje é o Papa Francisco.

Não se sabe ao certo se os votos determinantes para a eleição do papa argentino devem-se a Sodano, mas, ainda assim, esses números foram essenciais. E Francisco estava e continua bem ciente disso.

Ele começou seu pontificado com pleno conhecimento de queSodano ainda tinha alcance e influência consideráveis sobre o que estava acontecendo na Roma eclesiástica.

Também tinha experiência pessoal com o desejo obstinado do antigo Secretário de Estado de

  • promover e punir, principalmente na América Latina, terra natal do Papa,
  • onde, pelo menos desde os anos 70, raramente foram tomadas decisões políticas
  • e feitas nomeações a bispo sem a opinião do diplomata italiano.

E, sem dúvida, a reunião do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) de 1992, em Santo Domingo, ainda deve estar presente na memória do Papa.

Quando era bispo auxiliar recém-ordenado, ele testemunhou

  • o cardeal Sodano (juntamente com um dos seus protegidos chilenos, o futuro cardeal Jorge Medina Estévez)
  • dando ordens aos bispos
  • e (embora não com sucesso total) tentando ditar o conteúdo do documento final do encontro.

________________________

Além da Itália, sua terra natal, é provável que a América Latina seja a região mais amada por Angelo Sodano no mundo. Durante seus mais de 50 anos de serviço à Santa Sé, suas únicas viagens diplomáticas para o exterior foram para lá. Suas primeiras atribuições como sacerdote foram

  • no Equador (1961-63),
  • no Uruguai (1963-65)
  • e no Chile (1965-67).

Após outros dez anos em Roma, como Secretário de Estado, ele voltou ao Chile em 1978, ordenado para o episcopado, para atuar como núncio apostólico por mais uma década.

 

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Sodano era o Núncio no Chile e amigo pessoal do ditador, preparou este encontro não protocolar de JP II com o  Pinochet: sanguinário assassino, mas, segundo Sodano e JP II, com o “mérito” de ser anticomunista. Foto: Vida Nueva

 

Como já foi dito aqui há cerca de um mês, “mais do que qualquer outro funcionário do Vaticanoele teve papel decisivo na formação da liderança episcopal do Chile”.

  • Do surgimento do cardeal Jorge Medina (útil moeda de troca já lançada ao amigo de Medina, Joseph Ratzinger)
  • à ascensão do bispo Juan Barros (o homem envolvido no caso atual de encobrimento de abuso sexual),
  • as impressões digitais de Sodano estão por toda parte.

E isso não acabou após o término de seu mandato como núncio em Santiago.

“Quando se tornou Secretário de Estado, Sodano pôde continuar exercendo influência sobre a nomeação de bispos no Chile (e em outros lugares) como membro da Congregação dos Bispos, cargo que ocupou até 2007”.

Isso inclui a nomeação do atual núncio no país sul-americano, o arcebispo Ivo Scapolo.

O arcebispo, assim como o Cardeal Sodano,

  • é um homem com distinção na instituição.
  • E sente uma obrigação especial e um dever de fazer de tudo para defendê-la, -algo que tal clérigo vê como uma causa nobre,
  • mas que a maioria dos católicos passaram a ver como ofensivo e injusto com as vítimas sacrificais.

É muito provável, como já se sugeriu, que

  • o cardeal de 90 anos interveio no caso de Barros
  • e aconselhou o Papa Francisco a não dar ouvidos às recorrentes acusações de que o bispo havia feito vista grossa (ou pior) aos abusos sexuais cometidos pelo mentor de Barros, o antigo padre Fernando Karadima, com uma série de meninos.

Não seria nenhuma surpresa, para dizer o mínimo. O cardeal Sodano tem uma longa história de proteger “os interesses da Igreja” – enquanto instituição.

Ele foi acusado de

  • tentar burlar tentativas de desenterrar a verdade sobre o falecido cardeal de Viena Hans Hermann Groer, que o Vaticano teve de condenar por violência sexual desferida a jovens noviços beneditinos.
  • E as fortes tentativas de Sodano de proteger o fundador psicopata e moralmente corrupto dos Legionários de Cristo, Marcel Maciel, são lendárias.
  • Quem sabe quantas outras vezes ele usou seu poder e status para interromper investigações de crimes cometidos por clérigos parceiros, apenas por se preocupar com “o bem da Igreja”?

Se ele e os outros (mais provavelmente o cardeal Francisco Javier Errázuriz, antigo arcebispo de Santiago e membro do Conselho dos Cardeais do Papa) inicialmente conseguiram convencer o Papa Francisco a não prosseguir as acusações de encobrimento contra o bispo Barros, o tiro saiu pela culatra.

O arcebispo Charles Scicluna, enviado pelo Papa ao Chile para investigar as acusações, deve terminar a sua missão em breve.

O fato de ele ter sido enviado já demonstra que

  • alguém finalmente convenceu Francisco que ele havia recebido informações erradas por um pequeno grupo,
  • uma visão que contrastava com a de muitos bispos do Chile que acreditam que Barros deveria renunciar.

E agora parece que ele finalmente vai se demitir.

 

É difícil dizer o que vai acontecer com os outros jogadores deste drama que nunca deveria ter acontecido.

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  • O arcebispo Scapolo (foto: reprodução), após quase sete anos como núncio, provavelmente voltará a Roma e receberá um cargo tranquilo na Secretaria de Estado. Ele fará 65 anos neste verão e pode se aposentar antecipadamente.
  • E o cardeal Errazuriz? De todos os personagens da peça, ele já teve de reconhecer – em maior ou menor escala – que, como arcebispo de Santiago, não acreditou nas vítimas de Karadima.  não teria dado crédito às queixas contra o bispo Barros.

Na verdade, o cenário mais provável é que ele tenha sido uma das pessoas a dizer ao Papa que as queixas contra o bispo não estavam baseadas em provas e eram caluniosas.

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 Errazuriz  (foto: reprodução) já tem 84 anos. Em abril ele vai terminar seu primeiro mandato de cinco anos no Conselho de Cardeais (C9).

Devido à sua idade avançada, Francisco, convenientemente, deve conseguir justificar a substituição do cardeal do conselho papal privado.
  • Quanto a Sodano, ele ainda está em excelente forma para seus 90 anos de idade. Mas à medida que o “programa de ajuste atitudinal” do Papa continua ganhando adeptos na classe diplomática do Vaticano, especialmente através do apoio e testemunho do Secretário de Estado e cardeal Pietro Parolin, Dom Angelo torna-se uma força cada vez menos reconhecida.

Numa missa na Capela Paulina para marcar o aniversário de 90 anos do Cardeal Sodano em dezembro do ano passado, o Papa parecia sem palavras. Mas depois de alguns minutos fez a seguinte homenagem a ele:

“Vemos no cardeal o testemunho de um homem que fez muito pela Igreja, em várias situações, com alegria e com lágrimas. Mas hoje penso que talvez o maior testemunho que ele nos oferece é o de um homem eclesiasticamente disciplinado (ecclesialmente disciplinato), e isso é uma graça pela qual devemos dar graças”, disse o Papa.

Talvez o Papa Francisco possa nos explicar exatamente o que quis dizer com aquelas palavras estranhas na ocasião da demissão do cardeal Sodano do cargo de decano do Colégio dos Cardeais. É só uma questão de tempo.

 

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Robert Mickens

 

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/576393-tempo-de-crepusculo-para-o-poderoso-chefao-do-vaticano-os-casos-de-abuso-sexual-do-chile-e-o-homem-que-ja-comandou-a-curia-romana

 

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