Temer negocia venda do Aquífero Guarani para Nestlé e outras multinacionais

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Franklin Frederick 17/01/18 

Imagem: asencio.com.uy 

O Estado de São Paulo publicou ontem um artigo revelador sobre a ida do Presidente Temer, João Dória e Henrique Meirelles a Davos, na Suíça, para participarem do Fórum Econômico Mundial que começa no próximo dia 23 de janeiro.

 

​O artigo informa que:

“Na programação, o Fórum Econômico Mundial colocou na agenda o debate: “Moldando a nova narrativa do Brasil”. No dia 24 de janeiro, mesma data do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Porto Alegre (RS), o presidente Michel Temer apresenta sua agenda para 2018 em defesa da necessidade de reformas.

O debate contará ainda com

  • o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB),
  • com Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco,
  • Candido Botelho Bracher, CEO do Itaú Unibanco,
  • e Paul Bulcke, CEO da Nestlé” (grifo meu).

 

 

Esta é a única mesa redonda com a participação de Temer dentro da programação do Fórum. Chama a atenção, no entanto, que o único CEO estrangeiro a participar deste debate em que, além de Temer e Dória, os outros dois participantes são banqueiros, seja Paul Bulcke.

Faria mais sentido, dentro deste contexto, ser um representante de um banco estrangeiro, o Crédit Suisse ou o UBS, por exemplo. Mas, dentre tantas empresas e CEOs que estarão em Davos, foi justamente o CEO da Nestlé o escolhido para participar deste debate com Temer e dois grandes banqueiros privados brasileiros.

Por quê?

Para responder a esta pergunta devemos lembrar, primeiro, de um importante artigo publicado pelo jornal ‘Correio de Brasília’ no dia 22/08/2016 com o título: ‘Multinacionais querem privatizar uso da água e Temer negocia” .

O artigo informa que,

“segundo revelou um alto funcionário da Agência Nacional de Águas (ANA), em condição de anonimato (…). O Aquífero Guarani , reserva de água doce com mais de 1,2 milhão de km² , deverá constar na lista de bens públicos privatizáveis (…) As negociações com os principais conglomerados transnacionais do setor, entre elas a Nestlé e a Coca-Cola, seguem ‘a passos largos’.”

É importante lembrar também que, na data deste artigo, a Presidente eleita Dilma Roussef ainda enfrentava o julgamento do processo de impeachment, mas Temer já atuava como Presidente ‘de fato’, ou seja, mesmo antes do golpe consumado, já se negociava a privatização dos recursos naturais brasileiros, a verdadeira razão por trás do golpe.

Porém, têm-se escrito e falado mais sobre o acesso ao petróleo brasileiro, privatização da Petrobrás e de outras grandes empresas públicas como razões para o golpe, deixando de lado um outro recurso natural brasileiro enormemente cobiçado pelas multinacionais por trás da onda conservadora neoliberal que toma o planeta: a água.

A participação de Paul Bulcke num debate com o Presidente Temer em Davos entrega o jogo:

  • não é o CEO da Shell ou de qualquer outra grande empresa petroleira que estará sentado ao lado do Presidente do Brasil na vitrine do Fórum Econômico Mundial na Suíça,
  • mas o CEO da Nestlé.

A mensagem não podia ser mais clara.

Dentro do que se poderia chamar de ‘divisão do trabalho’ na construção da ideologia e das estratégias do capitalismo internacional, a multinacional Nestlé tem um papel fundamental.

Peter Brabeck, antecessor de Paul Bulcke, tomou para si e para a Nestlé parte da tarefa de

  • legitimar o capitalismo neoliberal
  • através de várias iniciativas e projetos,
  • dirigindo um poderoso lobby do big business internacional através de uma ampla rede que se estende por vários países e instituições.

O Water Resources Group – WRG – que reúne

  • a Coca-cola,
  • a Pepsi
  • e o Banco Mundial

com o objetivo de privatizar a água em todo o mundo através de parcerias público-privadas, para citar um exemplo, foi criado por iniciativa da Nestlé.

Paul Bulcke recentemente substituiu Peter Brabeck dentro do ‘Governance Body’ do WRG.

 

O programa da Nestlé ‘Creating Shared Value realiza anualmente um importante evento internacional, sempre em países diferentes,

  • com a participação de governos,
  • altos funcionários de instituições como a ONU e o Banco Mundial,
  • com uma visão estratégica muito bem planejada.

Em 2013 o Creating Shared Value Fórum aconteceu na Colômbia com o claro propósito de promover a Colômbia como país ‘modelo’ do capitalismo latino-americano, em oposição à Venezuela e aos países da ALBA.

Em 2011 o Creating Shared Value ocorreu em Washington em parceria  reveladora com o ‘Atlantic Council’, uma associação do big business internacional, principalmente dos EUA, em torno da OTAN, a aliança militar ocidental.

  • Por que uma empresa multinacional produtora de comida para bebês, chocolate e água engarrafada
  • procuraria uma parceria com o ‘Atlantic Council’
  • e, através deste, com a OTAN?

Uma resposta muito simples se encontra dentro do próprio programa deste evento: oportunidades de negócios relativos

  • à nutrição,
  • água
  • e desenvolvimento rural na África e América Latina.

Traduzindo a linguagem orwelliana do big business contemporâneo, este programa informa que

  • ‘oportunidades de negócio’,
  • ou seja, recursos naturais a serem tomados pelas grandes empresas, se encontram em vastas quantidades na África e na América Latina.

E caso os países desses continentes não queiram disponibilizar estes recursos para o capital internacional, é sempre conveniente ter o poder militar da OTAN para fazê-los mudar de idéia ou de política. E recentemente, não por coincidência, a Colômbia e a OTAN entraram em um acordo de parceria

Esta influência da Nestlé é tão grande que mesmo dentro do Fórum Econômico Mundial um dos temas escolhidos para ser discutido pelos vários participantes internacionais é justamente ‘Creating Shared Values in a Fractured World’, uma clara alusão ao programa da Nestlé.

A conferência de imprensa que o Presidente Temer realizará no Fórum no dia 24, aliás, esta justamente dentro deste tema reforçando ainda mais

  • a ligação de Temer e das atuais políticas de privatização de seu governo
  • com o discurso desenvolvido e promovido pela Nestlé.

Em março próximo o Brasil vai sediar o Fórum Mundial da Água em Brasília. A Nestlé e o Water Resources Group estarão lá, já que este é o Fórum das grandes empresas privadas. As empresas públicas de água brasileiras e ainda mais as águas subterrâneas  e as fontes de água mineral são os  ‘alvos’ que esta proximidade entre Temer e Paul Bulcke indicam. A privatização destas empresas e recursos naturais será naturalmente apresentada como a ‘solução’ dentro do Fórum Mundial da Água.

Espero que o Fórum Mundial ALTERNATIVO da Água que se organiza também em março como resposta da sociedade civil às políticas neoliberais, reserve um bom tempo e espaço para trocar informações e analisar as diversas práticas da Nestlé no mundo. Trata-se de uma questão fundamental.

 

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Franklin Frederick

Fonte: ‘https://jornalggn.com.br/noticia/forum-economico-mundial-temer-entrega-o-jogo-e-a-agua-por-franklin-frederick

 

 

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1 comment to Temer negocia venda do Aquífero Guarani para Nestlé e outras multinacionais

  • Ednaldo dos Santos Costa

    É notória a postura deste governo não eleito de conduzir uma política entreguista e baseada em beneficiar setores de alto poder econômico (banqueiros, petroleiros e outras multinacionais). É um presidente que não pensa no bem comum de seus governados, principalmente dos mais pobres. A menos de 12 meses do fim de seu mandato, ele não mede esforços para atender aos interesses das grandes corporações e assim vai instrumentalizando o Estado. Esperamos que em 2019 sobre uma sucata de Brasil em condições de ainda ser consertada.

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