Dom Antonio Manuel, primeiro embaixador africano em Roma, em 1608

Uma curiosidade histórica pouco conhecida

Barcos portugueses do século XVI - Fonte - en.wikipedia.org

Eyoum Nganguè, 03/02/18 

Foto: Barcos portugueses. século XVI –en.wikipedia.org

“Para deixar as costas do reino do Kongo, ele embarca no único galeão disponível: um navio negreiro que, antes de aportar a Lisboa, vai primeiro deixar a sua carga sórdida no Brasil”

Tradução: Orlando Almeida

 

[MAGAZINE PÈLERIN]

Em 3 de janeiro de 1608, após uma périplo de mais de quatro anos, Dom Antonio Manuel, o embaixador de Kongo pôde finalmente apresentar as suas credenciais ao Papa Paulo V. Ele tornou-se o primeiro embaixador africano junto à  Santa Sé .

A história começa em 17 de agosto do ano de graça 1604, em Mbanza Kongo, capital do reino do Kongo – Estado cujo território está hoje repartido entre a República Democrática do Congo, o Congo-Brazzaville, Angola e o Gabão.

Nsaku “marquês” de Vunda, com cerca de 33 anos de idade, ordenado  padre com o nome de Dom Antonio Manuel, recebe do Mani Kongo Álvaro II – o monarca local, seu tio – as credenciais que ele está encarregado de apresentar ao Papa, em Roma, para consolidar o catolicismo no seu país.

Durante mais de um século, uma parte da população e a dinastia real deste país da África central foram receptivos à mensagem do Evangelho trazida pelos missionários portugueses desde 1490.

  • Igrejas foram construídas,
  • padres foram ordenados.
  • Os letrados congoleses usam prenomes e títulos portugueses.

 

Uma viagem a bordo de um navio negreiro

Assim, alguns dias depois, à frente de uma delegação de 26 pessoas, Nsaku Ne Vunda, emissário do Mani Kongo, faz-se ao mar. O seu objetivo: chegar a Portugal de barco, depois alcançar Roma por terra .

Esta odisseia não será uma sinecura, conta o escritor Wilfried N’Sondé,  autor de uma versão romanceada desta viagem cheia de obstáculos (1).

“Para deixar as costas do reino do Kongo, ele embarca no único galeão disponível: um navio negreiro que, antes de aportar a Lisboa, vai primeiro deixar a sua carga sórdida no Brasil”.

Durante esta dupla travessia do Atlântico, ele pôde ver de perto a ignomínia que era o tráfico dos Negros, e passou por tempestades e ataques de corsários…

 

Sequestrado por vários meses em Lisboa

No final de 1606, a delegação finalmente desembarca em Lisboa, fracassada. Nem a Espanha nem Portugal reconhecem a soberania do Kongo de então. As potências ibéricas evocam o princípio do padroado – a prerrogativa pela qual Roma lhes concede a administração dos territórios descobertos e evangelizados –  para negar ao Kongo o direito de manter relações diplomáticas diretas com a Santa Sé.

Sequestrado durante meses em Lisboa, depois em Madrid, Dom Antonio Manuel não desiste. Graças a uma troca de cartas com o Vaticano, ele defende a causa do seu país. Por fim, “a congregação dos ritos do Vaticano, depois de ter examinado a questão, decide que o enviado do Mani Kongo pode ser recebido tão solenemente como os embaixadores dos outros reis” – pode ler-se numa nota conservada no Instituto Real Colonial  Belga.

Os portugueses pertante o Rei do Congo - Fonte - en.wikipedia.org
Os portugueses perante o Rei do CongoFonte – en.wikipedia.org

 

Recebido pelo Papa Paulo V

Com a ajuda material da Santa Sé, Dom Antonio Manuel, doente e exausto, pode finalmente pisar na costa italiana em 20 de dezembro de 1607, acompanhado pela sua delegação agora reduzida a cinco membros, após quatro anos de aventuras.

Ele chega a Roma na quinta-feira, 3 de janeiro de 1608, e o Papa Paulo V, que lhe havia enviado  previamente  os seus melhores médicos, desloca-se  pessoalmente para encontrá-lo.

Aquele do qual Roma inteira aponta certa semelhança com o Rei mago Melchior expira em 6 de janeiro de 1608, dia da Epifania, com a satisfação de ter cumprido a sua missão.

Depois de funerais dignos de um legado, ele é sepultado na basílica românica de Santa Maria Maggiore. “As suas tribulações revelam uma parte desconhecida da história da evangelização da África” – conclui Wilfried N’Sondé.

 

(1) Un océan, deux mers, trois continents [Um oceano, dois mares, três continentes],  Éd. Actes Sud, 272 p. ; 20 €. –   https://www.actes-sud.fr/catalogue/litterature/un-ocean-deux-mers-trois-continents

 

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Eyoum Nganguè

Fonte: https://www.la-croix.com/Religion/Catholicisme/Monde/Dom-Antonio-Manuel-premier-ambassadeur-africain-Rome-2018-02-03-1200910967

 

 

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Nota da Redação:

O autor não faz menção, ou talvez desconheça um fato importante: nessa época, Portugal estava sob o domínio do rei de Castela, que durou de 1580 a 1640. Os Portugueses  evangelizaram o Reino do Congo desde o séc. XV e aí fundaram e estruturam a Igreja católica, com padres e bispos africanos. Assim fica difícil acreditar que os portugueses prenderam o padre-embaixador em Lisboa.

 

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