Desafios para uma Igreja Semper Renovanda

 Abílio Louro de Cravalho – 30/01/18 

Card. Ravasi. Foto: Folhadodomingo

Desafios para uma Igreja ‘Semper Renovanda’ – Secularização, Diálogo, Discernimento é o tema geral das jornadas de atualização do clero das dioceses do Sul – Évora, Setúbal, Beja e Algarve – com cerca de uma centena de participantes, que o Instituto Superior de Teologia de Évora (ISTE) está a organizar já em 11.ª edição anual (desde 2008), desta feita, em Albufeira, de 29 de janeiro a 1 de fevereiro.

Entre os oradores convidados, conta-se o Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício da Cultura, que proferirá,

  • no dia 30 de janeiro a conferência “Diálogo: a nova postura de uma Igreja em saída
  • e, no dia 31, a conferência “A evangelização da Cultura: desafio e tarefa ingente”.

Para lá deste responsável da Santa Sé, as jornadas de formação do clero do Sul contarão ainda com a intervenção do teólogo Juan Pablo García, do investigador Sérgio Ribeiro Pinto e do antigo comissário europeu João de Deus Pinheiro, entre outros.

 

O Instituto Superior de Teologia de Évora volta a organizar a actualização do Clero das Dioceses do Sul (Évora, Setúbal, Beja e Algarve).

Foto: arquidiocese de Évora – Notável a idade avançada do clero da foto.

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Assim, o vasto programa é preenchido pelas seguintes rubricas;

No início da tarde do dia 29 de janeiro, teve lugar o acolhimento aos participantes e a sessão de abertura, a que se seguiu, pelas 16 horas,

  • a conferência Vaticano II, sinal de uma Igreja aggiornata, num Mundo em mutação”, por Juan Pablo Garcia, religioso da Ordem Trinitária e professor da Universidade Pontifícia de Salamanca, após o que se procedeu ao trabalho de grupos, seguido de diálogo com o conferencista. E o primeiro dia finalizou com a oração litúrgica de Vésperas.
  • O dia 30 principiou com a oração litúrgica de Laudes. Às 9,30 horas foi proferida a conferência As múltiplas raízes da Secularização nos países de tradição religiosa cristã”, por Sérgio Pinto, investigador do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa.
  • Às 11,30 horas, foi a conferência Os desafios que a Europa e o projeto europeu nos colocam, por João de Deus Pinheiro, antigo Ministro da Educação, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros e antigo Comissário Europeu.
  • Às 15 horas, o Cardeal Gianfranco Ravasi proferiu a conferência Diálogo: a nova postura de uma Igreja em saída. Procedeu-se ao trabalho de grupos, seguido de diálogo com o conferencista. E os trabalhos do segundo dia terminaram com a oração litúrgica de Vésperas e a celebração da Eucaristia.
  • No dia 31, começar-se-á com a oração litúrgica de Laudes. Às 9h30, será proferida a segunda conferência do Cardeal Gianfranco Ravasi, esta em torno do temaA evangelização da Cultura: desafio e tarefa ingente”.

À tarde, haverá duas mesas redondas sobre o tema “Diálogo em várias frentes”:

A primeira, Diálogo em várias frentes I, abordará

  • as questões da ética e ciências da vida, com os especialistas Michel (fundador e diretor do Instituto de Estudos Fenomenológicos, Ontológicos e Axiológicos, hoje Centro de Ética e Ontologia, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa) e Isabel Renaud (professora catedrática da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa),
  • e do diálogo inter-religioso, com Susana Mateus, investigadora do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa.

A segunda, “Diálogo em várias frentes II, incidirá sobre as dimensões dos cristãos na política, com José Filipe Pinto, investigador e coordenador do Centro de Investigação em Ciência Política, Relações Internacionais e Segurança, e da Educação e Ensino, com o antigo Ministro da Educação e ex-Presidente do Conselho Nacional de Educação, David Justino.

E o terceiro dia terminará com a oração litúrgica de Vésperas e a celebração da Eucaristia.

A 1 de fevereiro, às 7,30 horas, recitar-se-á a oração litúrgica de Laudes e celebrar-se-á a Eucaristia.

  • Às 9,30 horas, desenrola-se o painel Experiências positivas de diálogo e evangelização, numa sociedade multicultural, multirreligiosa e secularizada”, constituído por representantes das dioceses envolvidas.
  • E o encerramento dos trabalhos está previsto para as 12,30 horas.

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Sobre a participação do Presidente do Conselho Pontifício da Cultura – um dos oradores do evento, que vai sublinhar aos participantes a importância do “diálogo” enquanto “postura de uma Igreja” que quer estar permanentemente “em saída”, como refere o Papa Francisco”, e a “evangelização da cultura” como um dos desafios mais “ingentes” da Igreja Católica na atualidade – disse à Rádio Renascença o cónego José Morais Palos, Presidente do ISTE e responsável pela organização das jornadas:

É uma das pessoas mais cultas da Igreja […] Vem-nos falar como a Igreja se pode caraterizar e como esta evangelização da cultura é sempre um desafio.”.

Quanto às Jornadas, refere que, desde 2008, “nestes moldes, procuramos promover o estudo, a reflexão, a celebração e o convívio entre os participantes”, acentuando a importância dos temas e a necessidade de “corresponderem, quer do ponto de vista teológico, quer do ponto de vista pastoral, a desafios que se colocam à Igreja” e que podem ser úteis à atividade pastoral nesta sociedade secularizada.

Advertindo que “ou nos situamos neste mundo secularizado e procuramos dialogar com ele nas suas diferentes manifestações ou, então, fechamo-nos no nosso castelo”. questiona: “Mas, depois, onde está o desenvolvimento da pastoral e a evangelização?”.

Realçando a importância de se refletir sobre um tema desafiante que postula “avaliação e muito diálogo”, o Presidente do ISTE acredita que “há muitas pontes” e que é possível a Igreja posicionar-se “sem abdicar da nossa matriz como pessoas de fé e que procuram levar Cristo a todos os ambientes.”

E sublinha que, da História à Política, da situação de Portugal na Europa à Edução, passando pelo Diálogo Inter-religioso, os temas são variados e reúnem especialistas diversos que se debruçam sobre “temas que se colocam de forma diferente e com os quais a Igreja tem de estabelecer o diálogo”.

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Para já, é de destacar o que o Padre Juan Pablo García disse ao clero do sul do país, sublinhando que a Igreja está a viver com o Papa Francisco uma nova fase do acolhimento às diretrizes emanadas do Concílio Vaticano II (1962-1965).

O sacerdote da Ordem da Santíssima Trindade explicou que esta etapa, vivida na atual “cultura da pós-verdade”, se carateriza, sobretudo, pelo “regresso ao Evangelho” e sustentou que

“é uma releitura do evangelho à luz da cultura contemporânea”, considerando que “o concílio continua a ser um desafio para a igreja atual” no momento em que vivemos o período da “pós-verdade”.

Com efeito, segundo o ilustre conferencista – que lamentou ser esta última designação do tempo atual caraterizada pelo insulto e por “difamar com mentiras” – “a Igreja esteve implicada com a modernidade, com a pós-modernidade e hoje diríamos também com as respostas à cultura da pós-verdade porque esta é a palavra-chave do ano 2017”.

O teólogo, que abordou o tema “Vaticano II, sinal de uma Igreja aggiornata, num Mundo em mutação”, disse que o Papa Francisco, apesar de não ter participado no concílio, “fá-lo visível” “a partir da sua vida e do seu modo de ser pastor”.

Considerando que a crise atual é também a do homem “porque neste caso é o homem que está doente”, o teólogo disse que “o acolhimento ao Concílio Vaticano II e a sua atualidade neste mundo em transformação passa por aceitar que vivemos em crise, não da Igreja mas de Deus”.

Neste sentido, disse ser preciso “reconhecer a debilidade da fé de muitos crentes”, da Igreja e das paróquias, pois “hoje vivemos, não uma crise existencial, mas uma crise eclesial, uma crise de Deus e uma debilitação da vida teologal dos crentes”, pelo que entende ser “muito importante” introduzir o tema de Deus na sociedade atual. Para isso, defendeu a criação

  • de “escolas de oração”,
  • de “lugares onde se faça a experiência de Deus através da palavra”
  • e apelou a “uma espiritualidade forte”.

O orador aludiu à necessidade de “recuperar a sinodalidade”, lembrando que o termo

  • “significa caminhar juntos”,
  • ou seja, “com e ao lado uns dos outros”
  • e “não uns em cima e outros em baixo, de forma piramidal”.

E frisou que “a sinodalidade é o contrário de uma Igreja piramidal”, garantindo que o modelo sinodal supera o “problema do clericalismo na Igreja”.

Por outro lado, Pablo García considerou que esta fase se carateriza também por levar à prática as “exigências do Batismo e da Eucaristia” que induzem a Igreja a “passar de uma vida pastoral de manutenção a uma pastoral missionária”, indo às periferias como pretende o Papa. E advertiu para o facto de a Igreja se ter convertido “ela mesma numa periferia” e não poder “evangelizar se não se deixar evangelizar primeiro”.

Neste âmbito, alertou para a necessidade de preparação. Com efeito, “o Papa atual insistiu que não quer ‘príncipes’ nem carreiristas na Igreja, mas que a Igreja necessita de pastores com cheiro a ovelha”. Porém, o orador acrescentou: “com cheiro a biblioteca, porque sem estudo o cheiro a ovelha não chega”.

Considerou, assim, que “temos também de parar para estudar”, dado que, “para podermos ir às periferias existenciais e até periféricas, não podemos ir de qualquer maneira”.

O conferencista referiu ainda a importância do “pluralismo de eclesiologias”, recordando que “o contrário da pluralidade é a uniformidade”. Ora, como observou, importa “manter a unidade” nesta pluralidade, onde se requer a “corresponsabilidade de todos” e o predomínio da caridade”, tomando-se consciência de que hoje vivemos na “sociedade do descarte e dos invisíveis”.

E sustentou que a globalização que interessava era a que nos faz “mais irmãos” e não a da busca desenfreada do dinheiro e do poder.

O teólogo destacou ainda a “importância do ecumenismo para a evangelização”, advertindo que a “falta da unidade” entre cristãos “é um obstáculo” àquele desígnio. Verificando que se está a “matar cristãos porque acreditam em Cristo”, defendeu que “o martírio será o futuro do ecumenismo”.

Na verdade, “há um ecumenismo de sangue e um diálogo inter-religioso de sangue”, como assegurou, frisando haver “irmãos cristãos que dão a vida por pessoas que não são cristãs”. Neste sentido, disse que “continua a ser muito importante o diálogo com o mundo”, mormente ao nível inter-religioso.

Relevando a “importância do laicado” na Igreja e no mundo, desafiou a “superar todo o individualismo da fé e a recuperar a dimensão comunitária da fé”. E terminou lamentando que não haja “tempo para as perguntas existenciais de hoje” e exortando a que provoquemos “grandes interrogações às pessoas de hoje”.

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A insistência

  • no ser e papel do laicado,
  • na unidade pela diversidade, regada pelo diálogo ecuménico e inter-religioso;
  • a pertinência da valorização da sinodalidade;
  • o regresso ao Evangelho e ao desempoeiramento das doutrinas e das práticas;
  • a perspetiva da Igreja missionária em saída, evangelizada e evangelizadora

– tudo isto são pontos a ter em conta na formação contínua dos pastores que se desejam com cheiro a ovelhas e a biblioteca.

A proximidade e o profetismo não dispensam o estudo; e o estudo, animado pela fé pessoal e comunitária que se faz oração, esclarece e reforça as vias da proximidade e do profetismo.

 

 

Abílio Louro de Carvalho

Fonte: http://ideiaspoligraficas.blogspot.com.br/2018/01/desafios-para-uma-igreja-semper.html 

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