Viva o Chile iconoclasta!

(Por ocasião da viagem do Papa Francisco ao Chile)

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Eduardo Hoornaert– 21/01/2017
Foto: Último  Segundo/iG
 
Em torno da recente viagem do Papa Francisco a Chile se registraram fatos que, pela primeira vez com tanta clareza nesse pontificado, revelam um movimento pendular em relação de sua imagem junto à opinião pública.

Setores importantes da Igreja Chilena se  manifestaram críticos diante de posicionamentos assumidos pela hierarquia do país e endossados pelo Papa durante essa visita, como manifestaram diversos fatos que apareceram nos noticiários.

No dia 03 de janeiro, poucos dias antes da planejada viagem, o Centro Ecumênico Diego de Medellin tentou organizar um ‘Pacto de Conversión Pastoral’ entre a hierarquia e o ‘pueblo de Dios’.  Sem aparente resultado. Nos dias anteriores à visita ocorreram cinco atentados em diversas igrejas paroquiais, em sinal de protesto contra essa visita, e ainda três durante a visita.

No dia anterior à chegada do Papa houve ‘La Marcha de los Pobres’, abortada pela polícia. Diversas vozes se levantaram, contestando a presença do Bispo Barros, presumido ‘encobridor de pedofilia’, na Missa Campal celebrada pelo Papa no primeiro dia após sua chegada.

Nessas circunstâncias ocorreu uma certa confusão com carabineiros na hora em que manifestantes contrários à presença daquele Bispo foram impedidos a entrar no Parque O’Higgings, fazendo com que a viúva do Ex-Presidente Eduardo Frei desabafasse: ‘não confio naquele Papa’.

Estudantes da Universidade Católica de Santiago endereçaram uma Carta Aberta ao Papa, na qual o acusaram de praticar uma ‘dupla moral’.

Circulou a palavra do Padre  Mariano Puga, respeitado ‘cura obrero’ de 87 anos, que por ocasião da Missa Campal declarou à imprensa, sem rodeios: ‘el papa se equivocó’. A esses acontecimentos há de se acrescentar a repetição de manifestações, desde muitos anos, por parte de movimentos como o

  • Somos Iglesia’ (setor chileno)
  • ou o ‘Centro Ecumênico Diego de Medellin’,

a favor de uma democratização da Igreja Católica.

Não me parece indicado passar por cima desses eventos sem comentá-los, como se não estivessem acontecidos. Não será que eles contêm germes do futuro, não só em relação à Igreja Católica no Chile, mas no tocante à Igreja Católica Universal?
Não se esqueça que o Chile hoje se manifesta como
  • o país, na América Latina, onde as instituições democráticas se apresentam relativamente mais sólidas que nos demais.
  • É ao mesmo tempo, o país menos ‘católico’ do continente, já que 31 % de sua população se declara ‘sem religião’. Tudo isso merece ser avaliado de modo mais isento possível de prejulgamentos.

Do mesmo modo, uma avaliação do comportamento do Papa durante a visita ao Chile

  • não deve ser interpretada como uma rejeição global de seu modo de liderar a Igreja Católica,
  • mas como a percepção de ‘sinais dos tempos’, sinais indicativos do futuro.
Para ele, não deve ter sido fácil ouvir, durante sua visita à Arquidiocese de Concepción, no dia 17 de janeiro pp., as duras palavras que lhe foram dirigidas por representantes das comunidades Mapuche (habitantes originários da região).
Eles lhe deixaram claro que
  • esperavam, por parte da Igreja Católica, algo mais que palavras bonitas.
  • Esperavam a devolução de terrenos ancestrais hoje de propriedade da Arquidiocese de Concepción: ‘convidamos a Igreja Católica e a sua autoridade máxima a devolverem sem condições as terras usurpadas do povo Mapuche’.

Além disso, exortaram o Papa no sentido de

‘antes de pronunciar palavras de cortesia para com o nosso povo e de falar em paz, dar o exemplo de como resolver politicamente o conflito territorial existente no Chile, entre o Estado e o Povo Mapuche’.

O Papa ficou em silêncio.

 Mas o caso em que ele ficou ‘embrulhado’ mesmo foi ocasionado pela atitude assumida pela hierarquia católica do país frente ao ‘reino pedófilo’ criado pelo sacerdote Fernando Karadima na Paróquia El Bosque, situada num dos bairros mais elegantes de Santiago.

O Papa

  • não conseguiu se desenredar
  • e chegou a dizer, asperamente, em Iquique, já de passagem para o Peru, que as suspeitas que pesam sobre o Bispo Barros no sentido de ele ser participante de tal ‘reino’ e ‘encobridor de pedofilia’, que ‘todo es calumnia. Está claro?’.

Uma reação nada feliz, pois fechou a porta para uma solução negociada da questão, na linha da democracia. E, quando uma das vítimas de Karadima ousou falar em ‘crime de lesa-humanidade’ para qualificar o que tinha sofrido nas mãos do sacerdote, suas palavras não caíram bem em meio eclesiástico.

Ainda durante a presença do Papa em Santiago, na última hora, se improvisou um encontro do Papa com vítimas dos referidos abusos. Mas os que falaram à imprensa e outros meios de comunicação social não foram convidados.

 

Escrevo isso para lançar lama na reputação do Papa?  Meu intento é outro. Deixem-me explicar o que penso.

Um dos fenômenos mais interessantes e instrutivos da história consiste em sua movimentação pendular.

  • Verifica-se na história que, quando aparece uma figura que impressiona muita gente, logo se verifica um movimento de exaltação dela, o que pode assumir dimensões desproporcionais.
  • Aparecem ‘iconólatras’ (do grego: adoradores de imagens), que tendem a acreditar que só ‘grandes figuras fazem história’ e que se trata, pois, de seguir fielmente seus passos, incondicionalmente.

Mas a mesma história registra, nesse momento,

  • a aparição de ‘iconoclastas’ (do grego: os que quebram imagens),
  • ou seja, de uma movimentação que tende a reduzir o impacto de tais ‘grandes figuras’ sobre o acontecer histórico, dando margem iniciativas emergentes da base da sociedade.

A tensão entre iconólatras e iconoclastas é um fenômeno saudável, pois ela nos lembra que não são só os ‘grandes personagens’ que fazem a história, mas que o grande ator da história é o ‘fogo de baixo’ (segundo uma feliz definição de Marcelo Barros). O líder pode atiçar o fogo, soprar e reanimar um fogo meio apagado, mas ele não ‘faz história’. 

A movimentação pendular entre iconólatras e iconoclastas evita,

  • de um lado, a criação imaginária de ídolos salvadores
  • e, de outro lado, a demonização de forças contrárias.

Os dois termos gregos, que uso aqui, provêm dos tempos do Império Cristão Bizantino.

  • Monges fabricantes de ícones (imagens sagradas), frequentemente acometidos de ‘iconomania’ (paixão exagerada por imagens),
  • tiveram de enfrentar, em certos casos durante séculos, hordas de monges iconoclastas que percorriam os santuários a quebrar imagens.

Era uma violenta guerra religiosa. As mesmas tensões se verificaram, embora em escala menor, no final do Idade Média europeia, com a aparição do protestantismo. Aqui temos uma lição importante da história: as coisas correm bem quando se evita tanto a iconolatria como a demonização, ou seja, quando se consegue navegar em meio a inevitáveis conflitos sem chegar a confrontos violentos ou a tentativas de aniquilar pensamentos divergentes.

Nesse sentido há de se lamentar a recusa, por parte da alta hierarquia da Igreja Católica no Chile,
  • em discutir opiniões
  • e, em vez disso, se limitar a emitir ‘verdades’.

Há de se lamentar que, em nenhum momento, ao longo do processo Karadima, que já se protela desde 2011, a autoridade papal tenha tomado distância diante do posicionamento assumida por essa alta hierarquia.

Como apontam os estudantes da Universidade Católica, aqui aparecem sinais de uma ‘dupla moral’.  Ao mesmo tempo em que o Papa fala resoluta e energicamente em

  • diálogo,
  • troca de opiniões,
  • superação de conflitos por meio de encontros,

ele não se desvencilha de atitudes pouco dialogantes, assumidas por hierarquias locais.

Não há como minimizar a gravidade do crime da pedofilia. Ele destrói, em muitos casos, inteiramente a personalidade, desorienta a vida.

  • Não basta falar em ‘crime de lesa-humanidade’ em termos de política internacional,
  • há de ser considerar que não há, nesta vida, nada mais respeitável que a honra pessoal, o corpo sagrado, intocado, respeitado.

A vítima de pedofilia não consegue mais se desprender de seu corpo,

  • ‘sujado’ para sempre,
  • humilhado para sempre.

Quando ela consegue se recuperar, fica a vergonha e, muitas vezes, a perda de sentido da vida. O Papa sabe disso perfeitamente e é nesse particular que ele demonstra não gozar da liberdade de ação que suas palavras fazem supor.

Isso nos lembra o que todos sabemos:  

o papado histórico é uma criação de um sistema burocrático montado séculos atrás, embora os papas deem a impressão de estar fora desse sistema.

A grande fraqueza desse sistema é que ele tem de recorrer a ‘verdades eternas’ para poder se sustentar.

Foge da discussão como o diabo da cruz e, no afã de não discutir, recorre historicamente a diversos métodos de intimidação,

  • caça a hereges,
  • inquisição,
  • queima pública de figuras contestantes,
  • repressão direta
  • e principalmente montagem de uma propaganda maciça, durante séculos.

Dentro desse contexto há de se valorizar, sem dúvida,

  • a ousadia do Papa em visitar o pais menos religioso da América Latina
  • e de suscitar emoções nem sempre expressas de modo correto (como costuma acontecer com emoções).

Por isso faço questão de deixar claro que

  • não escrevo este meu comentário da recente viagem do Papa Francisco no sentido de prejulgar acerca de seus comportamentos,
  • mas porque me parece importante chamar a atenção para algumas contradições que costumam passar despercebidas, mas que merecem ser devidamente analisadas.

Provocar uma reflexão acerca dos limites de ação impostos à Igreja Católica nos tempos que estamos atravessando me parece algo importante nos nossos dias. Sendo a Igreja uma estrutura ‘de longa duração’, ela corre o perigo de não considerar devidamente

  • os ditames dos tempos que passam,
  • das mentalidades que mudam,
  • dos condicionamentos que se alteram.

Ela confia demasiadamente no ‘peso de sua história’ e com isso pode perder o trem da história. O ditado

  • ‘mole sua stat’ (o peso da história faz a Igreja ficar em pé)
  • ou aquele outro ‘stat crux dum volvitur mundus’ (o mundo gira, a cruz fica)

não podem nortear a Igreja para sempre.

Passou o tempo em que a impressão de eternidade e imutabilidade (atributos de Deus), causada pela Igreja, norteava os comportamentos.

Hoje, um número crescente de analistas dos tempos que vivenciamos falam da falta de integração entre

  • o que os sistemas (políticos, religiosos, econômicos, sociais) atualmente operam
  • e o que a humanidade realmente precisa.

É nesse ‘interregno’ entre

  • um passado que já não satisfaz mais
  • e um futuro que demora a aparecer, como comentou genialmente Antônio Gramsci,

que podem aparecer ‘monstros’.

É para evitar o aparecimento desses monstros que o balanço entre ‘iconólatras’ e ‘iconoclastas’ pode ser saudável. Constatamos, de qualquer modo, que o velho ditado ‘Roma locuta, causa finita’ (Roma falou, encerrou-se a discussão) parece que não vale mais em diversos setores da Igreja Católica no Chile. Isso não é positivo?

 

 

Eduardo Hoornaert

[http://eduardohoornaert.blogspot.com.br/2018/01/viva-o-chile-iconoclasta.html

 

 

 

 

 

Eduardo Hoornaert

Fonte:

2 comments to Viva o Chile iconoclasta!

  • oscar varela

    1- HECHOS
    * por primera vez con tanta claridad en este pontificado, revelan un movimiento pendular en relación de su imagen ante la opinión pública.
    * pocos días antes de la planeada gira, el Centro Ecuménico Diego de Medellín intentó organizar un ‘Pacto de Conversión Pastoral’ entre la jerarquía y el pueblo de Dios. Sin aparente resultado.
    * en los días anteriores a la visita se produjeron cinco atentados en diversas iglesias parroquiales, en señal de protesta contra esa visita, y tres durante la visita.
    * el día anterior a la llegada del Papa hubo ‘La Marcha de los Pobres’, abortada por la policía.
    * varias voces se levantaron, contestando la presencia del Obispo Barros, presumido ‘encubridor de pedofilia’, en la Misa Campal celebrada por el Papa el primer día después de su llegada.
    * studiantes de la Universidad Católica de Santiago dirigieron una carta abierta al Papa, en la que le acusaron de practicar una doble moral.
    * en la Misa Campal declaró a la prensa, sin rodeos: ‘el papa se equivocó’.
    * representantes de las comunidades Mapuche (habitantes originarios de la región) le dejaron claro que esperaban, por parte de la Iglesia Católica, algo más que palabras bonitas. Esperaban la devolución de terrenos ancestrales hoy de propiedad de la Arquidiocesis de Concepción.
    ……………………..
    2- LECCIÓN: movimiento pendular de la Historia
    * Uno de los fenómenos más interesantes e instructivos de la historia consiste en su movimiento pendular. Se verifica en la historia que, cuando aparece una figura que impresiona a mucha gente, pronto se verifica un movimiento de exaltación de ella, lo que puede asumir dimensiones desproporcionales.
    – Aparecen ‘iconolatras’ (adoradores de imágenes), que tienden a creer que sólo ‘grandes figuras hacen historia’ y que se trata, pues, de seguir fielmente sus pasos, incondicionalmente.
    – Pero en ese momento también aparecen los ‘iconoclastas’ (los que rompen imágenes), un movimiento que tiende a reducir el impacto de tales grandes figuras sobre el acontecer histórico, dando margen iniciativas emergentes de la base de la sociedad.
    – La tensión entre iconolatras y iconoclastas es un fenómeno saludable, pues nos recuerda que no son sólo los ‘grandes personajes’ que hacen la historia, pero que el gran actor de la historia es el ‘fuego de abajo’ (según una feliz definición de Marcelo Barros).
    ……………….
    3- EL PAPADO
    * el papado histórico es una creación de un sistema burocrático montado siglos atrás, aunque los papas den la impresión de estar fuera de ese sistema. La gran debilidad de este sistema es que tiene que recurrir a las verdades eternas para poder sostener.
    * Pasó el tiempo en que la impresión de eternidad e inmutabilidad (atributos de Dios), causada por la Iglesia, orientaba los comportamientos. Hoy, un número creciente de analistas de los tiempos que vivimos hablan de la falta de integración entre lo que los sistemas (políticos, religiosos, económicos, sociales) actualmente operan lo que la humanidad realmente necesita.
    * Es en ese ‘interregno’ entre un pasado que ya no satisface más y un futuro que demora a aparecer, como comentó genialmente Antonio Gramsci, que pueden aparecer ‘monstruos’. Es para evitar la aparición de esos monstruos que el balance entre ‘iconolatras’ e ‘iconoclastas’ puede ser saludable.
    * Constatamos que el viejo dictado ‘Roma locuta, causa finita’ (Roma habló, se terminó la discusión) parece que no vale más en diversos sectores de la Iglesia Católica en Chile. ¿Eso no es positivo?

  • Sandro Vespasiani

    Se pudesse escolher um próximo pai, escolheria Eduardo!

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