As trapalhadas com as mulheres na Igreja (II)

 

Frei Bento Domingues – 

Sem imaginação, sem vontade de alimentar e dinamizar as comunidades católicas, as lideranças da Igreja só se podem queixar de si mesmas.

 

1. No passado domingo, o PÚBLICO apresentou uma deliciosa reportagem [1] sobre as celebrações dominicais promovidas e orientadas por leigos, mulheres e homens e um oportuno editorial de

As trapalhadas com os ministérios na Igreja afectam, sobretudo, a celebração da Eucaristia e são uma dificuldade para a hospitalidade eucarística entre as Igrejas cristãs [2].

Na reportagem sobre as pessoas que tomam a iniciativa de reunir e formar uma comunidade que não tem ministros ordenados para presidir à Eucaristia, por que razão não poderá o bispo ordenar alguém que é reconhecido como competente e zeloso na formação e no crescimento dessa mesma comunidade?

Resultado de imagem para Edward Schillebeeckx

Importa entender o percurso e as razões deste dominicano holandês para perceber duas coisas: nunca se conformou com os obstáculos criados às reformas propostas pelo Vaticano II, nem se contentou com repetir os seus documentos. Procurou inovar e não se resignou perante os repetidos processos que Roma lhe moveu, sem nunca o conseguir condenar.

 

Resultado de imagem para K. Rahner

2. O primeiro processo foi sobre as suas posições acerca da secularização (1968). Soube, por um amigo, K. Rahner, que estava a ser perseguido. Este tinha recebido do Santo Ofício, sob sigilo rigoroso, o material dessa acusação. Rahner violou esse grave sigilo porque, dizia, o direito natural vale mais do que uma medida eclesiástica! No final do processo, confidenciou-lhe: apesar de tudo, dois terços dos consultores da Congregação partilhavam as ideias do acusado!

O segundo processo foi sobre a sua cristologia (1979). Respondeu a todas as questões que lhe enviaram em 1976, mas em 1978 já estava com outro processo às costas e teve de ir a Roma esclarecer a sua posição.

Nessa altura, eu estava em Roma e conhecia muito bem um dos professores que o iriam examinar. Lembro-me de Schillebeeckx ter declarado: o que se passar nesse interrogatório será comunicado aos jornalistas, o que aconteceu.

Não foi condenado, mas recebeu, em 1980, uma carta para novos esclarecimentos. Havia uma distinção entre as posições da Congregação e as de Schillebeeckx, mas não acerca da fé cristã. O pior estava para vir.

Em 1984 surge um terceiro processo. Neste caso sobre os ministérios na Igreja. A questão de fundo era a que ainda hoje nos perturba: o serviço de presidência da Eucaristia. Ele defendia um ministério extraordinário quando não houvesse padre ou bispo para esse serviço. O cardeal Ratzinger, perante o relatório de teólogos holandeses sobre o livro de Schillebeeckx, publicou uma carta que excluía a posição desse teólogo e acrescentava que era um assunto que já tinha sido resolvido no IV Concílio de Latrão: só os padres podiam presidir à celebração eucarística.

O assunto estava arrumado. Essa recusa não convenceu o teólogo flamengo, observando que Ratzinger esquecia que o objecto desse Concílio era a exclusão dos diáconos que substituíam o bispo, quando este não podia estar presente.

O professor de Nimega não se dá por vencido e escreve um novo livro no qual já não fala do ministro extraordinário da presidência da eucaristia, mas apela para uma outra categoria, para dizer a mesma coisa. Pede uma espécie de sacramento para os agentes de pastoral, a fim de poderem receber uma ordenação, no quadro dos ministérios sacramentais. Se não desejam soluções extraordinárias, sigam o caminho do que deve ser normal.

 

3. No final desses processos, perguntaram a Schillebeeckx se tinha sofrido muito. Não, outros sofreram mais. Mas quando soube, por K. Rahner, que estava a ser objecto de um inquérito, sem saber porquê, disse-lhe: “eis a recompensa reservada aos que trabalham, dia e noite, para a Igreja! Depois, tudo aquilo me irritou. Nós, os teólogos, não somos infalíveis, mas há maneiras e maneiras de tratar as pessoas.”

Quando lhe perguntam se tinha pensado em abandonar a Igreja e sair da Ordem, respondeu:

“Nunca. Nunca. Pertenço à Igreja Católica Romana, mas isso não significa que esta Igreja não possa cometer erros. De facto, comete. É preciso ter coragem de o dizer. Abandonar a Ordem dos Dominicanos? Nunca pus em questão a escolha que fiz aos 19 anos. Para concluir este capítulo dos processos tenho de dizer: nunca recebi qualquer tipo de condenação até agora e espero nunca receber. Apesar destas aventuras, sou feliz por pertencer à Igreja e à Ordem Dominicana.”

 

[1] Margarida David Cardoso, Ou Rosa dava a “missa” ou a igreja fechava
[2] Cf. Frei José Nunes, Ministérios Laicais no Novo Testamento e primeiros séculos da vida da Igreja, in Laicado Dominicano e a pregação, XII Jornadas Nacionais da família dominicana, Fátima, 8 a 10 de Novembro de 2013; D. Borobio, Ministérios Laicais, Ed. Perpétuo Socorro, Porto, 1991; J. Estrada, La identidad de los laicos, Paulinas, Madrid, 1990; A. Faivre, Naissance d’une hiérarchie, Beauchesne, Paris, 1977; Pierre Bühler, Foi o Papa e não Lutero quem provocou a rutura (entrevista de António Marujo, Revista Expresso, 6 de Janeiro 2018)
[3] Edward Schillebeeckx, Je suis um théologien heureux, Paris, Cerf, 1995

 

 

Frei Bento Domingues

https://www.publico.pt/2018/01/21/sociedade/opiniao/as-trapalhadas-com-as-mulheres-na-igreja-ii-1799827

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>