VIAGEM AO CHILE DESCARTADO

Luis Badilla –  Alver Metalli -11 de janeiro de 2018 

O Papa visita o povo Mapuche naAraucânia. O que esperam as populações locais, em particular os “comuneros mapuches”?

 

Quando o Vaticano anunciou a visita do Papa ao Chile e ao Peru, ficou evidente que o encontro com as populações mapuches do Chile havia sido incluído no programa por expressa vontade de Jorge Mario Bergoglio.

Como já se sabe há algum tempo, em 17 de janeiro, o Santo Padre se deslocará de Santiago, a capital chilena, para Temuco, a pouco mais de 600 quilômetros ao sul, e no aeroporto da Base aérea Maquehue (ou Manquehue) presidirá uma Celebração eucarística para os povos da região, em sua maioria “Araucanos” ou “Mapuches”.

Serão horas especialmente significativas em toda a peregrinação. Nessas terras, Francisco se encontrará com a parte mais pobre do Chile: segundo as estatísticas oficiais, 26,2% vivem em situação de pobreza e não só os mapuches. A marginalização estrutural e endêmica, parcialmente corrigida por medidas isoladas, levou a que , com o passar dos anos, a Araucânia e os seus povos se tornassem  “o Chile descartado”.

Em Temuco, foi organizado um almoço com numerosos representantes da população local na casa ‘Mãe da Santa Cruz’. Uma “peregrinação dentro da peregrinação”, porque será o próprio Papa que visitará as terras dos mapuches, a Araucânia e não uma delegação deles que venha ver o Papa em Santiago. Um gesto muito semelhante ao de São João Paulo II em 5 de abril de 1987, com esses mesmos povos.

Há mais de trinta anos atrás, já existia a chamada “questão mapuche”, mas as tensões não eram as mesmas que vemos hoje, especialmente nos últimos 20 anos. Em certo sentido, poder-se-ia dizer que uma parte da população mapuche está em rebelião permanente contra o Estado chileno e, neste contexto, multiplicam-se os atos de violência:

  • mais de 30 lugares de culto cristão incendiados,
  • prisões, processos,
  • sentenças duras em aplicação das leis antiterroristas herdadas de Pinochet.

Os descendentes diretos dos aborígenes do Chile, que desde tempos imemoriais habitam amplas regiões do Chile e da Argentina, são chamados “mapuces” ou “mapuches” (e também “araucanos”).

Este nome –mapuches –, que significa “povo da terra”, é composto pelas palavras “Mapudungun” e “Che”. No Chile, a palavra “Mapuche” teve diferentes interpretações de acordo com a época histórica.

  • Durante décadas foi uma palavra ofensiva ou depreciativa, sinônimo de pessoa analfabeta a serviço de chilenos educados e ricos.
  • Em outros momentos, passou a ser uma palavra impronunciável, porque carecia de sentido ou era rejeitada pela cultura dominante.
  • Nos últimos anos, recuperou uma dignidade especial e, sobretudo, tornou-se sinônimo de uma questão grave e importante, que a nação chilena ainda não resolveu e que numerosos protestos violentos transformaram numa das mais urgentes e de maior peso do país.

Quanto à consistência demográfica destes povos e das suas diversas etnias (como a Picunce, a Mapuche propriamente dita, e a Uiglice ou Counco), não há dados estatísticos certos. Os números vão 800.000 a 1.500.000, e aparentemente os mapuches são o único povo aborígene da América Latina que cresce, enquanto por toda a parte os outros estão se extinguindo gradualmente.

Segundo o censo de 1992, os mapuches eram 1.281.651. No censo de 2002, o número caiu para 604 .349 e concentrou-se em quatro áreas, Araucânia-Temuco (33,6%), Santiago-Região Metropolitana (30,3%), Biobío (8,8%), Los Lagos e Los Rios (16,7%).

Esta curiosa redução, num período de 10 anos,

  • foi chamada “genocídio estatístico ou burocrático” e diz-se que, na medida em que se trata de uma operação decidida e planejada, tem o propósito definido de deslegitimar as demandas mapuches diante do Estado chileno, para mostrar que essas etnias estão em vias de extinção.
  • Outros, menos maliciosos, explicam a questão afirmando que ao mudar as perguntas no último censo, muitas pessoas se auto-excluíram da categoria “Mapuche”.

O “conflito Mapuche” afeta tanto o Chile como a Argentina, e a delicadeza e complexidade dele não escapam às pessoas mais conscientes do grave atraso que o tratamento desta questão sofreu. É um conflito com conotações

  • históricas,
  • jurídicas,
  • econômicas
  • e culturais,

e o núcleo do problema continua o mesmo desde que explodiu pela primeira vez, no século XIX: a reivindicação dos povos mapuches sobre as suas terras, que eles consideram terem sido expropriadas à força quando começou o que eles chamam de “a ocupação da Araucânia”.

Do ponto de vista histórico, as coisas no Chile e na Argentina, aconteceram como os Mapuches afirmam, e aí começa o conflito, porque os dois países se obstinam em negar o que tem todas as caraterísticas de uma ocupação.

E há outra verdade histórica que continua a ser recusada obstinadamente:

  • o Estado chileno é um país binacional que inclui não só a população, amplamente majoritária, de crioulos e mestiços,
  • mas também outra nação, a “mapuche”, minoria relevante e que certamente não está em vias de extinção.

Estas duas verdades negadas foram-se gradualmente entranhando na sociedade, na cultura e na política gerando o conjunto de raízes do conflito, mas ainda não levou a pôr em prática um processo de reconciliação e de diálogo.

A Igreja chilena, desde há muitos anos e, especialmente, depois do discurso de João Paulo II ao povo da Araucânia, em 05 de abril de 1987, tem procurado dar bases sólidas a este processo, mas nem sempre da maneira contínua e incisiva que é tão necessária e urgente.

 

Autor: Luis Badilla

Fonte:http://www.tierrasdeamerica.com/2018/01/11/viaje-al-chile-descartado-el-papa-visita-al-pueblo-mapuche-en-la-region-de-la-araucania-que-esperan-los-pueblos-locales-en-particular-los-comuneros-mapuches/

1 comment to VIAGEM AO CHILE DESCARTADO

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>