INSTITUIÇÕES CATÓLICAS LANÇAM O “PACTO DE CONVERSÃO PASTORAL DA IGREJA CHILENA”

Fazemos com espírito evangélico e com a autoridade do nosso batismo

Redação, 3 de janeiro de 2018

  • A Igreja deixou de ser casa dos pobres, fonte de esperança para os jovens, lugar de respeito para as mulheres e escola profética para os trabalhadores.
  • A hierarquia, envaidecida com tanta reverência, cedeu às tentações do dinheiro, do poder e das regalias; 
  • enquanto alguns, na escuridão da sua consciência, profanavam a sagrada intimidade de crianças e de jovens inocentes.

 Pacto de Conversão Pastoral da Igreja Chilena

Com alegria e esperança, recebemos a visita do Papa Francisco a esta terra, confiantes que, estando conosco, poderá avaliar a necessidade urgente de conversão pastoral de que a nossa Igreja precisa. Confiamos que a proximidade do Vigário de Cristo nos ajude a recuperar a esperança.

À chegada de Francisco ao Chile, terão transcorrido quase 31 anos desde a primeira visita de um Papa a esta terra. Tendo essa medida do tempo, como referência, vemos quanto mudou a Igreja chilena em apenas três décadas.

Aqueles dias foram dos mais sombrios da nossa história, quando a democracia era sacrificada no altar da ditadura. Dias em que

  • a Igreja se fez zelosa defensora dos direitos dos homens e das mulheres,
  • graças a um episcopado que, encarnado no sofrimento do seu povo, se despojou dos privilégios históricos para encorajar a esperança de todos.

A audácia profética dos bispos latino-americanos incomodava Roma. Surgiu então a intenção de fazer retroceder o Concílio, gerando uma mudança do episcopado chileno. A tarefa foi assumida por um núncio do Papa que a cumpriu em onze anos.

 

Esta foto, sozinha, deveria ser suficiente para ter barrado a canonização de João Paulo II: sorridente e conivente ao lado de Pinochet, um assassino cruel. O Núncio era o card. Sodano.

 

Surgiu assim um episcopado

  • alheio à realidade do seu povo,
  • apegado ao poder,
  • servo dos ricos e dos poderosos.

Os efeitos disso, juntamente com as mudanças culturais, não tardaram a sentir-se e foram devastadores.

  • A Igreja deixou de ser casa dos pobres, fonte de esperança para os jovens, lugar de respeito para as mulheres e escola profética para os trabalhadores.
  • A hierarquia, envaidecida com tanta reverência, cedeu às tentações do dinheiro, do poder e das regalias;
  • enquanto alguns, na escuridão da sua consciência, profanavam a sagrada intimidade de crianças e de jovens inocentes.

Os responsáveis da hierarquia, com o seu silêncio, tornaram-se cúmplices de fatos desprezíveis. Porque, como diz a Palavra:

“Mas vocês, sacerdotes, vos desviastes do bom caminho, com os vossos ensinamentos causastes a queda de muitos. Assim vós pervertestes a minha aliança com Levi, porque não obedecestes e porque, além disso, quando ensinais as pessoas, não tratais a todos por igual, eu farei com que todo o povo vos tenha por vis e vos despreze” (Ml 2, 8-9).

É assim que

  • o descrédito e a desconfiança acompanham o caminhar de nossos pastores e da Igreja hierárquica,
  • enquanto a indignação se propaga espontaneamente
  • e a dor acompanha a muitos,

porque há justos e pecadores.

 

Somos um povo que caminha “como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36).

Mesmo assim,

  • na adversidade, a fé nos sustenta;
  • no desânimo, perseveramos;
  • e nas provas, nos encorajamos,

porque sabemos que Deus não abandona.

E,

  • porque sem credibilidade e sem confiança não podemos evangelizar,
  • interpelamos os bispos da Conferência Episcopal do Chile,
  • para que deem testemunho de conversão pessoal e pastoral.

Fazemo-lo com espírito evangélico e com a autoridade do nosso batismo.

Conscientes de que somos todos filhos e filhas de um Deus rico em amor e misericórdia, convidamos os bispos chilenos a assumir este Pacto de Conversação Pastoral, na presença do Vigário de Cristo, nosso irmão mais velho, o Papa Francisco, sabendo que encontrarão, no povo de Deus, força e alento para retomar um novo tempo na história da nossa Igreja.

 

 Somos um povo que caminha “como ovelhas sem pastor” – Na foto: Francisco com o episcopado chileno em Roma

Unidos no mesmo Espírito, os exortamos a:

1.- Viver com simplicidade e austeridade, libertos do apego ao poder e aos sinais de ostentação que os afastam do povo de Deus e que impedem que se dê testemunho aos  pobres e à sociedade de uma Igreja de iguais.

2.- Rejeitar títulos de nobreza e as lisonjas que a tradição de uma igreja imperial herdou, porque isso provoca desconfiança e contradiz a simplicidade do espírito cristão. Pedimos que não se façam chamar monsenhores, excelências, eminências ou reverendos e que renunciem às adulações, às homenagens e ao clericalismo.

3.- Priorizar a atenção aos mais fracos e mais necessitados do povo de Deus que lhes foram confiados, estabelecendo como critério de ação pastoral uma opção preferencial pelos empobrecidos e marginalizados; apoiando os movimentos populares; acompanhando os povos nativos na defesa e promoção de seus direitos; bem como reparando e protegendo de todas as formas possíveis as vítimas de abusos do clero.

4.- Renunciar a ser administradores, controladores e fiscalizadores da vida na Igreja, porque a tarefa essencial dos bispos é acompanhar o povo de Deus e não deixar-se tentar por afazeres que degradam a sua nobre missão. Pedimos que sejam pastores com cheiro de ovelha, a exemplo de Óscar Romero e Enrique Alvear.

5.- Dar transparência às contas da Igreja, incluindo a publicação anual dos livros contábeis de todas as dioceses, vicariatos e paróquias, incluindo o detalhe das entradas recebidas, dos gastos realizados e da situação patrimonial.

6.- Renunciar a receber dádivas, doações ou dinheiro de pessoas ou instituições questionadas socialmente, ou seja, que não cumprem os seus deveres sociais, tributários, trabalhistas ou ambientais; que são corruptos ou corruptores, que lavam ativos, que  usam paraísos fiscais ou cuja ação social está em desacordo com o Evangelho. Pedimos que construam uma “Igreja pobre para os pobres” porque “hoje temos que dizer ‘não a uma economia de exclusão e de desigualdade’. Essa economia mata” (EG 53).

7.- Rever o destino dos dinheiros da Igreja, de modo a priorizar obrigações  de justiça, obras sociais e de solidariedade, praticando a comunhão de bens entre as dioceses e os vicariatos, assim como entre as paróquias do país, para testemunhar  justiça social e equidade.

8.- Abster-se de oferecer reconhecimentos públicos a pessoas ou instituições. O critério para conceder reconhecimento cristão deve ser o martírio das suas próprias vidas pela causa do Reino.

9.- Escutar a voz dos leigos e das  leigas da Igreja, dando espaço e atenção não só aos que se subordinam incondicionalmente aos ditames do clericalismo e da ‘hierarcologia’, mas também aos que, com julgamento crítico, têm muito a contribuir com a Igreja.

10.- Aplicar a correção fraterna entre todos os membros da Igreja Povo de Deus e promover a prática da avaliação pastoral nas igrejas locais, sejam dioceses, vicariatos ou paróquias.

11.- Estabelecer a prática da consulta ao Povo de Deus para a nomeação de bispos e de párocos.

12.- Renunciar à participação da Igreja em empresas e negócios.

13.- Incentivar a participação das mulheres na vida da Igreja em todos os seus estamentos, reconhecendo o direito de igualdade que lhes cabe por serem filhas de Deus.

14.- Reintegrar o clero casado no exercício de certas tarefas pastorais e litúrgicas.

 

 

Fonte: http://www.periodistadigital.com/religion/america/2018/01/03/el-papa-podra-apreciar-la-necesidad-urgente-de-conversion-pastoral-que-nuestra-iglesia-necesita-religion-iglesia-pacto-chile-poder-pederastia-francisco-viaje.shtml

 

2 comments to INSTITUIÇÕES CATÓLICAS LANÇAM O “PACTO DE CONVERSÃO PASTORAL DA IGREJA CHILENA”

  • Pe. Caetano Sousa

    Que Maravilha o número 14 14.- Reintegrar o clero casado no exercício de certas tarefas pastorais e litúrgicas.
    Tomará que Dom Belisario dê atenção para esta voz do E. Santo e qui em São todo padre casado possa assumir paróquia e exercer normalmente o seu ministério pastoral. Pe. Caetano. Pe. Casado.

  • osvaldo costa

    Que o PACTO DE CONVERSÃO PASTORAL DA IGREJA CHILENA SE TORNE REALIDADE EM TODAS COMUNIDADES CRISTÃS DO MUNDO INTEIRO,EM ESPECIAL NO BRASIL.Não adiantam reformas paliativas na Igreja Católica de hoje. Papa Francisco,iluminado do Espírito Santo, continuará a exigir dos bispos a prática do Vaticano II e das reformas urgentes exigidas pelo Evangelho do Senhor.

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