Uma força apaixonada

 L’Osservatore Romano – mulheres

Marie Curie in un ritratto del 1903Lucetta Scaraffia, 02/01/2018 – Foto: Marie Curie, numa foto de 1903

Nos primeiros dias de novembro de 1911, Marie Curie é a única mulher convidada pelo industrial belga Solvay para o encontro por ele organizado no luxuoso hotel Metropole de Bruxelas para reunir os cérebros mais brilhantes do mundo. Todos sabem que ela é candidata ao segundo Prêmio Nobel; o primeiro, de Física, fora recebido por ela junto com o marido Pierre pelos estudos sobre radiação, em 1903.

Pela primeira vez, ela, geralmente tão modesta e econômica, mandou fazer roupas elegantes e na moda, e comprou acessórios novos. Não o fez apenas para não fazer feio no hotel, mas também porque do encontro participa o homem que ela ama, o matemático Paul Langevin.

Ela é viúva, mas ele é casado, com quatro filhos. Naqueles dias de isolamento, ela viverá suas grandes paixões:

  • o confronto das ideias científicas, das hipóteses, das visões do mundo entre pessoas de tão alto nível
  • e a proximidade com o seu amante.

Enquanto ela está longe, em Paris explode o escândalo: o cunhado da esposa de Langevin, jornalista de uma publicação sensacionalista, revela a relação deles. Nos dias seguintes, saem novos detalhes, Paris inteira não fala de outra coisa, as filhas de Marie não podem mais ir à escola por causa da tempestade midiática.

A imprensa de extrema direita comporta- se como se estivesse diante de um novo caso Dreyfus: uma mãe de família francesa humilhada por uma estrangeira, uma megera polaca. Alguns insinuam que ela é judia. Muitos pedem que Marie seja expulsa do país; os seus brilhantes resultados científicos, o Prêmio Nobel, não valem nada.

Pedem e conseguem que ela seja afastada do ensino na Sorbonne, onde tinha obtido o cargo do marido Pierre após a sua morte, a primeira professora mulher. Ao retornar a Paris, não pode sequer refugiar-se na pequena casa de campo de Sceaux, onde mora com as filhas, mas tem  de pedir hospitalidade aos seus amigos: os jornalistas cercam a casa e, alguns dias depois, um bando de “cidadãos” enfurecidos apedrejam-na, danificando-a.

 

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Marie Curie: granitegrok.com

Seguem-se debates furiosos, e até três duelos entre os seus defensores e os seus detratores. No fim, o processo por adultério é evitado, e ela pode ir de trem receber o segundo Prêmio Nobel, desta vez sozinha, em Química.

Marie consegue sair desta batalha e reconstruir a sua vida – rompendo o vínculo com Langevin – graças à sua extraordinária tenacidade, à sua incomum força de ânimo da qual já dera prova várias vezes durante a sua vida.

  • Senão, como teria feito uma pobre garota polonesa, que chegara a Paris sozinha, para obter um diploma em matemática e física numa faculdade que mal tolerava presenças femininas?
  • E para preparar um doutorado que começaria a revelar os seus talentos quando nenhum laboratório lhe cedia um lugar para poder realizar as experiências necessárias?

Alguém lhe sugeriu que recorresse a um ‘outsider’, Pierre Curie, um cientista bizarro que fazia experimentos fora da comunidade acadêmica e com o qual não só nasceu o amor, mas também o projeto de trabalharem juntos. Marie tinha superado o seu primeiro duro aprendizado devido à paixão da ciência, que depois veio a constituir um caso único de amor por Pierre.

Para ela, eram filhos do amor

  • as suas verdadeiras filhas, Irene e Eva,
  • mas também os novos elementos que eles descobriram juntos, o polônio e o rádio.

Por esta razão, a morte súbita e precoce do seu marido lançou-a num desespero total, do qual  conseguiu emergir lentamente, graças à disciplina no trabalho e à ajuda dos amigos, entre os quais Paul, o aluno predileto de Pierre.

Novamente, a paixão amorosa e a paixão científica confluíram e fizeram Marie feliz enquanto escrevia as mil páginas do tratado sobre a radioatividade. Ela tinha 43 anos que, naquela época, para uma mulher eram muitos, mas ela comportava-se como uma adolescente e subestimou os riscos de um vínculo tão irregular.

Illustrazione di Irene Renon

O gênio extraordinário e a simpatia humana que Marie desperta estão todos nesta sua força apaixonada, que tornou vitais a tenacidade e a paciência das quais soube dar prova durante a pesquisa. Mas ela repetia frequentemente aos seus alunos que a intuição e a imaginação eram as virtudes cardeais do cientista. Os olhos cinza muito claros, uma massa de cabelos loiros enrolados em um nó, vestida quase sempre modestamente com roupas escuras, Marie tinha uma personalidade carismática e um fascínio inegável que atraía amores e invejas na mesma medida.

Na época do escândalo, Einstein escrevia-lhe:

“Sinto a necessidade de dizer como comecei a admirar o seu espírito, a sua energia, a sua integridade e a felicidade que sinto ao lembrar que pude conhecê-la pessoalmente em Bruxelas”.

A sua última paixão foi a França, a sua nova pátria que no entanto a  tinha desprezado tanto: participou com total dedicação patriótica da primeira guerra mundial, criando aparelhos radiológicos móveis para socorrer os feridos. Nunca aceitou que as radiações, as suas “filhas do amor”, pudessem ser ambivalentes, úteis e letais ao mesmo tempo. Continuava a acreditar que fossem só benéficas. Quem pagou por isso foram soldados que nada sabiam, mas também ela mesma, que morreu de leucemia aos 67 anos, em 1934.

 

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Lucetta Scaraffia

Fonte: http://www.osservatoreromano.va/it/news/una-forza-appassionata

 

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