UM CHORA, OUTRO FAZ CHORAR

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Frei Bento Domingues, O.P. -31/12/17  Imagem: Snopes.com

“O Papa chorou com aqueles exilados. Por desgraça, ensinaram a Donald Trump a oração de S. Francisco ao contrário: onde houver paz, que eu leve a guerra; onde houver amor que eu leve o ódio; onde houver perdão que eu leve a ofensa; onde houver a união que eu leve a discórdia; onde houver a verdade que eu leve o erro, a mentira; onde houver esperança que eu leve o desespero; onde houver alegria que eu leve a tristeza; onde houver luz que eu leve as trevas.”

1. A inspiração do concílio Vat. II (1962-1965) foi retomada com vigor, originalidade e alegria, por um bispo argentino, em 2013. 2017 foi o ano da contestação ruidosa ao Papa Francisco, acusado, por grupos conservadores, de oito heresias! Como recusa o papel de vedeta, continua ocupado, sobretudo, com as vítimas das mil formas de pobreza e exploração de crianças, adolescentes, adultos, velhos, doentes e com as guerras que provocam mundos de refugiados.

Os seus gestos não se destinam a chamar a atenção para a sua pessoa ou para a figura papal, mas sim para a degradação da Casa Comum de que todos somos responsáveis. Não se mostra fascinado por viagens triunfais. Os seus destinos são lugares e situações, onde é preciso estabelecer pontes de entendimento. Tudo isso é conhecido. Não se refugia, porém, no mundo dos grandes princípios, porque sente que uma fé que não nos sacode é uma fé que deve ser sacudida.

Na apresentação dos votos natalícios aos membros da Cúria Romana (21.12.2017), continuou o estilo já adoptado em anos anteriores, mas noutra direcção. Os meios de comunicação destacaram, apenas, uma frase que ele usou, embora não tenha sido cunhada por ele: “Fazer as reformas em Roma é como limpar a Esfinge do Egipto com uma escova de dentes”. Serve para dizer que a sua determinação encontra muitas resistências, mas não vai desistir.

Sabe que

  • existem conluios ou pequenos clubes
  • que representam um cancro infiltrado nos organismos eclesiásticos
  • e, de modo particular, nas pessoas que lá trabalham.
  • Desce ao concreto na denúncia de um outro perigo:

“o dos traidores da confiança ou os que se aproveitam da maternidade da Igreja, isto é, as pessoas que são cuidadosamente seleccionadas para dar maior vigor ao corpo e à reforma, mas – não compreendendo a alçada da sua responsabilidade –

  • deixam-se corromper pela ambição ou a vanglória
  • e, quando delicadamente são afastadas,
  • autodeclaram-se falsamente mártires do sistema,
  • do «Papa desinformado»,
  • da «velha guarda»

… em vez de recitar o «mea culpa».

A par destas pessoas,

  • há ainda outras que continuam a trabalhar na Cúria
  • e às quais se concede todo o tempo para retomar o caminho certo,
  • com a esperança de que encontrem, na paciência da Igreja,
  • uma oportunidade para se converterem e não para se aproveitarem.

Isto naturalmente sem esquecer a esmagadora maioria de pessoas fiéis que nela trabalham com louvável empenho, fidelidade, competência, dedicação e também com grande santidade”.

O Papa Francisco não está preocupado com uma Cúria de puros anjos a quem não haja nada a apontar, uma instituição exemplar para autoconsolo. Seria ficar numa reforma ad intra, numa estética organizativa. O que lhe importa é

  • uma Igreja ad extra, de saída, de diálogo com crentes e não crentes,
  • para chegar a todas as periferias e colocá-las,
  • não só no centro das preocupações das Igrejas e das Religiões,
  • mas também no centro da política mundial.

 

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Francisco com representantes dos Rohingya em Bangladesh – Foto IHU

 

2. Um caso exemplar foi a sua recente viagem apostólica a Myanmar e ao Bangladesh, países de minoria católica, mas de grande significação na promoção do diálogo inter-religioso em condições extremamente complexas, dada a grave violação dos direitos humanos. A Amnistia Internacional considera que as autoridades de Myanmar estão a aplicar, ao povo rohingya, no Estado de Rakhine, um sistema comparável ao apartheid, descrito como uma «prisão a céu aberto».

No avião de regresso, foi questionado sobre todos os passos desse percurso. O mais importante era a questão da situação do povo rohingya. Uma jornalista perguntou-lhe o que tinha sentido no encontro com esses exilados no Bangladesh.

Resposta do Papa:

“Aquilo não estava programado assim. (…) Depois de muitos contactos, inclusive com o governo, com a Cáritas, o governo permitiu a viagem destes que vieram ontem. (…) Aquilo que o Bangladesh faz por eles é estupendo, é um exemplo de acolhimento. Um país pequeno, pobre, que recebeu 700 mil refugiados…”.

“Vinham cheios de medo, não sabiam que fazer. Alguém lhes dissera: «Cumprimentais o Papa, não dizeis nada». (…) Chegou o momento de eles virem cumprimentar-me. Em fila indiana: já não gostei disto, um atrás do outro. O pior é que, imediatamente, queriam expulsá-los do palco.

Nesse momento, irritei-me e levantei um pouco a voz – sou pecador – e repeti muitas vezes a palavra «respeito», respeito! Fiz parar a evacuação e eles ficaram lá. Em seguida, depois de os ouvir um a um com a ajuda do intérprete que falava a língua deles, comecei a sentir algo dentro de mim: «Não posso deixá-los ir embora, sem dizer uma palavra»; e pedi o microfone. E comecei a falar… Não me lembro do que disse. Sei que, a dada altura, pedi perdão. Penso que duas vezes, não me lembro”.

“Entretanto, a sua pergunta é: «Que senti».

Naquele momento, eu chorava. Fazia de modo que não se visse. Eles choravam também. Depois pensei que estávamos num encontro inter-religioso, mas os líderes das outras tradições religiosas estavam distantes. [Então disse:]

  • «Vinde também vós; estes rohingya são de todos nós». E eles cumprimentaram.
  • Eu não sabia o que dizer mais, porque fixava-os, cumprimentava-os… Veio-me este pensamento:
  • «Todos nós, líderes religiosos, já falámos. Peço a um de vós que faça uma oração, um do vosso grupo».
  • Penso que foi um imã, um «clérigo» da sua religião, que fez aquela oração e eles também rezaram ali connosco.

Ao ver todo o caminho percorrido, senti que a mensagem tinha chegado. Não sei se respondi à sua pergunta. Uma parte estava programada, mas a maior parte saiu espontaneamente”.

 

3. O Papa Francisco chorou com aqueles exilados. Por desgraça, ensinaram a Donald Trump a oração de S. Francisco ao contrário:

  • onde houver paz, que eu leve a guerra;
  • onde houver amor que eu leve o ódio;
  • onde houver perdão que eu leve a ofensa;
  • onde houver a união que eu leve a discórdia;
  • onde houver a verdade que eu leve o erro, a mentira;
  • onde houver esperança que eu leve o desespero;
  • onde houver alegria que eu leve a tristeza;
  • onde houver luz que eu leve as trevas.

Trump parece ter uma paixão especial pelo caos.

  • Sem a promoção da desordem mundial,
  • sem fazer sofrer,
  • sem fazer chorar,

não sabe o que fazer como presidente dos EUA, um cego guia de muitos cegos.

Não vale a pena diabolizar este senhor da guerra e do comércio das armas. É preferível que todos os cristãos, fundamentalistas ou não, o saibam ajudar a descobrir a verdadeira oração de S. Francisco: onde houver guerra, que eu leve a paz. É muito melhor para todos!

Bom Ano!

 

 

Frei Bento Domingues, O.P.

Fonte: https://www.publico.pt/2017/12/31/sociedade/opiniao/um-chora-outro-faz-chorar-1797318

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