Müller: “O Livro de Buttiglione dissipou as dúvidas dos cardeais”

Entrevista com o Card. Müller sobre a Amoris Laetitia

ANDREA TORNIELLI – 30/12/17

Entrevista com o cardeal Müller (foto) sobre Amoris Laetitia e a possibilidade dos sacramentos para aqueles que vivem uma segunda união:

“Devemos correlacionar a palavra de salvação de Deus com a situação concreta, excluindo o legalismo e o individualismo autorreferencial”

Tradução: Orlando Almeida

Pelos seus setenta anos, as palavras mais significativas são as recebidas do Papa emérito Bento XVI:

o cardeal Gerhard Ludwig Müller “defendeu as claras tradições da fé mas, no espírito do Papa Francisco, tentou entender como elas podem ser vividas hoje”.

E precisamente neste sentido ia o denso e articulado ensaio introdutório que o cardeal alemão quis escrever em apoio à iniciativa do filósofo Rocco Buttiglione, que recolheu em um volume recentemente publicado as suas contribuições para uma leitura de Amoris laetitia para além dos extremismos opostos, mas consciente do passo dado.

Por muitos anos, primeiro como cardeal e depois como Papa, Joseph Ratzinger tinha falado sobre o problema representado pelos sempre mais numerosos casamentos celebrados sem fé e sem a consciência do sacramento.

Um problema levado em consideração pelo próprio Müller numa carta pastoral publicada no início de seu episcopado em Ratisbona [Regensburg]. Nesta entrevista ao Vatican Insider, o cardeal retorna aos dubia dos cardeais e aprofunda algumas passagens da introdução ao livro de Buttiglione.

 

A ENTREVISTA

Eminência, por que deu apoio ao livro do filósofo Rocco Buttiglione sobre Amoris laetitia?

“A intenção do meu amigo Rocco Buttiglione neste livro é

  • oferecer respostas competentes
  • a perguntas formuladas de forma competente.

Eu queria apoiar esta contribuição para um diálogo honesto sem facciosidade e sem polêmica. Em alemão, há um provérbio: “quem quer apaziguar leva pancada dos dois lados”. Mas acredito que devemos aceitar esse risco por amor à verdade do Evangelho e á unidade da Igreja”.

 

O senhor acredita que o livro do Professor Buttiglione respondeu aos famosos dubia formulados pelos quatro cardeais?

“Estou convencido de que ele dissipou as dúvidas dos cardeais e de muitos católicos que temiam que, em Amoris Laetitia, tivesse sido feita uma alteração substancial da doutrina da fé, tanto sobre a forma válida e fecunda de receber a santa comunhão como sobre a indissolubilidade de um casamento validamente contraído entre batizados”.

 

A impressão que se tem ao ler o texto das cinco dubia dos cardeais é a de não estar diante de autênticas perguntas, ou seja, de dúvidas formuladas para obter uma resposta num ou noutro sentido, mas antes de perguntas um pouco retóricas que levam para uma direção já pré-estabelecida. O que o senhor acha?

“Em todas as minhas tomadas de posição,  que me foram solicitadas de várias partes, sempre tentei superar as polarizações e um modo de pensar a partir de campos opostos. Por isso, o professor Buttiglione pediu-me para o seu livro uma introdução com o título “Por que se pode e se deve interpretar Amoris Laetitia em sentido ortodoxo”. Mas agora não devemos perder tempo com a questão de como entramos nesta situação cheia de tensões, mas concentrar-nos sobre o modo de como sairmos dela.

Precisamos de mais confiança e de mais atenção benevolente uns pelos outros. Como cristãos nunca devemos duvidar da boa vontade dos nossos irmãos, mas “cada um de vós, com toda a humildade, considere os outros superiores a si próprio” (Fil. 2,3) – assim nos adverte o apóstolo a termos todos os mesmos sentimentos no amor”.

 

No ensaio introdutório ao livro de Buttiglione, o senhor fala de pelo menos uma exceção relativa aos sacramentos para quem vive uma segunda união, a que se refere àqueles que não podem obter a nulidade do matrimônio no tribunal mas estão convencidos em consciência da nulidade do primeiro casamento. Esta hipótese já foi considerada, no ano 2000, pelo então cardeal Joseph Ratzinger. Neste caso, pode-se abrir o caminho para os sacramentos? Amoris laetitia poderia ser considerada como um desenvolvimento dessa posição?

“Diante da muitas vezes insuficiente educação na doutrina católica, e num ambiente secularizado em que o matrimônio cristão não constitui um exemplo convincente de vida, põe-se o problema da validade também dos matrimônios celebrados segundo o rito canônico. Existe um direito natural de contrair um matrimônio com uma pessoa do sexo oposto. Isto vale também para os católicos que se afastaram da fé ou mantiveram apenas uma ligação superficial com a Igreja.

Como considerar a situação daqueles católicos que não valorizam a sacramentalidade do casamento cristão ou até a negam?  O cardeal Ratzinger queria que se refletisse sobre isto, sem ter uma solução completa.  Não se trata de construir artificialmente um pretexto qualquer para poder dar a comunhão. Quem não reconhece ou não leva a sério o matrimônio como sacramento, no sentido em que a Igreja o considera, não pode nem sequer, e isso é a coisa mais importante, receber na santa comunhão Cristo que é o fundamento da graça sacramental do matrimônio.

Aqui deveria haver antes de tudo uma conversão ao mistério integral da fé. Somente à luz destas considerações pode um bom pastor esclarecer a situação familiar e matrimonial. É possível que o penitente esteja convencido em consciência, e com boas razões, da invalidez do primeiro casamento, embora não podendo oferecer a prova canônica disso. Neste caso o casamento válido diante de Deus seria o segundo e o pastor poderia conceder o sacramento, obviamente com as precauções oportunas para não escandalizar a comunidade dos fiéis e não enfraquecer a convicção na indissolubilidade do casamento”.

 

Estamos diante de um número sempre maior de casos de casamentos celebrados sem fé verdadeira entre pessoas que depois de poucos anos (às vezes, alguns meses) se deixam. E talvez mais adiante, depois de contrair uma nova união civil, encontram realmente a fé cristã e dão início a uma caminhada. Como agir nestes casos?

“Aqui ainda não temos uma resposta consolidada. Devemos, no entanto, desenvolver critérios sem cair na cilada da casuística. Teoricamente é bastante fácil definir a diferença entre um incrédulo batizado e um chamado “cristão só de nome” que mais tarde chega à plenitude da fé. Mais difícil é verificar isto na realidade concreta do homem individual na peregrinação da sua vida.

Fiel à Palavra de Deus, a Igreja não reconhece nenhuma dissolução do vínculo matrimonial e, portanto, nenhuma divisão dele. Um casamento sacramental válido diante de Deus e diante da Igreja não pode ser dissolvido nem pelos cônjuges nem pela autoridade da Igreja e naturalmente não pode ser dissolvido nem mesmo por um divórcio civil seguido por um novo casamento.

Caso diferente é o que já mencionamos, de um casamento inválido desde o começo devido à falta de um verdadeiro consentimento. Aqui não se dissolve ou não se considera irrelevante um casamento válido. Reconhece-se simplesmente que o que parecia ser um casamento não o é realmente”.

 

No seu ensaio introdutório ao livro de Buttiglione, o senhor fala também da diminuída imputabilidade da culpa de alguém que “não seja ainda capaz de satisfazer todas as exigências da lei moral”. O que isso significa?

“O pecado mortal tira-nos a vida sobrenatural na graça. O seu princípio formal é a vontade de contradizer a santa vontade de Deus. A isto soma-se a “matéria” de ações em grave conflito contra a doutrina da fé da Igreja e a sua unidade com o Papa e os bispos, a santidade dos sacramentos e os mandamentos de Deus. O católico não pode desculpar-se dizendo que não sabe todas estas coisas.

Mas existem pessoas que, sem grave culpa sua, não receberam suficiente instrução religiosa e vivem em um ambiente espiritual e cultural que põe em perigo o sentire cum Ecclesia. Aqui há necessidade do bom pastor que, desta vez, não deve afastar os lobos com o seu bastão mas – seguindo o exemplo do bom samaritano – derramar óleo e vinho nas feridas e acomodar o ferido na hospedaria que é a Igreja».

 

Na sua intervenção introdutória, o senhor lembra também a doutrina tradicional segundo a qual “para a imputabilidade da culpa no julgamento de Deus, é preciso considerar os fatores subjetivos como a plena consciência e o consentimento deliberado na falta grave contra os mandamentos de Deus”. Então pode haver casos em que, faltando a plena consciência e o consentimento deliberado, a imputabilidade seja diminuída?

“Quem no sacramento da penitência pede a reconciliação com Deus e com a Igreja deve confessar todos os seus pecados graves dos quais se lembra depois de um aprofundado exame de consciência. Somente Deus pode medir a gravidade dos pecados cometidos contra os seus mandamentos porque só Ele conhece os corações dos homens. As circunstâncias, que só Deus conhece, que diminuem a culpa e a pena  diante do seu tribunal, são de um tipo diverso das que  se podem julgar de fora, como as que podem pôr em causa a validade de um casamento.

A Igreja pode administrar os sacramentos como instrumentos de graça só em  conformidade  com o modo como Cristo os instituiu. São Tomás de Aquino distingue o sacramento da penitência do da Eucaristia porque o primeiro é um remédio que purifica (purgativo) enquanto o segundo é um remédio que edifica (confortativo). Se eles são trocados um pelo outro, causa-se dano ou ao doente ou ao são.

Quem se lembra de um pecado grave deve antes de tudo receber o sacramento da penitência. Para isso é necessário o arrependimento e o propósito de evitar as ocasiões próximas de pecado. Sem isto não se dá o perdão sacramental. Esta é, de qualquer forma, a doutrina da Igreja.

Na introdução ao livro de Buttiglione citei também as passagens relevantes do magistério mais respeitável. No entanto, os crentes também têm direito a um acompanhamento cuidadoso que corresponda ao seu itinerário pessoal de fé. No acompanhamento pastoral e especialmente no sacramento da penitência, o sacerdote deve ajudar no exame da consciência. O crente não pode decidir sozinho em consciência se reconhece ou não os mandamentos de Deus como justos e vinculantes para ele.

Ao contrário, examinemos em consciência os nossos pensamentos, as nossas palavras, os nossos atos e as nossas omissões à luz da Sua santa vontade. Em vez de nos justificarmos sozinhos, rezemos a Deus humildemente e “com espírito contrito” (Salmo 51,19) para o perdão também dos pecados que não sabemos ter cometido. Assim é possível um novo começo”.

 

 

O volume de Rocco Buttiglione “Risposte amichevoli ai critici di Amoris laetitia – Respostas amigáveis ​​aos críticos de Amoris laetitia]” (Edizioni Ares, pp. 208): o filósofo responde às críticas dirigidas ao papa Francisco, aos ‘dubia’ e à ‘correctio filialis’.

O livro abre com um articulado  ensaio introdutório do Cardeal Gerhard Ludwig Müller, Prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé.

 

Como se superam então os riscos opostos do subjetivismo e do legalismo? Como se levam em conta os acontecimentos individuais concretos, às vezes dramáticos?

 

“Na visão católica, a consciência do indivíduo, os mandamentos de Deus e a autoridade da Igreja não estão isolados uns dos outros, mas estão um com o outro numa conexão interna cuidadosamente calibrada. Isso exclui o legalismo e o individualismo autorreferencial.

  • Não é nossa função justificar uma nova união que se assemelha a um casamento com uma pessoa que não é o cônjuge legítimo.
  • Não nos é permitido no nosso pensamento considerar “mundanamente” que Jesus possa não ter levado tão a sério a indissolubilidade do casamento ou que ela não possa ser exigida do homem de hoje que, devido ao prolongar-se da duração da vida, não pode resistir durante tanto tempo com um único cônjuge.

Mas existem de fato situações dramáticas para as quais é difícil encontrar uma saída. Aqui, o bom pastor distingue cuidadosamente as condições objetivas e as subjetivas e dá um conselho espiritual. Mas ele não se arvora de Senhor acima da consciência dos outros. Aqui devemos conjugar a palavra de salvação de Deus, que na doutrina da Igreja é somente transmitida, com a situação concreta, na qual se encontra o homem na sua peregrinação.

Aqui é bom lembrar também o princípio antigo de que o confessor não deve perturbar a consciência do penitente de boa fé antes que ele cresça na fé e no conhecimento da doutrina cristã até ao ponto de poder reconhecer o próprio pecado e formular o propósito de não mais cometê-lo. Entre a obediência a Cristo Mestre e a imitação de Cristo Bom Pastor, não há um ou-ou, mas apenas um e-e”.

 

As orientações pastorais-aplicativas de Amoris laetitia dos bispos da região de Buenos Aires, elogiadas pelo Papa, foram publicadas nos Acta Apostolicae Sedis. Como as avalia?

“Esta é uma pergunta sobre a qual não gostaria de fazer qualquer julgamento. No meu prefácio ao livro de Buttiglione falei em geral sobre a relação entre o magistério papal e a autoridade das diretrizes pastorais dos bispos diocesanos. Não se trata de decisões dogmáticas ou do caso de uma espécie de evolução do dogma. Trata-se só uma possível ‘práxis’ da administração dos sacramentos, dado que em casos tão graves o sacramento da penitência deve preceder o recebimento da comunhão.

A este respeito, no entanto, deve ser lembrado que, de acordo com a fé católica, o sacrifício eucarístico, a santa missa, não pode ser reduzido ao recebimento (com a boca) da comunhão. O Concílio de Trento fala de uma tríplice modalidade de recebimento do sacramento: segundo o desejo (in voto); o recebimento com a boca da santa hóstia (a comunhão sacramental); a íntima união de graça com Cristo (a comunhão espiritual)”.

 

 

 

Andrea Tornielli

Fonte: http://www.lastampa.it/2017/12/30/vaticaninsider/ita/inchieste-e-interviste/mller-il-libro-di-buttiglione-ha-dissipato-i-dubia-dei-cardinali-BGa9DT809pw5WyEgRdZC9I/pagina.html 

 

 

 

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