A Comissão de inquérito australiana sobre a pedofilia questiona o celibato dos padres

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Claire Lesegretain (com AFP e AP) 15/12/17

14/12/17 em Sydney, última sessão da ‘‘Royal Commission into Institutional Responses to Child Sexual Abuse’ -Jeremy Piper/AFP

O relatório final da Comissão real de inquérito sobre as respostas institucionais aos crimes de Pedofilia na Austrália considera que foram cometidos abusos em quase todos os locais em que havia crianças, residindo ou participando de atividades educativas, recreativas, esportivas, religiosas ou culturais.

Tradução: Orlando Almeida

Como a Comissão de inquérito investigou os crimes de pedofilia na Austrália?

Criada em 2012 pelo governo de Canberra, esta Comissão foi contatada por mais de 15.000 pessoas que afirmaram terem sido abusadas sexualmente entre 1950 e 2010,

  • em orfanatos,
  • clubes esportivos,
  • escolas ou movimentos de jovens,

em 4.000 instituições. Das 8 mil pessoas que foram abusadas sexualmente, 62%  o foram em instituições católicas.

Dezenas de milhares de crianças foram vítimas de agressões sexuais. Nunca saberemos o número exato” – diz a Comissão no seu relatório final divulgado na sexta-feira, 15 de dezembro. “Qualquer que seja o número, é uma tragédia nacional, perpetrada durante gerações em inúmeras instituições de confiança” – diz o relatório de 17 volumes, que ressalta que abusos foram cometidos  em quase todos os lugares onde crianças residiam ou participavam de atividades educativas, recreativas, esportivas, religiosas ou culturais.

Não se tratava de algumas ‘maçãs podres’ – diz o documento. – Algumas instituições tinham numerosos pedófilos que agrediam as crianças. As maiores instituições falharam gravemente nas suas obrigações. (…)

  • O problema é tão difundido,
  • e a natureza dos crimes tão odiosa,  
  • que é difícil compreendê-lo“.

Apenas 2.500 denúncias foram feitas à polícia e apenas 230 investigações foram abertas.

O que preconiza a Comissão de Inquérito?

Este relatório apresenta “189 recomendações” para melhorar a segurança das crianças. Entre estas recomendações, figura a obrigação de os padres denunciarem atos e pedofilia revelados ​​em segredo de confissão.

Interrogado sobre o que faria se ouvisse em confissão um homem admitir atos de pedofilia, Mons. Denis Hart, arcebispo de Melbourne e presidente da Conferência dos bispos australianos (ACBC), apresentou as desculpas da Igreja pelo seu passado “vergonhoso” e declarou também que não violaria o segredo da confissão.

Mas – esclareceu – “recusaria a absolvição a esse homem até que ele se auto-denunciasse às autoridades“. “Eu tentaria levá-lo para fora do confessionário, mas não quebraria o segredo” – continuou ele. Em conclusão, o presidente da ACBC considerou que “muitas das recomendações da Comissão terão um impacto significativo no modo como a Igreja Católica atua na Austrália“.

 

Por que este relatório ataca o celibato do clero católico?

Em fevereiro, a Comissão informou

  • que 7% dos sacerdotes e religiosos australianos eram suspeitos de abuso sexual contra crianças entre 1950 e 2010,
  • e que em algumas dioceses a proporção atingia até 15%.
  • No entanto, as suspeitas não levaram a investigações:Era costume ignorar, e até punir, as crianças que denunciavam abusos“.

Embora a Comissão constate que

  • o celibato obrigatório dos sacerdotes e religiosos não é uma “causa direta” de abuso sexual sobre menores,
  • ela considera no entanto que isso pode ser um fator que contribui.

O relatório pede à ACBC que pressione o Vaticano para “modificar o direito canônico para estabelecer um celibato voluntário“, e não mais obrigatório, para os padres.

Este pedido surpreende o padre Stéphane Joulain, missionário da África, que tem experiência de ouvir vítimas de abuso sexual.

Nenhum vínculo de causa e efeito foi estabelecido cientificamente entre celibato e pedofilia – insiste ele. – Mais de 80% dos abusos sexuais sobre menores são cometidos por homens com relacionamento estável com uma mulher, seja ela a sua esposa ou a sua companheira. Mas o abuso sexual é também um abuso de poder, como se vê quando os abusos são cometidos

  • por médicos,
  • por educadores,
  • por professores …

Ora a ordenação permite o acesso a um certo poder e pode portanto ser um fator de risco. Não é o celibato como tal que causa problema, mas o acesso ao poder“.

Para o padre Joulain, a Comissão Australiana de Inquérito “não tem legitimidade para falar do celibato do clero católico“, diferentemente da questão do segredo da confissão que pode ser de interesse da sociedade.

 

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Claire Lesegretain

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“Devem ser feitas mudanças”: Termina o chocante inquérito australiano sobre abuso infantil

Church official: 'We hang our heads in shame'

 

Por Lucie Morris-Marr, CNN – 14 de dezembro de 2017  – Fonte: CNN

Tradução: Orlando Almeida

Austrália: 4.444 crianças abusadas por sacerdotes 

Pontos altos da história

  • Recomendações devem ser entregues ao governador-geral na sexta-feira
  • Centenas de sacerdotes foram acusados ​​de abuso infantil após as audiências

 

 

Melbourne, Austrália (CNN) Ainda há crianças que estão sendo agredidas sexualmente em instituições australianas.

Essa foi a dura advertência da Real Comissão da Austrália após uma investigação exaustiva de cinco anos, concluída na quinta-feira, sobre o abuso institucional de crianças.

Numa curta audiência em Sydney, o juiz Peter McClellan, que liderou a investigação, disse que a “nação agradece aos sobreviventes” que deram testemunho sobre

  • décadas de abuso sistemático
  • e de encobrimentos em instituições religiosas e do Estado
  • tais como igrejas, grupos de jovens, asilos e escolas.

Mais de 8.000 pessoas depuseram em sessões privadas e 2.559 queixas foram feitas às autoridades, incluindo a polícia, como resultado da investigação que custou 383 milhões de dólares (500 milhões de dólares australianos).

O abuso sexual de crianças não é apenas um problema do passado. O abuso sexual infantil em instituições continua hoje” – disse McClellan.– “Em alguns estudos de caso em escolas, o suposto abuso era tão recente que as crianças ainda estavam  frequentando a escola“.

McClellan destacou em particular a Igreja Católica Romana por ter muitas vezes colocado a sua reputação acima da segurança das crianças no que se verificou serem décadas de abuso sexual sistemático – um padrão familiar de escândalos que perseguem instituições católicas globalmente.

Alguns líderes acharam que sua prioridade era proteger a reputação das instituições… os supostos autores tinham frequentemente acesso às crianças mesmo quando os dirigentes religiosos sabiam do perigo” – disse McClellan a advogados, juristas e pessoas do público que participaram da audiência final.

Um dos líderes mais antigos da Igreja Católica Australiana, presidente da Conferência dos Bispos católicos australiano, o arcebispo Denis Hart, pediu  no início de 2017 desculpas pelos fatos evidenciados pela investigação.

Um representante da Igreja: ‘Baixamos nossas cabeças de vergonha’ 

Centenas de sacerdotes católicos acusados

No início deste ano, a comissão divulgou estatísticas chocantes de que 7% dos sacerdotes católicos, ativos entre 1950 e 2009, foram acusados ​​de crimes sexuais contra crianças. No total, foram registradas 4.444 denúncias. Como resultado, muitos casos continuam a ser investigados pelos tribunais.

Francis Sullivan, que dirige o Conselho de Verdade, Justiça e Cura da Igreja Australiana e que participou de uma audiência em fevereiro, disse na época que os números eram “chocantes”. “Eles são trágicos e injustificáveis” – disse ele.Australia: 7% of Catholic priests abused children, commission finds

McClellan observou que pode haver “ressentimento” de instituições por a Comissão Real ter interferido nos seus assuntos.

Mas devem ser feitas mudanças” – disse ele.

Na sexta-feira, a Comissão Real, cujo nome completo é Comissão Real para  Respostas Institucionais ao Abuso Sexual de Crianças, apresentará um relatório final sobre suas investigações ao Governador Geral em Canberra.

McClellan disse que o relatório fará recomendações que visam “apoiar e informar” os governos australianos, as instituições e o público em geral na prevenção e resposta ao abuso sexual infantil.

Espera-se que eles incluam questões como um trabalho mais forte dos controles de crianças, racionalizando a reparação e tornando mais fácil instaurar processos contra o abuso histórico.

A Comissão poderia levar a uma mudança “muito importante”

No início deste ano, foram feitas 85 recomendações antes das conclusões finais num relatório de justiça criminal apresentado pela comissão, incluindo o fato de que os sacerdotes deveriam ser acusados por não informarem sobre abusos sexuais de crianças declarados na confissão.

 

Linha do tempo: um olhar sobre os escândalos de abuso sexual na Igreja Católica

 Devido ao “sagrado sigilo” do confessionário, durante a investigação houve apelos de especialistas ao Papa Francisco para que oriente os líderes católicos de todo o mundo a incentivar os sacerdotes para que denunciem os crimes à polícia e também para que sejam considerados os efeitos do celibato e da formação no seminário nas possíveis causas de abuso infantil.

Timeline: A look at the Catholic Church's sex abuse scandals

Um ex-sacerdote católico, o professor Des Cahill, que era consultor da Comissão Real durante o inquérito, disse à CNN que acredita que a Igreja Católica estará interessada em verificar a implementação de todas as recomendações para criar um sacerdócio profissional.

Mesmo sabendo que isso seria uma mudança cultural importantíssima, acho que é possível a igreja eliminar o celibato obrigatório e levar tal recomendação muito a sério” – disse ele.

Eu acho que o relatório final também irá focar muito no sentimento de solidão e na falta de intimidade e como isso contribui para o abuso infantil“.

Ele acrescentou que eliminar o celibato obrigatório seria a maior mudança na Igreja Católica nos mais de 50 anos decorridos desde que a Missa começou a ser celebrada em inglês em vez de em latim.

Leonie Sheedy, CEO da Care Leavers Australasia Network, disse à CNN que a investigação serviu como um “exemplo de repercussão mundial” e as conclusões devem ser levadas em consideração pelas instituições, inclusive pelo Vaticano.

 

 O “ponto cego” do Papa sobre o abuso sexual

Os sobreviventes não têm mais medo de falar, graças a esta comissão, e de importunar os que estão no poder para prestarem contas” – disse ela. – “Eles começaram a pôr a culpa diretamente onde ela deve estar“.

The Pope's 'blind spot' on sexual abuse

Apesar de toda a evidência da extensa investigação, McClellan lembrou ao público australiano que o abuso em família era um problema ainda maior.

É intolerável e responsabilidade de toda a nossa comunidade que as crianças estejam sendo abusadas e devemos fazer tudo o que pudermos para protegê-las” – afirmou.

No final da última audiência, Gail Furness, consultora principal da comissão, leu algumas das mensagens escritas por sobreviventes que depuseram e que fazem parte de um livro especial que será apresentado na Biblioteca Nacional da Austrália.

Por nós que antes não tínhamos voz, e agora podemos ser ouvidos. E por nós, cujas vidas foram destruídas, e agora podemos começar a sarar” – diz  uma mensagem.

 

Lucie Morris-Marr

 

Lucie Morris-Marr, CNN

Jornalista investigativa

Fonte: http://edition.cnn.com/2017/12/14/asia/australia-child-abuse-hearing-conclusion-intl/index.html

 

 

 

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