Quem realmente é Leonardo Boff?

…Mesmo não exercendo o ministério ordenado, Boff continuou contribuindo na Caminhada da Igreja com suas palestras, livros e uma sempre lúcida palavra sobre a fé e a vida.

Frei Hermes Ailton de Abreu – 15/12/2017

Nesta semana, no dia 14/12, Leonardo Boff completou 79 anos. Algumas pessoas que o conhecem, assim como quem escreve estas linhas, manifestaram congratulações a este grande homem nas redes sociais. Não foram poucas as pessoas que rechaçaram as publicações com ataques à sua imagem. Rotularam-no herege, semeador de confusões, divisões e, pasmem, ferramenta do diabo para destruir a Igreja de Cristo.

 

Pensando em todas estas questões relacionadas a Leonardo Boff, imbuído de sentimento de Justiça, decidi redigir estas linhas.

Quem é Leonardo Boff? Quem é o homem que desperta tanto ódio em pessoas que se dizem a serviço de Deus? Quem é o homem e o que é mito criado para destruir sua imagem e pensamento?

Além de sabermos ser escandalosa a forma com que se agride Boff, pois vai contra todo conceito de caridade fraterna, há uma série de equívocos, informações não verdadeiras sobre ele. Em parte, culpa de Religiosos da mesma Igreja a quem Leonardo Boff – de uma forma ou de outra – sempre serviu. Pensando nisto, vamos desfazer alguns mitos para que possam entender que Boff não foi, nem é, opositor da Igreja.

 

Excomungado? 

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Parece-me que muitos de nossos irmãos não conhecem os procedimentos da Igreja. A afirmação de que Leonardo Boff foi excomungado é absurda. Primeiramente, esta prática não mais acontece por razões de divergência intelectual.

Se uma teologia não agrada o Vaticano, ele não expulsa o autor como se o queimasse nas simbólicas fogueiras da Inquisição. Seria contraditório amar uma Igreja que tratasse seus filhos com tanto ódio. Ou mesmo acreditar em uma ditadura intolerante.

O que Boff viveu foi questões acerca de algumas de suas obras. Boff tem mais de uma centena de livros escritos. Somente dois sofreram sanções da Congregação para a Doutrina da Fé. Boff criticou algumas posturas da Igreja.

Sobretudo a relação entre hierarquia e povo. As críticas e  propostas de Boff não foram acolhidas com bons olhos. Entretanto, percebemos que muito do que era inadmissível nos textos de Leonardo Boff, está sendo debatido hoje como possibilidade de novos Caminhos.

A descentralização do poder deliberativo do clero é uma delas.

  • Penso que Boff não estava muito de acordo com o tempo
  • Suas ideias eram avançadas demais para o contexto em que foram expressas.
  • Ouso dizer que seu pensamento encontrou uma Igreja insuficientemente madura para entender.

Ou pouco disposta a renunciar certas posições mais principescas do que evangélicas. Neste sentido, a verdade  é que Boff viveu um processo de avaliação de sua obra. Sofreu críticas e foi  proibido de ensinar e escrever por algum tempo. A isto se chama silêncio obsequioso. Não excomunhão.

 

Boff  Herege? 

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Penso, mais uma vez, na necessidade que tem os cristãos católicos de conhecerem os mecanismos políticos (no sentido de organização e administração) da Igreja. Quem decretou, sob bula papal, ser Leonardo Boff  herege? Onde está o documento publicado, no qual, a Santa Sé – em uso de seu magistério – decreta que o teólogo não está a serviço da Doutrina Verdadeira? Este documento não existe. O que a Igreja publicou foram orientações sobre possíveis erros nos escritos dele.

Outrossim, mais de uma vez, pude ver certo apresentador de TV Católica afirmar que a obra de Leonardo Boff está repleta de heresia e,  em consequência, seu autor é um herege. Ter uma ou duas de suas obras intelectuais questionadas pela Congregação para a Doutrina da Fé não invalida toda uma vida de trabalho.

Neste sentido, sob o risco de responder por estas palavras, afirmo: Leonardo Boff não foi, nem o é, considerado pela Santa Sé como herege. Ao contrário, a maioria de seus livros são citados e usados como referência nos cursos de teologia ao lado de Comblin, João Batista Libânio, entre outros contemporâneos.

 

Quem criou a imagem deturpada de Leonardo Boff?

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Os anos do processo de Leonardo Boff não foram os atuais. Faltavam-nos os avanços tecnológicos que desfrutamos hoje. Por volta dos primeiros anos da década de 1990, a Revista Veja publicava notas do processo de Leonardo Boff.

As informações vinham quase que íntimas. Como se o processo fosse aberto à imprensa. Sabemos que não o foi. As informações que chegavam à imprensa eram descontextualizadas e, mesmo assim, publicadas.

Afirmo, sem sombra de dúvidas, que parte do mito de um Leonardo herege chegou ao povo pela imprensa e não por palavra oficial da Igreja. Não existia internet. Por sua vez, não haviam websites. Assim, a Igreja não tinha uma forma de socializar as informações dos caminhos da Santa Sé como se pode fazer hoje.

O silêncio obsequioso foi noticiado pela mídia, mas entendido – deturpadamente – como excomunhão. As sanções feitas aos livros “Jesus Cristo Libertador” e “Igreja: Carisma e Poder” foram noticiadas como condenações à heresia. Todavia, se assim o fosse, esses livros não poderiam ser reimpressos pela Editora Vozes,  sabendo que esta é uma editora católica.

Outra forma que se deu a construção da  imagem de “Leonardo herege” foi a falta de discernimento de alguns religiosos que, usando do acesso às TVs católicas, expuseram suas opiniões pessoais como Magistério Oficial da Igreja. Em parte, depoimentos de pessoas que nem mesmo leram toda a obra de Boff. Tais opiniões motivadas pelo modismo e desejo de se promover.

 

E quem realmente é Leonardo Boff?

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Nasceu em Concórdia (SC) em 1938. Filho de imigrantes italianos, esteve ligado, desde sua infância, à vida da Igreja. Por ter  em Concórdia uma paróquia com presença dos Frades Franciscanos da Província Imaculada Conceição do Brasil, sentindo seu chamado vocacional, ingressou no processo de formação na referida Província Franciscana.

Seguiu um caminho bonito. Atento às necessidades de uma Igreja mais comprometida com os Pobres, engrossou as fileiras dos que entendiam esta necessidade. Dotado de uma inteligência ímpar, destacou-se nos estudos, sendo enviado à Alemanha, onde obteve duplo doutorado em Teologia e Filosofia. 

De volta ao Brasil, torna-se

  • escritor profícuo,
  • professor de teologia,
  • sacerdote nas periferias.

Deixou grande afeto e saudade nas Comunidades de Petrópolis. Muitos são os que se deixaram inspirar por Leonardo Boff. Seu legado será lembrado por muitos anos. Um homem para além da história.

Sobre seu pedido para deixar o Ministério Sacerdotal, não me atenho em narrativas. Cabe somente a ele falar a respeito. Já são muitas as falas desastrosas e invasivas. Importa saber que, mesmo não exercendo o ministério ordenado, Boff continuou contribuindo na Caminhada da Igreja com suas palestras, livros e uma sempre lúcida palavra sobre a fé e a vida.

Penso que poderia me estender muito mais. Outrossim, acredito que tenha chegado ao objetivo deste  texto. Meu desejo é desmitificar a figura de herege e excomungado vinculado a Leonardo Boff. Alcunhas que insistem em lhe impor. Termino lembrando de uma palavra de Jesus, na qual, Ele afirma: “conhece-se uma árvore pelos seus frutos”.

São fecundas as colheitas semeadas por Leonardo Boff. Lá, junto de Deus, tenho certeza que Cristo e Francisco de Assis estão satisfeitos com nosso irmão Leonardo.  Sei que a voz dele não será calada por pessoas sem o conhecimento real dos sonhos desse homem de Deus. Boff, estou certo, só deseja – como todos nós – anunciar o Reino de Deus. De justiça, ternura, vigor, pão e beleza.

 

Frei Hermes Ailton de Abreu

 

Fonte: https://noscaminhosdefrancisco.wordpress.com/2017/12/14/leonardo-boff-o-homem-e-o-mito/

 

 

3 comments to Quem realmente é Leonardo Boff?

  • Luiz Eduardo

    Realmente,como a tendência humana de dar destaque ao erro,esquecendo de tudo de bom que foi feito.Leonardo Boff , é realmente um homem além do seu tempo,como tu o disseste no texto,que o Papa Francisco recorreu para elaborar a Laudato Si, e que Bento XVI tem um respeito e admiração .Mas os ditos “conservadores” da Igreja o massacram e deturpam,ou tentam , deturpar a sua imagem.Creio que a história fará justiça a ele. Discorod d apostura dele em relação a política , onde ele assume a defesa de um partido político,mas leio e aprendo muito com seus livros.

  • Erick

    A teologia da libertação não é algo ruim e sim tenebroso e horrível, as pautas anti-cristãs que lemos aqui é de se cheirar a enxofre. Cuidado com o que seguem, pois todos nós somos chamados a renunciar as ideologias e seguir a criação de Deus e amor de Cristo. Boff tomou o rumo que plantou. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e jogada ao fogo.

  • João Tavares

    Erick, suas afirmações acima dizem tudo e não dizem nada. Convido você a fazer um artigo expondo e argumentando sobre essas frases tão radicais e tão genéricas.

    João Tavares – Editor

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