A indígena Marichuy está sacudindo o México. Esta é a sua história

María de Jesús Patricio Martínez, conocida como MarichuyJuan Pablo Duque  09/12/2017

foto: María de Jesús Patricio Martínez, conhecida como Marichuy. Marichuy é, para uns, uma aspirante a candidata independente para a disputa presidencial; para outros, é a porta-voz do Congresso Nacional Indígena de Governo (CNI), uma organização autônoma de comunidades, aldeias, bairros e tribos indígenas do México, criada em 1996.

Porta-voz ou candidata, Marichuy é uma mulher em um país onde aproximadamente 7 mulheres são assassinadas diariamente e apenas  25% dos casos são investigados como feminicídio.

Tradução: Orlando Almeida

O sol irrompe na Cidade do México, por trás do morro, redondo e gigantesco vem iluminar o oceano de concreto que, em forma de casas, conjuntos e edifícios, constitui uma das cidades mais caóticas do planeta. O sol passa por um sem fim de automóveis e avenidas e detém-se sobre um painel que diz: “Viemos falar de coisas impossíveis porque do possível já se falou demais”.

Em 28 de novembro, María de Jesús Patricio Martínez – Marichuy – visitou, como parte da sua turnê nacional, milhares de estudantes universitários da maior casa de estudos do México. Não foi um dia qualquer na Cidade Universitária, nem na Universidade Autônoma do México (UNAM).

  • Mas então, por que houve tanto rebuliço?
  • Quem é Marichuy e por que é que ela está agitando o México?

Marichuy é,

  • para uns, uma aspirante a candidata independente para a disputa presidencial;
  • para outros, é a porta-voz do Congresso Nacional Indígena de Governo (CNI), uma organização autônoma de comunidades, aldeias, bairros e tribos indígenas do México, criada em 1996.

Porta-voz ou candidata, Marichuy é uma mulher em um país onde

  • aproximadamente 7 mulheres são assassinadas diariamente
  • e apenas  25% dos casos são investigados como feminicídios.

É também uma mulher indígena num país onde a recente Pesquisa Nacional sobre Discriminação mostra que há uma relação entre os traços de origem e as oportunidades econômicas, educacionais, sociais, de emprego e de saúde. Em outras palavras, é

  • uma mulher indígena
  • num país sexista
  • com altas taxas de racismo e discriminação.

Nasceu em Tuxpan, Jalisco, no ano de 1963. Originária de uma tribo Nahua, foi testemunha, desde a infância, dos saques e da opressão das suas comunidades, provações que se cristalizaram dentro dela como uma rebeldia inspiradora. “Estamos cansados ​​de deixar que o sistema continue a  nos destruir” – disse ela à jornalista Carmen Aristegui.

Dedicou a sua vida à medicina tradicional, herdou da sua mãe e da sua avó tradições que coloca a serviço da sua comunidade num centro de saúde que fundou em 1992 e que denominou Calli Tecolhocuateca Tochan ou Casa dos Antepassados, espaço apoiado pela Universidade de Guadalajara.

 

Marichuy, la candidata presidencial de los pueblos indígenas en México

Foto in: https://static.iris.net.co/semana

 

Na conjuntura de 1994, quando o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) irrompeu na cena nacional mexicana, muitos povos indígenas foram chamados a erguer a sua voz. Marichuy foi convidada pelo EZLN a participar do Fórum Nacional Indígena, que se realizou em San Cristóbal de Las Casas, em Chiapas. A partir de então, passou a ser uma referência para os povos originários do México,

  • na luta contra o machismo,
  • na luta pela dignidade indígena
  • e na luta contra o sistema capitalista.

A nossa proposta é muito simples: estremeçamos juntos  esta nação” – disse Marichuy num palco improvisado no andar superior da Biblioteca Central da Cidade Universitária, decorada pelos murais de Juan O’Gorman e diante dos olhos expectantes de uma multidão de universitários. “A vocês, a juventude consciente, nós vos reconhecemos como uma grande luz no meio de tanta morte e escuridão” – disse Marichuy – cujas palavras foram acolhidas por um aplauso ensurdecedor.

Marichuy representa a esquerda mais radical – de raízes – que tem como princípios:

  • mandar obedecendo,
  • representar e não suplantar,
  • servir e não servir-se,
  • convencer e não vencer,
  • descer e não subir,
  • propor e não impor,
  • e, por último, construir e  não destruir.

Representa as comunidades que querem mudar o México e o mundo a partir de baixo e para a esquerda para criar “um mundo no qual caibam muitos mundos”.

No final de maio de 2017, a Assembleia Constituinte da CNI nomeou Marichuy como porta-voz do movimento com vistas às eleições de 2018. Imediatamente apareceram críticas de todas as cores e ideologias.

  • Primeiro dos puristas que criticaram que os povos indígenas tivessem uma candidata à presidência participando do jogo eleitoral, quando tinham sidos elas – as comunidades originais – as mais críticas ao sistema.
  • Por outro lado, apareceram os progressistas da esquerda institucional, que atacaram a nomeação de Marichuy, argumentando que subtrairia votos ao seu representante, Andrés Manuel López Obrador, o que em termos eleitorais beneficiaria os candidatos dos partidos tradicionais: Partido da Revolução Institucional (PRI) e Partido Ação Nacional (PAN),

ao que Marichuy e a CNI responderam:

“Nós não queremos votos, a nossa luta é pela vida”. Uma candidata que não quer votos? Por paradoxal que pareça, é coerente com os anos e as ações do EZLN e do CNI. Carlos Gónzalez, membro do CNI, afirmou em 15 de abril: “As eleições são, por excelência, a festa dos de cima, e queremos entrar de penetras nessa festa e estragar o máximo que pudermos”.

O sol despedia-se da Cidade Universitária. A cor laranja dominava o céu e Marichuy continuava a soltar frases como estas:

“Sacudamos esta nação, descolonizemos o pensamento capitalista e patriarcal. Demonstremos que é possível outra forma de nos governarmos. De entre as ruínas nascem esperanças e mundos novos”.

Entre os participantes do encontro estava Santiago, aluno do último semestre de psicologia; que disse: “que ela vá a uma universidade para se aproximar dos estudantes é algo que poucos fazem”, referindo-se à disposição de Marichuy de conversar com os estudantes.

Ela ali de pé, envolta em flores, com o seu vestido branco, e aos seus pés, mil cabeças atentas aos movimentos da sua boca;

“Devemos conseguir que a transmissão do conhecimento esteja vinculada e a serviço dos de baixo e que não seja uma arma dos poderosos” e os presentes respondiam-lhe com um cântico: “Zapata vive, a luta continua e continua”, fazendo referência a Emiliano Zapata, líder da Revolução.

Como bem dizia Foucault,

  • o espaço não é um pano de fundo,
  • mas uma relação entre as pessoas,

e a esplanada da Biblioteca Central, ao sul da Cidade do México, tornou-se um espaço para almejar um mundo melhor.

 

A mudança já está feita.

Que Marichuy, uma mulher indígena, se tenha tornado a porta-voz do CNI para as eleições, alvoroçou a opinião pública mexicana e, com isso, vieram à luz os comentários

  • machistas,
  • misóginos,
  • classistas
  • e racistas

que se escondem em todos os tipos de discursos, de esquerda e de direita. Mas que Marichuy percorra o país e exponha aos mexicanos a sua posição anti-sistema é um fato muito importante na vida política latino-americana.

A sua voz

  • une os mais perseguidos,
  • torna visíveis os problemas relacionados às mulheres e à pobreza,
  • evidencia as injustiças que os povos originários sofreram desde há muitos séculos atrás e mostra que os de baixo continuam sem acesso a serviços dignos de saúde e de educação.

Marichuy é uma mulher da cor da terra que chama à luta todos os povos indígenas, que não podem ser excluídos do projeto de nação pluricultural: “Não mais um México sem nós” – gritava Marichuy.

Embora ainda não tenha recolhido as assinaturas necessárias para validar a sua candidatura perante o Instituto Nacional Eleitoral (INE), Marichuy

  • já mudou o panorama político e as eleições presidenciais do México.
  • Ela já colocou os feminicídios no debate nacional.
  • Já fez uma turnê para ouvir as comunidades indígenas.
  • Já conseguiu falar diretamente com os estudantes universitários e deixar-lhes uma mensagem:

“Nossa luta não é por poder, nem por votos, nem por cargos políticos. Estamos buscando a consciência coletiva dos de baixo, que vimos florescer nos estudantes organizados”.

Marichuy mostrou

  • que outra política é possível,
  • que os de baixo existem
  • e que eles podem organizar-se para erguer a sua voz.

Marichuy demonstrou o que muitos negam: que a grande maioria das mexicanas vivem em uma espiral de violência, de insegurança e de injustiça que corrói as suas vidas.

Por último, num mundo acelerado, cheio de contingências, Marichuy presenteou com momentos, vivências e momentos inesquecíveis as pessoas que lutam em todo o território mexicano, como diz Fernanda, acadêmica de letras na UNAM: “Marichuy está nos brindando com magia e esperança no tempo”.

Juan Pablo Duque

Fonte: http://www.tierrasdeamerica.com/2017/12/09/la-candidata-que-quiere-los-votos-la-indigena-marichuy-esta-sacudiendo-mexico-esta-es-su-historia/